34 anos
Elder Sales
Internação compulsória: Um band aid para a questão das drogas
No filme “Bicho de sete cabeças”, uma interessante história do cinema nacional, é ilustrada a temática da dependência química e a dificuldade que a família tem de lidar com a situação. O jovem que fuma maconha é internado forçosamente e se afoga num sistema de tratamento despreparado que parece mais próprio para aproximar o vicio da insanidade...

Diante das últimas noticias sobre a aprovação da internação compulsória proposta pela Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate as Drogas parece que a inércia governamental sofre um abalo sísmico do tipo “antes tarde do que nunca”.

De fato, questões ligadas à dependência química, violência urbana e o aumento mais que exponencial da criminalidade sempre foram batatas quentes que o poder público jogou de um lado para o outro. Entretanto, talvez assustado pela infiltração aterrorizante do crack e de outras derivações da cocaína e do estrago que temos visto nas famílias e na sociedade, a tomada dessa medida, mesmo que polêmica pode, ao menos, tentar um enfretamento para a situação mais que alarmante.

Aos que esperam a criação de leis que permitam a efetivação da idéia uma noticia importante: Desde 1938 existe o Decreto-Lei 891 que trata da fiscalização de entorpecentes e delega a conduta de tratamento do usuário de drogas e, pasmem, deixa claro e proibido que seja em domicílio. A justificativa leva em conta a situação do dependente químico e os riscos que ele passa a representar a ordem pública. O decreto está em vigência. Para maiores esclarecimento dessa legislação busque o site www.conjur.com.br.

Das várias questões causadoras de ebulição nas opiniões contrárias a internação está o direito a liberdade, o consagrado direito de ir e vir tão religiosamente conhecido como livre arbítrio. Fragilizados por motivos que não cabe julgamento, sabe-se que o usuário perde esse discernimento e coloca em teste a sua vida e a vida dos outros. A vida, esta sim é que representa o maior dos direitos que o Estado deve garantir.

Outro aspecto é o risco da prisão ou encarceramento indeterminado o que está sendo pensado pela equipe que faz parte da comissão especial. Na verdade, o receio não esta no internamento puro, mas sim nas condições e nos recursos que deveriam se usados para um tratamento digno. O dinheiro deve vir de algum lugar o que justifica o corpo mole dos governantes, pois seria mais uma prestação de contas a sociedade além de colocar a mão numa caixa de abelha de imensos interesses.

Para as mães, dilaceradas, que vire e mexe clamam por ajuda das autoridades (in)competentes seria melhor o cuidado em uma clínica de amparo público , ainda que obrigado, do que acorrentarem o filho, matar ou morrer por conta do vicio dele e vê-lo perder a integridade física e moral de forma inexorável.

O vício seria algo que transcende ao controle voluntário que ocorre em circuitos neurológicos da região frontal da cabeça o que chamamos de testa. Todo mundo é capaz de entender o problema. Seria uma espécie de caminho que o sistema nervoso cria quando é exposto a uma substância tóxica, a um alimento, a uma emoção.

Como assim? Conforme essa definição quase toda a sociedade é viciada em açúcar, gordura e em amor, carinho... Com riscos de síndrome de abstinência heim. Esse Caminho nos escraviza na medida em que é ligado a área de prazer e recompensa capazes de criar estados inebriantes de êxtase e bem estar. Quimicamente, como visto, somos programados a buscar mimos para o tão imponente tecido neural que não pede, manda. Se não for atendido burla, transfigura a sensação de realidade...

Toda essa paisagem foi para mostrar que o julgamento moral da questão é sempre injusto, pois “todo mundo é parecido quando sente dor, fome, sede”. O que nos resta é a curiosidade de como vão funcionar os consultórios na rua algo que na teoria pode aproximar os profissionais de saúde do problema das drogas in locu. Até o ano da copa, que por si já nos deixa preocupados pela seleção que ainda não vimos, está previsto a entrega de 308 desses consultórios. O que aumenta a necessidade de criar os centros de tratamento.

Se o objetivo for à valorização da vida tanto dos dependentes quanto da sociedade a internação compulsória se mostra como uma tentativa se não ideal pelo menos uma atitude contra o bicho de sete cabeças que é a toxicomania. Ficamos na torcida para que seja um dos caminhos para atenuar essa questão.