
Edgar Welzel
De Stuttgart, Alemanha
Os especialistas em assuntos de energia nuclear não são unânimes no que diz respeito à segurança das usinas de energia nuclear. Há entre os representantes dessa comunidade de profissionais alguns que ainda são de opinião que a técnica da energia nuclear é isenta de qualquer possibilidade de perigo. Outros falam em “risco minimal”, em “pequena margem de risco”, em “perigos controláveis” e demais expressões parecidas. Em nível internacional não existe substantivo para definir este risco final, risco minimal ou pequena margem de risco. Na língua inglesa é comum a expressão residual risk ou, menos frequente, final risk. Na língua alemã existe o substantivo Restrisiko que chega muito perto da expressão inglesa residual risk mas bem mais adequado. Restrisiko explica tudo, com um só termo.
Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, em entrevista em dezembro passado, falando sobre os principais acontecimentos de 2011, fez menção também a Fukushima. A tragédia no Japão contribuiu substancialmente para que o governo alemão decidisse se despedir da energia nuclear. Angela Merkel explicou: “(...) a partir de 11 de março de 2011 (início da catástrofe) aquela pequena margem de risco [Restrisiko ou residual risk] tem um nome: chama-se Fukushima”.
Não sabemos se a observação de Ângela Merkel de fazer do nome próprio Fukushima um substantivo para designar internacionalmente o que se entende por residual risk, Restrisiko ou “pequena margem de risco” seja coroada de êxito. Mesmo assim a observação da chanceler não parece imprópria, pois com o uso do substantivo Fukushima como sinônimo de “probalidade mínima de risco”ou residual risk o linguajar tornar-se-á mais preciso, mais concreto e mais universal.
No fim de 2011 alguns jornais ao redor do mundo fizeram enquetes perguntando aos seus leitores sobre os episódios mais marcantes do ano. Jornais no Brasil fizeram enquetes parecidas. A “Folha.com”, por exemplo, elaborou uma relação de dez tópicos para escolher aquele, ou aqueles, de maior impacto. Entre os leitores da “Folha.com”, 37% acharam que Fukushima foi o acontecimento de maior impacto do ano de 2011; a Primavera Árabe impressionou 27% dos leitores; a crise financeira de EUA e Europa, 17%; e a morte de Bin Laden, apenas 10% dos leitores. Curiosamente os resultados na mídia europeia, em enquetes semelhantes, foram parecidos. Fukushima foi, sem dúvida, o episódio que mais comoveu a população em 2011, pelo menos no mundo ocidental.
Poucos dias antes da entrevista de Ângela Merkel, um cidadão japonês, no outro lado do Globo, o porta-voz da Tepco, empresa operadora da Usina Nuclear de Fukushima, também apareceu nas telas da televisão e foi direto ao assunto: “(...) necessitaremos de 40 anos para desativar completamente os reatores de Fukushima”, disse, com gestos subalternos, o japonês. Caro leitor, você leu bem? Quarenta anos só para desativar os reatores daquele montão de escombros que restou de Fukushima? E a descontaminação?
Eis aí trabalho para uma geração de técnicos! Fukushima é, portanto, sinônimo de catástrofe nuclear. É um segundo Tchernobil que fustigou a humanidade nesses últimos 30 anos, com consequências, sabe lá até quando. O termo Fukushima, proposto por Ângela Merkel, para designar o residual risk ou o Restrisiko e mesmo para designar uma tragédia nuclear, calha bem pois torna o assunto concreto justamente por partir de ou evocar uma tragédia real que permanecerá na memória de gerações vindouras.
Tragédia bibliofílica
Outro episódio, não tão trágico em número de vítimas mortas ou pessoas feridas, mas com inestimáveis perdas culturais, aconteceu em Colônia, cidade alemã, às margens do Reno. Não se sabe exatamente por quê, há três anos, subitamente, desmoronou o arquivo histórico daquela cidade, um prédio construído em 1971. Não se trata de um arquivo qualquer. Foi um dos maiores arquivos municipais da Alemanha. Em seu acervo encontravam-se documentos antiquíssimos. Os mais antigos datavam do século 9. A quantidade de livros soterrados foi tão volumosa que, colocados lado a lado, como na estante, daria uma fila de 30 km de extensão. Além disso 65 mil certificados, o mais antigo do ano 922, 104 mil mapas e 500 mil fotografias faziam parte do acervo. Trata-se da maior tragédia bibliofílica na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial. Entre o livros soterrados encontra-se também o completo acervo literário de Heinrich Böll (1917-1985), laureado com o Nobel de Literatura em 1972 e considerado o maior escritor da Alemanha após a 2ª Guerra Mundial.
Muitos livros, documentos, manuscritos da história universal, da história europeia, da história alemã, da história da cidade de Colônia, manuscritos da Idade Média, incunábulos de inestimável valor foram soterrados. As autoridades apressaram-se em cobrir a área sob os escombros com folhas de plástico mas os trabalhos foram dificultados pela chuva contínua e neve que caíram nos dias seguintes ao desmoronamento. Tornou-se impossível evitar que a água das chuvas se infiltrasse no acervo soterrado. A comunidade científica bibliofílica entrou em choque.
Em minucioso trabalho que durou quase três anos, técnicos e especialistas conseguiram recuperar parte dos valiosos livros e documentos. Alguns estavam intactos; a maioria, no entanto, altamente danificada pela umidade, sujos, impregnados de água. Além disso, o depósito de emergência não tinha condições técnicas para a restauração nem espaço suficiente para abrigar tal quantidade de volumes. O acervo teve que ser distribuído entre 19 outros arquivos que espontâneamente ofereceram ajuda.
Passados quase três anos os originais das primeiras obras restauradas foram apresentadas ao público. Georg Quander, o responsável pelo Departamento Cultural da cidade, comentou: “Não podemos mostrar muita coisa, mas já podemos mostrar alguma coisa. Já é um começo”. Esta “alguma coisa” constava de cerca de 600 certificados manuscritos dos anos 922 até 1815; 60 incunábulos da Idade Média e mais 70 mil livros variados dos anos 1100 até 1800. “É lógico” acrescenta Georg Quander, “muitos livros e documentos permanecerão com defeitos”. Um dos documentos expostos que chamou muita atenção é um certificado, com raros e belíssimos adornos caligráficos, do ano de 1396, com o qual Colônia (cuja origem data do período romano) foi elevada à categoria de cidade.
Em agosto de 2011 foram dados como terminados os trabalhos de procura debaixo dos entulhos e enorme quantidade de terra. Segundo um do responsáveis do arquivo “cerca de 90% do acervo foi encontrado. A parte mais difícil ainda terá de ser resolvida: a restauração até o último documento”.
Enquanto isso, o projeto para a construção de um novo arquivo está em pleno andamento. Paralelamente, a Justiça aguarda os resultados da perícia técnica sobre as causas do desmoronamento no qual também morreram duas pessoas. Próximo ao lugar da tragédia está em andamento a construção de um túnel para mais uma linha do metrô e supõe-se que estes trabalhos tenham causado o acidente.
A diretora do arquivo, Bettina-Schmidt-Czaia, referindo-se aos trabalhos de restauração e aos volumes já expostos declarou que “se trata de um acontecimento altamente importante, mas para restaurar todos os volumes e documentos recuperados, levaremos mais 40 ou 50 anos”.
A tragédia de Fukushima e o desmoronamento do Arquivo Histórico de Colônia são episódios que, por sua natureza, não são comparáveis e um não tem nada a ver com o outro. Há, no entanto, um detalhe interessante: os restauradores de Colônia levarão meio século para terminar os trabalhos apenas iniciados. Trabalho para uma geração de especialistas. Como os de Fukushima.