Francisco Silva Araújo
Francisco Silva Araújo
Francisco Araújo atua no segmento de estudo e degustações de vinhos há mais de 10 anos. Membro da Associação Brasileira de Sommelieres, da Wine Spirit Education Trust Níveis 1, 2 e 3 e da ISG International Sommelier Guild. [email protected]

Chateaux Petrus é um dos vinhos mais raros. O que fazer com falsificação e deterioração de vinhos?

Há quem diga que tomou vinhos das marcas Romanée-Conti e Pera Manca de safras que não existem. Um sommelier atento por detectar fraudes e vinhos com problemas

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Poderia falar do Romanée-Conti, mas é um dos únicos que ainda não tive a oportunidade de degustar. Portanto, se falasse a respeito, não seria suficientemente coerente. Estaria comentando a letra, mas não o vinho propriamente dito. O resultado seria um texto sem contexto. Por isso sempre escrevo sobre o que já degustei. Até por que a letra não existiria se o vinho não viesse primeiro. Só podemos falar de um vinho ou escrever a respeito — ao menos se o interesse for mais técnico — depois de degustá-lo. De maneira rápida, episódica, tudo bem. Mas sommeliers precisam apresentar informações precisas e consequentes.

Uma das maiores experiências que já tive com pinot noir — oriundo do seu principal lar, o coração da Borgonha, “Côte d’Or” — foi o La Tâche 1987.

Mas tenho mais experiência como o Chateaux Petrus. Degustei o vinho de quatro safras diferentes. O Chateaux vem de uma região que fica na margem direita do Rio Gironde: Pomerol, pequena, porém muita distinta, região vinícola de Bordeaux. Por se tratar da margem direita, pode-se dizer que, no solo, além do cascalho, tem argila e areia — onde a uva merlot melhor se adapta, o que resulta num vinho pra lá de magnífico: sedutor, rico com seus taninos macios, textura aveludada com o buquê complexo sobre uma estrutura firme, o que permite longevidade.

A AOC pomerol é o único distrito vinícola importante de Bordeaux. O Cateaux Petrus é elaborado 80% com a uva merlot somada à cabernet franc. Várias pessoas acham esses grandes vinhos um clássico. De fato, são. Só que são vinhos de produções minúsculas, não se encontram em qualquer lugar e nem a qualquer momento.

Muitas pessoas tentam trazer grandes vinhos — como o Chateaux Petrus e o Romanée-Conti — para o Brasil. Como sommelier, sugiro que é mais seguro comprar dos importadores ou representadores das importadoras. Tais vinhos não são baratos e exigem certos cuidados. Adquirindo no importante ou por meio de um representante, o consumidor tem como reivindicar ou reclamar. Já abri vinhos de alta qualidade de grandes marcas que estavam deteriorados. Já provei até champanhe falsa. Os consumidores às vezes podem comprar gato por lebre, e em vários lugares. No caso dos importadores, que fica no país, pode-se reclamar e, se for o caso, até mesmo denunciar.

Se a pessoa abre o vinho em sua casa, mas não tem um especialista para analisá-lo, pode leva-lo para um sommelier examiná-lo. Porém, se não quiser fazê-lo, às vezes acabará servindo um vinho de marca, mas sem qualidade. Até para não constranger convidados, fica-se, por vezes, calado. Se consultar um especialista, poderá mudar seus procedimentos na próxima viagem ao exterior, na questão de compra de vinhos.

Memória e Pêra Manca

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Como se sabe, há quem diga, com certo orgulho, que degustou o Romanée-Conti das safras de 1946 a 1952. Muito bom, não é? Pois saiba que, se tomou Romanée-Conti dessas safras, o vinho era tudo — menos Romanée-Conti. Por quê? Porque não safras deste período. Uma doença na vinha, em decorrência da praga filoxera, devastou todos os vinhedos de Romanée-Conti.

Outro vinho que algumas pessoas informam que degustaram, até com certo orgulho, é o Pêra Manca, que dizer pedra frouxa ou solta. O Pêra Manca é ícone do Alentejo e existiu até o início do século 20 e chegou a ganhar medalha de ouro em Bordeaux nas safras 1897 e 1898. Mas deixou de ser produzido em 1920. Desapareceu do mapa e o novo Pêra Manca só reapareceu em 1990, encerrando um hiato de 70 anos na história do vinho. Então, se alguém tomou Pêra Manca em determinado período, muito além de 1920, é provável que tenha degustado um bom vinho, mas não propriamente um Pêra Manca.

A história do vinho, de sua qualidade ou falta dela, é bela, mas, como em toda história, há seus percalços. Falsificar é, como se sabe — e não apenas na Ásia, como se costuma pensar —, uma “grande arte”. Há falsificadores que são verdadeiros experts, mas quase sempre é possível detectar as falsificações — desde que os sommeliers fiquem atentos e não fiquem empolgados com a marca. Para além da falsificação, há o problema de que vinhos também deterioram.

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