Cezar Santos
Cezar Santos

E agora, como ficam as reformas?

Como esperado, Michel Temer obteve vitória na Câmara dos Deputados, mas isso não significa que ele tenha ganhado força para tocar as mudanças estruturais

Plenário da Câmara dos Deputados rejeita denúncia contra Temer: peemedebista ganhou, mas base rachou | Foto: Agência Câmara / Antônio Augusto

A vitória de Michel Temer na votação da denúncia do Procuradoria-Geral da República, na quarta-feira, 2, foi insofismável, mas não acachapante. O placar, de por 263 votos a favor e 227 contra, não foi tão elástico. Seria se tivesse chegado aos 308 votos, ou seja, o número necessário para fazer passar proposta de emenda à Constituição (PEC).

No pronunciamento realizado no Palácio do Planalto menos de cinco minutos após o final da votação, Temer usou uma máscara de falsa modéstia ao agradecer os votos que recebeu no plenário da Casa. “Quero agradecer a Câmara dos Deputados por sua decisão e todos os brasileiros de boa vontade que acreditaram no nosso país. Vamos trabalhar juntos pelo Brasil”, afirmou.

O presidente destacou o fato de a vitória no Legislativo ter sido obtida com a maioria dos 513 deputados e prometeu fazer “as demais reformas estruturantes que o país necessita”, citando a simplificação do sistema tributário brasileiro. Temer afirmou que o resultado não se tratava de uma vitória “pessoal”, mas sim uma “conquista do Estado democrático de direito, da força das instituições e da própria constituição”.

Mesmo que parlamentares governistas, como André Moura (PSL) e Darcísio Perondi (PMDB), dois dos principais articuladores de Temer, digam que a vitória fortalece o governo para aprovar as reformas, incluindo a da Previdência, o fato é que o resultado fez o governo dar uma “baixada na bola”, calçar as sandálias da humildade, digamos. A ordem agora é pacificar os ânimos para não perder mais números na votação do que está na pauta na Câmara dos Deputados.

O entorno de Michel Temer é consciente de que essa base ficou estremecida. Pelos cálculos do Palácio do Planalto, o total de parlamentares governistas caiu de 411 para 370, o que coloca em risco a aprovação de medidas de interesse do governo. O cientista político e professor titular da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer, em entrevista à “Folha”, considerou pior, ou seja, classificou a vitória governista de “fraquinha”. Para Fleischer, a diferença de apenas 36 votos para os que votaram pelo prosseguimento da denúncia mostra que o governo tem pouca margem para erro.

“Foi uma vitória muito fraquinha do governo. Depois de tudo o que gastaram com a liberação de emendas e de cargos para os parlamentares, foi uma diferença muito pequena”, afirmou o cientista político.

Por isso mesmo, a orientação aos governistas é adequar a pauta da Câmara ao número de votos que o governo teve para derrubar a denúncia da PGR, ou seja, 263, apenas 6 a mais do que a maioria simples da Casa (257 votos).

O governo vai priorizar apenas os projetos que dependem da maioria simples, caso das reformas política e tributária. Já a reforma da Previdência, que é uma PEC, precisa de no mínimo 308 votos para ser aprovada em dois turnos.

As mudanças na Previdência vão ficar “de molho”, por enquanto. O governo está estudando uma versão enxuta, limando os itens mais polêmicos e fazendo aprovar os pontos mais consensuais. Vale lembrar que a atual versão da reforma já foi desidratada na comissão especial que tratou do tema.
Michel Temer vai se reunir nesta semana com líderes governistas no Congresso para montar um cronograma de votação e discutir que mudanças na reforma da Previdência são possíveis de ser aprovadas no curto prazo.

Já há esboço de um cronograma por parte do governo. O Palácio do Planalto pretende enviar até o final de agosto o texto da reforma tributária, que tem menos resistência na Câmara e no Senado, e, na sequência, no mês seguinte, colocar em votação a previdenciária. A meta é finalizá-las em outubro.

Atento às chamadas forças do mercado, o presidente também está estruturando uma agenda de encontros com empresários e investidores para vender a imagem de que ainda tem força política — ou que recuperou essa força política — para cumprir a promessa de realizar as reformas estruturais.

Com baixíssima popularidade, apenas 5% segundo recente pesquisa Ibope, Temer quer reverter esse quadro adverso. Ele pretende retomar agenda de viagens pelo país para defender suas realizações na Presidência da República, desde que assumiu a gestão em definitivo. Segundo um assessor presidencial (reportagem da “Folha de S.Paulo”), a ideia é vender a imagem de que Temer deixou de ser um “reformista” para se transformar no “presidente da travessia” e que entregará o país com taxas de crescimento a seu sucessor em 2018.

Centrão quer cargos dos tucanos
No pós-vitória, chega o momento de administrar os danos colaterais. Deputados integrantes da base que se mantiveram fiéis a Michel Temer vão cobrar punição a partidos e parlamentares aliados que “traíram” o peemedebista na votação de quarta-feira.

E quando se trata de cobrança, o Centrão não deixa barato. O grupo é formado pelo PP, PR, PSD e PTB, e Temer saiu ainda mais dependente dele após a votação de ontem. O alvo principal será o PSDB, legenda que tem quatro ministérios, mas a metade da bancada tucana votou pela aceitação da denúncia contra o presidente.

Reportagem do “Estadão” informa que os fiéis a Temer vão cobrar que o presidente retire dos tucanos o comando do Ministério das Cidades, hoje nas mãos do deputado Bruno Araújo (PSDB-PE). A pasta é cobiçada principalmente pelas bancadas do PSD e do PMDB, partido de Temer, em razão da sua capilaridade política.

Os “Centrão” avaliam que os tucanos não podem comandar tantos ministérios importantes ao mesmo tempo em que fazem ameaças de desembarque e duras críticas a Temer desde que a delação da JBS atingiu o presidente. Segundo o jornal, a reclamação contra o PSDB feita nos bastidores ainda durante a votação foi externada pelo deputado Laerte Bessa (PR-DF). “Tenham hombridade e devolvam os cargos”, disse.

Deputados do Centrão ligados ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) davam como certo que Temer vai tirar o PSDB do Ministério das Cidades. O PSD de Gilberto Kassab, ministro das Comunicações, está esperando o mimo. Há quem acredite, porém, que Temer deverá manter a Secretaria de Habitação, que cuida do Minha Casa Minha Vida, com tucanos.

Imediatamente após a sessão de quarta-feira, integrantes do Centrão iniciaram mapeamento das votações para organizar a reação. No Centrão, há parlamentares que cobram a saída até do ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, ao PSB. A maioria da bancada do partido votou contra Michel Temer.

O ministro está dissidente do PSB e deve migrar para o DEM na próxima janela para mudança de partido sem risco de perder o mandato de deputado.

Líder do governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) tentou colocar panos quentes na situação. Disse que o momento é de “serenidade”, mas defendeu que é preciso fazer uma avaliação criteriosa sobre o resultado da votação. “O momento é de avaliar o resultado com muito critério e respeito aos parlamentares que deram demonstração de lealdade ao presidente”, afirmou o deputado, cujo partido não fechou questão e também deu votos contrários a Temer. l

Lula torceu por Michel Temer 

Foto: Ricardo Stuckert

Às vésperas da votação da admissibilidade da denúncia contra Michel Temer, Lula da Silva continuou torcendo para a vitória do peemedebista como melhor para o PT. Em conversas recentes, ele reiterou a petistas da Câmara que a permanência de Temer na Presidência, sangrando politicamente, ainda é o cenário mais favorável para o partido. Na avaliação do ex-metalúrgico, caso Temer fosse afastado, Rodrigo Maia assumiria e teria chances de se cacifar como candidato viável ao Planalto para 2018.

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