Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

PMDB: entre a sorte do incerto e a mesmice da tragédia

Partido chega ao momento de optar por renovação ou continuísmo de ideias que o tem levado às derrotas

José Nelto, Daniel Vilela e Sandro Mabel: os pretensos candidatos à presidência do PMDB goiano

José Nelto, Daniel Vilela e Sandro Mabel: os pretensos candidatos à presidência do PMDB goiano

O PMDB mais uma vez encontra-se numa encruzilhada. Possivelmente ne­nhum outro partido em Goiás tão recentemente se dirigiu naturalmente a tantas bifurcações decisivas quanto a legenda que tem em Iris Rezende seu grande ídolo referencial. E, em estando nesta posição, nenhuma outra agremiação política tomou tantas vezes o mesmo caminho. O mesmo errado caminho, registre-se, afinal, este é o tema em questão.

A cada etapa de preparação para enfrentar uma disputa estadual, o PMDB se vê diante da opção de seguir na direção que leva até o totem de adoração feito à imagem e semelhança de Iris Rezende, ou em buscar um caminho desconhecido, novo, considerado por muitos como sendo o da renovação. Esta segunda direção sempre foi vista como um trecho obscuro, incerto, repleto de surpresas.

Não é preciso dizer que, até aqui, o caminho escolhido foi o primeiro.

E quem pega o mesmo caminho sempre sai no mesmo lugar.

O fim desta estrada perseguida repetidas vezes dá naquela imagem — não por acaso descrita como “a imagem e semelhança” — de Iris. Quando estão com a chance de decidir se optam por um projeto novo, incerto, ou a repetição do mais do mesmo, os peemedebistas mostram-se conservadores e, por que não dizer, medrosos. A atitude clarifica o tom nostálgico deste grupo que comanda a legenda em buscar um tempo que já passou.

Tentam recriar um Iris Rezende cujo tempo, inexorável, tratou de levar, de esvaziar. O Tempo jamais diminuirá ou distorcerá a importância e genialidade do homem público Iris Rezende. Mas é este “passar do tempo” que enfraquece o Homem para fortalecer o Mito. Como político e candidato, Rezende é um espectro do que foi. É a imagem e semelhança do ídolo imbatível de tantas eleições. Como Mito, segue inalterável.

Somente o Homem Iris pode comprometer e diminuir o Mito Iris.

E são as recorrentes, insistentes, candidaturas que vão consumindo, roendo, o totem de Iris Rezende.

Mesmo assim, por comodismo, medo ou fé cega, os peemedebistas insistem em ressuscitar a Esperança de que, do totem, sairá o homem. Da imagem congelada, grandiosa e intimidadora, sairá um poderoso orador, um aglutinador das massas capaz de hipnotizar o eleitorado. Do mármore far-se-á carne. Ora, isto não acontece, não tem acontecido e não acontecerá. Iris, como agente político, há tempos já deixou a vida humana para tornar-se ídolo, mito.

Enquanto isto o outro caminho, árduo e incerto, da renovação, do no­vo, segue virgem, intocado e sem nun­ca ter sido pisado pelos passos do partido que aposta sempre no mes­mo caminho da derrota. A redenção des­te cenário é que, curiosamente, co­mo tudo que se renova na natureza, a cada ciclo eleitoral a legenda tem uma oportunidade de voltar àquela bifurcação e fazer uma escolha.

E, acreditem, o momento de pisar no terreno da escolha, diante do caminho que se separa novamente chegou.

A forquilha peemedebista do momento é a eleição do novo presidente do partido. O nome que irá ditar o ritmo e a direção da legenda para as próximas eleições, sobretudo para a corrida eleitoral ao Palácio das Esmeraldas em 2018. O ciclo eleitoral se inicia por este movimento. E, pelos candidatos atualmente colocados, este entroncamento não poderia ser mais claro e mais distinto. Definitivamente, são caminhos que não irão se cruzar: a escolha é um destino sem retorno na direção escolhida.

Entres os postulantes, estão o deputado estadual José Nelto, o ex-deputado federal Sandro Mabel e o deputado federal Daniel Vilela.

Os dois primeiros têm diferenças marcantes em pontos específicos. Nelto é o político mais tradicional no trato e nas práticas. É o candidato que melhor representa a turma da velha guarda, a que defende a adoração ao Totem, aquele totem. Não é à toa que o deputado estadual angariou o apoio da ex-deputada federal e mulher de Rezende, Dona Iris. Isso deixa a postulação de Nelto, que é bastante legítima, com toda a cara do retrógrado. É a escolha por uma coisa que já não deu.

Ainda assim, a maioria maciça do PMDB, que é a que vem escolhendo Iris como melhor opção para derrotar Marconi há anos e anos, é formada por adeptos iristas do pensamento de José Nelto. Se há uma ala representativa que rechaça a participação de Dona Iris em qualquer coisa que envolva a legenda, este mesmo grupo se une àqueles que conseguem engolir a presença da primeira-dama peemedebista para manter o pensamento antigo ainda em voga.

Já Mabel é mais refinado. Seria um Nelto 2.0., com novas ideias, mas já antigas para as demandas necessárias. Mabel tem limitações para cumprir a missão de agir com radicalismo e conceber as mudanças que os tempos hodiernos demandam. Falta a Mabel ser ainda mais antenado do que de fato já é para conseguir dialogar com um eleitorado renovado.

Enquanto Nelto mantém a postura clássica do enfrentamento direto ao governo com críticas e até mesmo a manutenção de um site para combater e dar publicidade às ações governistas a serem contestadas, Mabel flana pelo lado do diálogo, busca a construção do partido para além dos fronts armados de batalha.

Tudo isso, isolado, é bom. Mas ainda é muito pouco para onde o PMDB tem fôlego para chegar.

Daniel Vilela é o mistério insondado da renovação, aquela demandada por anos e anos e temida pelo mesmo tempo. Ao conseguir um mandato na Câmara Federal, torna-se uma figura que não pode mais ser ignorada. É o elefante no meio da sala do PMDB. Jovem e ainda tentando abrir o espaço para mostrar a que veio, Vilela venceu a “síndrome do filho” e tenta conciliar as duas facetas de Nelto e Mabel: ser combativo e não temer o governo, mas também reestruturar o partido.

Assim como um obeso mórbido precisa urgentemente perder peso para sobreviver, o PMDB precisa perder os anos e as práticas que o caducam e tornar-se jovem novamente. Também para sobreviver.

A diferença é que a reconstrução de Vilela, caso tenha espaço e coragem para fazer, passa, não por uma reforma ampla, mas por uma refundação baseada na renovação. E é isso que incomoda e causa pavor nos curadores de mausoléu do PMDB. A ideia de Vilela de recomeçar a legenda nos municípios é salutar a todos, mas empaca no pensamento mais retrógrado quando chega com um conceito de abertura de espaços para novos quadros. É como se representasse uma revolução da juventude.

Renovar não é enterrar história, arremessar antigos valores de penhascos ou apagar a trajetória de políticos fundamentais para o PMDB. É tão-somente colocar a história onde ela deve estar: num espaço de reverência e não com a foto e o nome numa cédula de urna eletrônica.

Até hoje ecoa a fatídica frase de Iris Rezende, em um debate com Marconi Perillo, dizendo que, se eleito, “as máquinas vão roncar por esse Goiás”. Quem, com menos de 40 anos, compreenderia o que isso quer dizer?

É preciso erguer totens, santuários, escrever livros e livros, sobre vultos históricos da política e do PMDB. Colocá-los no front da disputa, comandando o batalhão, é comprometer a guerra.

Vilela tem capacidade aparente para isso. Gosta de atuar, possui linhagem e aconselhamento do pai, Maguito, tido como um exímio político de diálogo. Daniel possui ligação direta com a direção nacional do partido e está longe de ser um quadro isolado num Estado tão relegado politicamente como é Goiás nas tratativas de cúpula das legendas. Como deputado federal é hoje o nome de maior projeção do PMDB goiano, o que lhe gera facilidade para ter mais peso do que os demais.

Talvez a inversão da lógica do trâmite partidário como o conhecemos, onde os velhos têm mais chances que os novos, seja a solução mais apropriada para que o PMDB deixe de respirar por aparelhos como vem fazendo. Daniel Vilela pode ser a chance que o partido tem de deixar o balão de ar que o ajuda a manter os pulmões funcionando e começar a correr em volta do Parque Areião.

No entanto, isso segue sendo o que é: uma aposta. Tudo pode dar errado com esta ideia romântica e ousada da Juventude de buscar esta refundação etária do partido. Mas se pensarmos que como está já está tudo dando muito errado… não há um prejuízo efetivo a ser somado.

O momento é de tamanha im­por­tância que fica evidente, em primeiro lugar, a fragilidade que o PMDB vivencia atualmente. Até mesmo as forças palacianas de Marconi Perillo tentam e conseguem ter ingerência na escolha interna do principal partido de oposição. Para eles, o melhor dos mundos é ter José Nel­to no comando da legenda. E, em nome disso, evitam a todo custo a proliferação do nome de Daniel Vilela. Assim como no axioma da vi­da, o PSDB e sua base de apoio política sabe que tomar o mesmo caminho só permite que se chegue ao mesmo lugar. E se não se mexe em time que está vencendo, por que mexer em adversário que já está perdendo?

As eleições do PMDB acontecem no próximo dia 24 de outubro. É o dia da encruzilhada. Nos bastidores comenta-se que uma reunião prévia entre os três postulantes tentou criar um clima de consenso. Ao que tudo indica não foi possível conciliar os interesses e pensamentos estratégicos dos três grupos até agora. Enquanto isso, a bifurcação segue ali, ofertando caminhos distintos, um já conhecido e pisado, fácil de transitar, outro desconhecido, anônimo, recôndito, misterioso.

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