
Em greve há 36 dias, os policiais civis do Distrito Federal consideram a atitude do governo em relação ao movimento grevista uma forma de retaliação, afirma o diretor do Sindicato dos Policiais do DF, Divinato da Consolação.
“Ele tem tratado a Polícia Civil com descaso porque não deixamos de investigar mesmo que ele transfira policias. Ele pode até não gostar da gente, mas precisa nos aceitar.” Foi a Polícia Civil que deflagrou, em 2010, a Operação Shaolin para investigar os supostos desvios de dinheiro do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte por parte de integrantes do PCdoB, ex-partido de Agnelo.
Recentemente, o governador exonerou 51 delegados e dirigentes da Polícia Civil depois do vazamento de conversas telefônicas entre ele e o policial militar João Dias, delator do suposto esquema de desvio de recursos que derrubou o ministro do Esporte, Orlando Silva (PCdoB). “Se ele não tem envolvimento, deveria ir para a mídia e dizer, e não usar a Polícia Civil como bode expiatório.” Na opinião de Divinato, os “indícios saltam aos olhos e a polícia não poderia se furtar a fazer a investigação”.
Na quinta-feira, 24, o governador anunciou que cortará o ponto dos policiais em greve. A categoria reclama que o governador voltou atrás no que foi acordado em abril, quando a Polícia Civil fez uma paralisação de 15 dias. Na época, os policiais reivindicavam a reestruturação da carreira do policial. Em negociações com a categoria, Agnelo prometeu reestruturar a carreira em 2012 e um reajuste de 13% no salário. Como a Polícia Civil do DF é vinculada ao governo federal, o governador não conseguiu cumprir a promessa “e nem se moveu em nada para conseguir”, afirma Divinato. O que levou a categoria a dar início à atual paralisação.
Na opinião do diretor do Sinpol, Agnelo Queiroz não representa nenhum avanço próprio dos governos populares. “Foi uma surpresa negativa porque ele não dialoga com os trabalhadores.”
Para se contrapor aos policiais, o governador divulga que a Polícia Civil do DF é a mais bem paga do País, com salários que variam de R$ 7,5 mil a R$ 21 mil.
Brasília está nas mãos de Gurgel, afirma Celina Leão
A deputada Celina Leão (PSD) tem despontado como a principal voz da oposição no DF. Em sua última movimentação, ela requereu os documentos auditados pelo deputado Izalci Lucas (PR) dos convênios realizados pelo Ministério do Esporte. Com base nestes documentos, o deputado afirma que foi montado um esquema de desvio de dinheiro público dentro do ministério que era operado por uma quadrilha.
Na avaliação da deputada, o governador acabou ganhando um fôlego nas últimas semanas por causa da demora do procurador-geral da Repú-blica, Roberto Gurgel, em permitir as investigações que envolvem o governador. “Bra-sília está nas mãos de Gurgel”, afirma a parlamentar. A Polícia Federal aguarda autorização para investigar as declarações de Daniel Tavares, o lobista que denunciou ter pago propina ao governador em troca de uma interferência em favor da empresa União Química na Anvisa e depois voltou atrás. “Espero que Gurgel autorize essa investigação porque será nesse caso que o governador será pego.” As demais denúncias envolvem fatos anteriores à eleição para governador, mas a eventual compra de testemunha teria ocorrido depois de eleito.
Celina comemora a abertura de sindicância por parte da Anvisa para investigar indícios de irregularidades em contratos que beneficiam a empresa União Química e a quebra do sigilo bancário e fiscal do governador por parte do Superior Tribunal de Justiça (STJ), na quarta-feira, 23. Orlando Silva (PCdoB), o policial militar João Dias Ferreira e mais oito empresas e entidades também tiveram o sigilo fiscal quebrado.
GDF inaugura obras do governo federal para conter crise ética
O governo tenta mostrar serviço para conter a crise. Essa seria a recomendação da empresa contratada pelo governador Agnelo Queiroz para gerenciar a crise, mas ao que tudo indica, não há o que mostrar. O Hospital da Criança de Brasília José de Alencar, inaugurado semana passada pelo governador, não conta com investimento do GDF. Foi construído pela Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) a partir de doações arrecadadas principalmente por Mariza Campos, viúva de José Alencar. À União coube equipá-lo e, ao governador Agnelo Queiroz, somente cortar a fita numa tentativa de recuperar sua imagem.
Também na semana passada, o governador assinou a adesão do Hospital de Base do DF (HBDF) ao Sistema Único de Saúde (SUS). Todavia, o hospital sempre atendeu pelo SUS e trata-se um uma unidade de saúde pública. “Estão subestimando a inteligência do povo”, afirma um político.
Enquanto tenta se recompor frente à opinião pública, o governador se esquece dos projetos que estão na Câmara e têm prazo para ser votados: o Orçamento, IPVA, IPTU e PPA. “Ele está mais preocupado com o projeto de Gestão democrática das escolas públicas, que recebeu mais de 30 emendas da oposição que agradaram aos educadores.
Para não dar crédito à oposição, o governo pretende retirar o projeto e incorporar as emendas como se fossem de autoria dele”, conta o político.
Plano de saúde não sai do papel
A deputada Eliana Pedrosa (PSD) chama atenção para o fato de o plano de saúde para servidores públicos não ter sido implantado, apesar de a lei que criou o Plano Privado de Assistência à Saúde ser de 2009 e estar em vigor. “No entanto, o ano de 2011 chega ao fim sem que se vislumbre uma luz ao fim do túnel.” Segundo a deputada, já existe legislação e orçamento para o atendimento dessa antiga reivindicação dos servidores. “O orçamento deste ano destina R$ 27 milhões para a ação e até agora está intacto.” O atraso na implantação sobrecarrega a rede pública de saúde, afirma Eliana Pedrosa. “São 137 mil servidores em atividade no DF que estão sendo atendidos nos postos de saúde e hospitais públicos e que poderiam usar os hospitais e clínicas privados se lhes fosse dada essa alternativa.” Ela conta que o governo de Agnelo Queiroz cortou 50% dos recursos destinados à implantação do plano de saúde dos servidores em 2011. Do total de R$ 250 milhões previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA), restou pouco mais de R$ 107 milhões para o Instituto de Assistência à Saúde (Inas).
DF lidera roubos e uso de drogas
De acordo com dados da 5ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Distrito Federal liderou o número de roubos e de posse e uso de drogas no Brasil em 2010, além de ser a segunda unidade da federação com menor investimento per capita na área de segurança – R$ 110,28 em 2010, valor superior apenas ao Piauí, que foi de R$ 93,63.
De acordo com o estudo, em 2010 ocorreram 1.032,5 roubos no DF para cada 100 mil habitantes. O segundo lugar ficou com o Amazonas, com taxa de 949,9. O Distrito Federal ocupou o quarto lugar em roubo de veículos, atrás de São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro e, em relação à posse e uso de drogas, o índice registrado no DF foi de 134,1 a cada 100 mil habitantes, contra 113,8 apontado em 2009. O Rio Grande do Sul veio em seguida, com taxa de 93,4.
O levantamento aponta que houve aumento de 277,69% nos investimentos dos governos federal e distrital em defesa civil no DF e queda de 6,32% em policiamento. O documento também apontou que 65% dos entrevistados no Distrito Federal, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro disseram que a polícia é “nada ou pouco confiável”. A mesma opinião foi registrada por 51% dos consultados sobre o Judiciário.