34 anos
Wilson Silvestre
Excesso de petismo pode atrapalhar Agnelo no Legislativo

O excesso de petismo, tanto na Câmara Legislativa quanto nos principais postos da administração do Governo do Distrito Federal, talvez seja o nó cego que o governador Agnelo Queiroz (PT) tenha que desfazer. Esta é a avaliação mais ouvida nos bastidores políticos do DF. A constatação destes burburinhos toma coro quando um olhar mais atento contabiliza que o presidente da Câmara Legislativa, Cabo Patrício, é do PT, e segue com o secretário de Governo, Paulo Tadeu, PT, líder do Governo, PT, e vai por aí. Embora não tenha rosto ou uma voz, este sentimento é generalizado na base parlamentar de Agnelo. Tanto que já começa a emitir sinais aos aliados de que está na hora de equilibrar as forças.

O Jornal Opção ouviu alguns deputados sobre o tema. A maioria preferiu fazer silêncio ou só se pronunciou anonimamente, mas Chico Vigilante, líder do bloco PT-PRTB, opinou que existe mais especulações na mídia do que fatos concretos. “O que pode estar acontecendo é um ou outro parlamentar fazer sondagem para testar a temperatura”, argumenta. Mesmo dourando a pílula, Vigilante sabe que o processo já está na pauta política, basta seguir os movimentos da deputada Arlete Sampaio (PT), que deixa a poderosa Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) e volta à Câmara Le­gis­lativa. Arlete costura apoios para substituir Cabo Patrício da presidência do Legislativo.

Com o fim do recesso parlamentar, as conversas de bastidor já dão mostra do quanto será concorrida esta disputa para presidente da mesa diretora. Como o regimento interno da Câmara Legislativa não permite reeleição, o deputado Cabo Patrício (PT) está fora do jogo. “Mesmo que fosse possível, sou contra a reeleição”, afirma Chico Vigilante, um dos aliados mais fiéis do governador Agnelo Queiroz. Vigilante pondera que “ainda é muito cedo para especular sobre o tema já que a eleição só será realizada no fim do ano”.

O deputado Chico Leite (PT) pensa diferente. Ele diz ter detectado algumas articulações neste sentido, como os nomes dos deputados Rôney Nemer (PM­DB), Dr. Charles Roberto de Lima (PTB), Agaciel Maia (PTC) e Arlete Sampaio (PT), como postulantes à vaga de Patrício. Embora tenha omitido seu nome, Chico Leite é citado na bolsa de especulações como forte para ser colocado na mesa de negociações. “Trata-se um nome ético e que pode contrapor o avanço do deputado federal Antônio Reguffe (PDT), na conquista da classe média, segmento que o PT vem perdendo dia a dia”, revela uma fonte. O problema de Chico Leite é exatamente este: ser duro nas críticas, principalmente ao próprio, quando comete alguma derrapada. Este lado ‘promotor pú­blico’ dificulta um pouco conquistar votos junto aos colegas. “Hoje, dentro do PT do Distrito Federal, o parlamentar que mais encarna o espírito crítico que seduz os ouvidos da classe média formada por funcionários públicos é Chico Leite”, avalia uma fonte. Mesmo com este capital po­lítico, Leite sabe que terá que vencer muitas barreiras dentro de seu próprio partido. “Percebo que os colegas parlamentares desejam alternância nos cargos da mesa diretora da Câmara, mas ninguém ainda discutiu isso comigo.”

Do lado dos blocos menores, capitaneados pelas deputadas Celina Leão, Liliane Roriz e Eliana Pedrosa, ambas do PSD, pode haver perdas nos cargos da mesa ou comissões, já que elas são marcadamente oposicionistas.
Enquanto os parlamentares articulam, o governo finge não estar acontecendo nada pois é o maior interessado em prolongar esta discussão. “As comissões só vão começar mesmo em fevereiro, quando os parlamentares definirem os blocos e colocar na mesa suas reivindicações”, imagina Vigilante.

Agnelo tem o desafio de manter este cesto de siris composto por 20 partidos sustentando sua base política. Não será nada fácil administrar a gula por cargos e pedidos de obras nos mais variados recantos do DF.

Tadeu perde anéis do poder e Agnelo deve dar rumo ao governo

O silêncio de Agnelo Queiroz sobre as críticas ao “estilo José Dirceu de mediar conflitos”, atribuídos ao secretário de Governo, Paulo Tadeu, foi quebrado com a recriação da Casa Civil, extinta no início do ano passado. Todos que gravitam em torno de Agnelo e Paulo Tadeu juram tratar-se de “ajuste para aliviar a carga de serviços em cima do secretário”.
Ao iniciar estes movimentos, Agnelo dá mostras de que pretende, a exemplo da presidente Dilma Rousseff, fazer uma correção de rumos na gestão pública do DF. Ou seja, muita gente acomodada em postos estratégicos da administração pode perder a cadeira.

O Jornal Opção apurou que Agnelo não está nada satisfeito com os rumos que o governo tomou, principalmente, quando os números que avaliam sua aprovação não melhoram. “O governador, munido de uma pesquisa qualitativa e abrangente que tem em mãos, vai trocar algumas peças importantes que não têm correspondido às exigências do modelo de gestão pública que a sociedade espera”, comentou uma fonte próxima ao governador. A recriação da Casa Civil é apenas a ponta do iceberg que Agnelo pretende mostrar ao brasiliense, de que “acabou a era do Agnelo paz e amor”. Ele concluiu em seus breves dias de férias que não dá para tocar um governo mediando conflitos, apagando incêndios e gastando o tempo com reuniões que “não levam a lugar nenhum”.

O silêncio estridente de Agnelo sobre sua queda em pesquisas qualitativas e, principalmente, a falta de confiança do brasiliense em seu governo, compromete o seu futuro político e do grupo que apostou na sua eleição. Os ventos que sopravam mudanças, na prática, deixaram a descoberto o que tem de mais pernicioso na administração pública brasileira: o clientelismo. “Agnelo quer mudar isso trocando algumas peças e dialogar mais com a sociedade, não só pelos meios convencionais da interlocução política ou midiática, mas também instrumentando as redes sociais para levar as ações de governo a todos os brasilienses” atesta a fonte ouvida pelo Jornal Opção.

De fato, as demandas burocráticas estavam limitando a ação política de Paulo Tadeu, por isso, as mudanças estruturais na Secretaria de Governo. O serpentário do Buriti alardeia que a retirada de poder de Paulo Tadeu, para Agnelo, é reorganização de atribuições.

Um dos erros de Paulo Tadeu foi estatizar as relações políticas do GDF, tipo toma lá dá cá. Ao praticar este clientelismo, ele sufocou o diálogo com a sociedade e suas demandas, transformando o setor produtivo num apêndice de uma economia de Estado, não estimulando a economia de mercado, principalmente o setor de serviços, uma grande fonte de recursos do governo local. O reflexo foi perda de apoio e esperança depositados em Agnelo, como apontam pesquisas.

A mídia brasiliense especula nomes para Casa Civil, como os petistas Raimundo Júnior e Carlos Eduardo Gabas, mas pode haver surpresas. De concreto mesmo é o corte numa das asas de Paulo Tadeu que, de tão poderoso, au­mentou o número de seguranças, tornando-se inacessível aos mortais, bem parecido com José Dirceu nos tempos áureos da Casa Civil da Presidência.

Este é o reflexo da elite petista brasiliense, que ainda acredita numa sociedade só alimentada pela tutela do Estado. Vivem acima das possibilidades reais do mundo, que busca conter gastos com a máquina burocrática, conter desperdícios e melhorar a eficiência dos serviços prestados aos cidadãos. Talvez Agnelo agora mostre a que veio.