Cezar Santos
Cezar Santos

Delação de Palocci será novo tormento para Lula e PT

Ex-ministro é apontado por delatores como um dos principais operadores do partido no esquema de propinas

Foto: Reprodução

Um dia depois do depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sergio Moro, em que o petista se complicou ainda mais do ponto de vista processual — ao contrário do que sua claque alardeou nas redes sociais –, mais uma péssima notícia para o ex-presidente. O time dos delatores na Lava Jato foi reforçado por ninguém menos que o ex-ministro Antonio Palocci, que decidiu negociar um acordo de delação premiada com os procuradores da operação Lava Jato.

Pelas posições que ocupava nos governos petistas, por tudo o que sa­be das tenebrosas transações co­mandas pelo partido de dentro do Palácio do Planalto, Palocci tem muito a contar. Se abrir a boca vai co­locar em polvorosa a nação petista.

O anúncio foi na tarde de sexta-feira, 12. Segundo o noticiado, Palocci avisou seu advogado de defesa, o criminalista José Roberto Batochio, que ele terá de se afastar do caso, o que se esperava ocorrer ainda na sexta.

A negociação da delação premiada do ex-ministro será conduzida pelos advogados Adriano Bretas, Tracy Reinaldeti, Matteus Beresa de Paula Macedo e André Luis Pon­ta­rolli, do escritório Bretas Advo­ga­dos, localizado na capital paranaense. A equipe de Bretas havia sido con­tratada no final de abril por Palocci, mas acabou dispensada uma semana depois. Com a decisão de Antonio Palocci de colaborar com as investigações da Lava Jato, no entanto, os advogados, especialistas em delação premiada, foram recontratados.

Nos últimos dias, o ex-ministro retomou as conversas com Bretas e Reinaldeti e decidiu que partiria para a delação. Réu em dois processos em Curitiba, Palocci teme que suas condenações possam ultrapassar os 30 anos de prisão.

Segundo a Folha, o afastamento de Roberto Batochio foi exigência da força-tarefa da Lava Jato porque o criminalista é contrário a esse tipo de acordo. As negociações entre Palocci e Bretas tinha sido antecipado na sexta-feira mesmo, na edição impressa do jornal.

Batochio, que defende o ex-presidente Lula da Silva, protocolou no final da tarde de sexta-feira a renúncia à defesa do ex-ministro. Na petição encaminhada ao juiz federal Sergio Moro, os defensores dizem que “deixam o patrocínio da causa, tendo em vista a mudança de orientação da defesa técnica por parte do constituinte”.

Agora, o próximo passo para Antonio Palocci será desistir do pedido de habeas corpus que está para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Edson Fachin decidiu que o pedido não será julgado pela segunda turma do Supremo, que soltou quatro investigados da Lava Jato em menos de uma semana: o ex-ministro Jo­sé Dirceu, os empresários Eike Ba­tista e José Carlos Bumlai e o ex-tesoureiro do PP João Cláudio Genu.

Integram a segunda turma do STF os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewan­do­wski, que deram voto favorável à liberação de Dirceu. Toffoli e Lewandowski, por sinal, são claramente identificados e simpatizantes do petismo. A decisão de Fachin foi vista pela defesa de Palocci como uma manobra para evitar mais uma derrota.

Segundo o jornal, foi decisivo na decisão de Palocci a operação que a Polícia Federal deflagrou na manhã de sexta-feira, em torno de repasses do Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o grupo JBS, num total de R$ 8,1 bilhões. Palocci é apontado nas investigações como um dos intermediários dos financiamentos que geraram supostas propinas para o PT. Uma das hipóteses investigadas pela PF e pelos procuradores é que o partido ficava com parte dos repasses do BNDES.

A “Folha” registra ainda que outra influência na decisão do ex-ministro foi a delação da Ode­brecht. Documentos apreendidos pela Polícia Federal, depois incluídos no acordo da Odebrecht, apontam que o ex-ministro foi responsável por administrar repasses no valor de R$ 128 milhões entre 2008 e 2013.

Antonio Palocci era chamado de “Italiano” nos comunicados in­ternos da Obebrecht sobre re­passes para o PT. Ele ficou ne­gando por meses que era o “Italiano”, mas o apelido foi confirmado pelo próprio ex-presidente da empresa, Marcelo Odebrecht.

Ex-ministro da Fazenda de Lula e chefe da Casa Civil de Dilma, Palocci foi preso em setembro do ano passado numa fase da Lava Jato chamada Omertà, que quer dizer “lei do silêncio” no jargão da máfia italiana. O nome da operação fazia referência justamente ao apelido que Palocci tinha nos registros da Odebrecht.

A delação de Palocci é vista com potencial explosivo para atingir o sistema financeiro porque ele era o principal interlocutor do PT junto aos bancos e grandes empresários do país, como Joesley Batista, da JBS, e Abílio Diniz. Antonio Palocci sempre foi tido como habilidoso, afável e confiável.

Uma auditoria interna do Pão de Açúcar apontou que uma empresa de Palocci recebeu R$ 5,5 milhões do grupo entre 2009 e 2010 sem comprovação de que os serviços de consultoria que justificavam o pagamento fossem comprovados. Pela desconfiança dos procuradores, o pagamento pode ter relação com a campanha de Dilma Rousseff (PT), de 2010, na qual foi eleita presidente pela primeira vez.

A Folha procurou o grupo JBS para responder, mas não houve manifestação.

O jornal anotou que Abílio Diniz respondeu em nota que a auditoria que apontou a inexistência prestados por Palocci foi realizada pelo grupo Casino e no período analisado (2009-10) ele não exercia função executiva na empresa. Ocupava o conselho de administração junto com o francês Jean Charles Naouri. Segundo a nota, a relação do Pão de Açúcar “sempre foi com o escritório de Márcio Thomaz Bastos, nunca com Antonio Palocci”.

Na nota, Diniz diz que “o contrato da Projeto Consultoria, de Antonio Palocci, com o escritório de Márcio Thomaz Bastos, inclusive, já foi objeto de investigação, tendo sido encerrado por não apresentar indícios de irregularidades”. l

Literatura de Cordel marca Lula

A literatura de cordel não perdoou o ex-presidente réu em vários processos. O gênero reporta fatos sociais e políticos, de preferência, com graça e ironia. Lula tem sido brindado com vários folhetos do gênero, que transita entre a crítica social e a galhofa. Em Brasília, onde há uma grande comunidade nordestina, muitas pessoas se dedicam ao gênero, entre profissionais liberais, professores universitários e outros. Um deles, que assina “O filho do Cerrado”, versejou as agruras de Lula da Silva. Alguns versos do cordel “O Sítio de Atibaia”:

Eu vou lhes falar um pouco
Da verdade dum fato
Passado em 4 de março
Na operação Lava Jato

A federal suspeitava
Dum sítio bem imponente
Que evidências diziam
Ser de um ex-presidente

É no interior paulista
E cheira a maracutaia
Um lugar de gente rica
Lá perto de Atibaia

Após verificações
Tudo ficou evidente
Aquele recanto de luxo
Pertence ao ex-presidente

Mas o juiz precisava
De lá, histórico pregresso
Para compor os autos
E legalizar o processo

Os agentes foram pra lá
Com documentos na mão
Nos carros pretos da PF
Com ordens de apreensão

A operação começou
Em Atibaia primeiro
Depois Guarujá, Diadema
Bahia e Rio de Janeiro

A Federal confirmou
Na força dos coronéis
Que o sítio é de Lula
Comprado em 2010

Atibaia tá na história
E vou lembrar a vocês
Foi dia 4 de março
De dois mil e dezesseis
O sítio sofreu reformas
E mudanças estruturais
A PF diz: tudo pago
Com grana da Petrobrás

Tal reforma não foi barata
Daquelas pouca gente faz
Quase ninguém tem na mão
Mais de 1 milhão de reais

Lula diz: é perseguição
A oposição me humilha
E só uso o local
Pra descanso da família

A PF diz ser tudo do Lula
Com uma certeza danada
Mas Lula garante a todos
Não estar sabendo de nada

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