Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

Pela indignação de tudo o que termina em pizza, #SomosTodosPipa

Vereadores afastados pela Justiça, mas inocentados por colegas. A notícia da semana foi em Morrinhos, mas a cidade não é a única a presenciar esse tipo de situação

Rui Pipa: jogou pizzas em vereadores e se tornou voz da indignação popular

Rui Pipa: jogou pizzas em vereadores e se tornou voz da indignação popular

Uma das várias dificuldades que tenho é tentar pensar com a cabeça do leitor quando vou fazer uma referência num artigo. Quando vou usar algum tipo de filme, livro ou música, sempre fico me questionando se o outro vai entender ou se ao menos já viu, leu, ouviu aquela tal peça. Fico na dúvida, mas quase sempre uso assim mesmo. Tem momentos que a gente não consegue se fazer entender de forma alguma. Princi­palmente quando o outro não quer compreender.

Do mesmo sentimento compartilho no programa de rádio que faço diariamente. A emissora é líder do segmento jovem. Lá, me sinto deslocado para falar de determinados assuntos por achar que – se são jovens demais – não compreendem ou não se interessam pelos temas que julgo ter algum conhecimento.

Neste mundo de dúvidas, sou como um sujeito sem família. Lacan diz que quem não tem lugar na família, não tem lugar no mundo. Entre os jovens do rádio e os leitores deste espaço, mais tradicionais e distantes dos modismos da internet, ficou no vácuo. E isto tudo é posto para explicar a tal “hashtag”, aquela cerquilha ali do título. Ela remete a algo ultra jovem, vindo da internet. E a frase também é objeto de diversas campanhas pelo Twitter. Quando alguém quer integrar um suposto movimento coloca “#So­mosTo­dos” alguma coisa. E sabe o que isto muda na ordem do dia?

Isto mesmo, nada.

Mas nós, eu, você e todo mun­do, habituados ou não com as gírias da internet, somos ou fomos to­dos Pipa, o justiceiro de Morrinhos.

Morrinhos é uma cidade do interior goiano que não conheço. E espero não conhecer num curto tempo. Por nada demais, além de desinteresse. No entanto, foi o, imagino eu, pacato município goiano que protagonizou o fato sociopolítico mais relevante da semana. Tudo começou na última quarta-feira, quando um sujeito entrou na Câmara Municipal daquela cidade e começou a atirar pedaços de pizza nos vereadores que ocupavam as suas cadeiras. O detalhe curioso, e que não deu para entender dentro da simbologia envolvida ao tema, é que a pizza estava congelada.

O homem, chamado de Rui Pipa (eu sei, tudo nesta história parece mesmo engraçado) é também político e foi candidato por lá. Nunca venceu qualquer eleição e nem chegou perto. Pipa foi tomado de indignação por saber que dois vereadores daquela casa, Oberdam (SD) e Tom (PMDB), que passaram por um julgamento de cassação de seus mandatos por seus pares, acabaram por ser absolvidos. O caso remetia a um processo de improbidade administrativa, mas ambos saíram deste mal estar sem grandes prejuízos. O prejuízo ficou para seus colegas que, ao absolvê-los, levaram uma chuvarada de pizza congelada.

Eu até agora não compreendi se há uma simbologia na pizza congelada ou se Pipa só não teve tempo de colocar o petardo moral no microondas. Trinta segundos e ele teria uma pizza gosmenta, gordurosa, para arremessar.

Vai saber.

Tom e Oberdam estão afastados pela Justiça desde 14 de abril por uma acusação de que mantinham funcionários fantasmas na Câmara Municipal. Mas, mesmo assim, mesmo com uma decisão tirando-os seus mandatos preventiva e temporariamente, os outros vereadores acharam que não, não era motivo de cassação. O que a Justiça viu não foi o suficiente diante dos olhos dos demais vereadores de Mor­rinhos. Eles foram absolvidos em uma segunda votação secreta, na qual os favoráveis à cassação não conseguiram ter maioria necessária. A cassação demandava oito votos ao mínimo, mas Tom e Oberdam têm amigos e somente cinco colegas quiseram vê-los sem mandato.

Somente cinco viram o que o Judiciário viu.

O voto secreto causou revolta de uns, mas para o presidente da Casa, Alex Timbete (PSB), “se a votação tivesse sido aberta, o resultado não seria diferente”.

Quanto a isto, eu duvido muito.

E é neste momento em que eu e você e todos somos um indignado Pipa, solitário, revoltado, inócuo, atirando pizzas congeladas de presunto triturado a esmo, numa tentativa tola de mostrar sua indignação. Assim como Pipa, somos espectadores de um circo malévolo da política e do compadrio. Esta confraria que absolve amigos e parceiros, mas que persegue e cassa e usa todo o rigor da lei para defenestrar quem incomoda. Cada vez mais o sistema político mantém uma relação curiosa com a sociedade: nós temos o direito de escolhê-los, mas nos tornamos reféns de suas supremas vontades pessoais.

A democracia nos permite eleger quem irá nos escravizar.

E nossa maior saída, muitas vezes, é atirar pizzas e gritar impropérios.

Eu não faço ideia de como é a atuação de Tom e Oberdam, mas uma certeza eu tenho: eles são amigos dos amigos que os tiraram desta enrascada. A Justiça? Ora, de acordo com os salvadores do mandato da dupla, a Justiça de Morrinhos não sabe de nada que se passa lá dentro, quem conhece estes dois sabe que não teve nada disso de funcionário fantasma. E então todos engendraram uma estratégia para votar, mas não cassar. Subver­tendo a clássica vitória de Pirro do “ganhou, mas não levou”, a du­pla fantasmagórica não ga­nhou, mas levou. No caso, ficou.

Tom, Oberdam e Morrinhos não têm relevância alguma para o resto do País, exceto por uma razão: cada município da federação é uma espécie de Morrinhos.

Os exemplos para além daquela cidade são muitos.

Demóstenes Torres não tinha amigos no Senado. Tinha e tem suas qualidades por isto, mas mantinha esqueletos no armário. Quando algumas partes deste ossuário apareceram, terminou cassado, afinal, Torres passou boa parte do seu tempo naquela casa apontando para colegas com o triplo de tempo que ele tinha de Senado e mostrando seus esquemas e suas questionáveis formas de atuar. Ao findar este processo, tornou-se se não odiado, pelo menos suficientemente indesejado. Teve o destino que todos sabemos. Antes e, principalmente, depois dele quantos não surgiram com problemas igualmente graves ou denúncias mais consistentes que demandavam até mesmo uma investigação? Diversos. Mas o resultado nem chegou perto de ser o mesmo de Demóstenes.

E não tinha um Pipa para lançar pizzas frias, duras como pedra.

O senador Ronaldo Caiado foi alvo de uma reportagem da Folha de S. Paulo que levantou a suspeita semelhante aos colegas de política Tom e Oberdam: o senador goiano estaria mantendo fantasmas às custas do Senado para atuar em suas fazendas e seus negócios particulares. Diante disto, nem sindicância, comissão de ética, investigação, julgamento… nem sequer uma investigaçãozinha houve no Se­na­do para saber se o que a reportagem dizia faziam algum sentido.

Ficou por isso mesmo, afinal, para cada personagem, uma destinação diferente da lei.
Nem mesmo uma pizza congelada, brotinho que fosse.

Na última semana, o Tri­bunal de Justiça de Goiás precisou in­tervir em outro Poder, o Le­gislativo. A decisão que promete criar um mal estar entre os poderes determinou que fosse instalada uma CPI dos Trans­portes Intermunicipais. O as­sunto, que movimenta o interesse de 12 milhões de usuários ao ano, não teve apelo suficiente para os deputados goianos, que decidiram não dar importância ao tema. O presidente da Assem­bleia Legislativa achou por bem arquivar o caso. E se apressou a fazê-lo.

Doze milhões de usuários ao ano. Ah, nada demais.

Somos reféns dos que escolhemos nas urnas.

O desembargador Geraldo da Costa discordou da decisão da Mesa Diretora da Alego e, dado a relevância do interesse para a coletividade (12 milhões de goianos por ano), determinou que, sim, seja feita uma investigação para saber o que se passa neste obscuro mundo do transporte intermunicipal de Goiás.

Os deputados da base governista sequer titubearam e protegeram seus interesses ao engavetar a tal CPI. O povo que se vire de outro jeito para saber verdades. Quem tem amigos, tem tudo. E as empresas que integram o sistema, quem sabe até o Governo de Goiás, ambos entes que podem ser alvo de revelações dissaborosas num processo político de investigação como uma CPI, tem amigos aos montes. Lá na Assembleia e em todos os lugares.

Enquanto isto, enquanto eu escrevo e você lê, há um solitário Pipa arremessando congeladas mãozadas de pizza sabor indignação. Sabor desânimo. Sabor Malandra­gem. E nada acontece.
Como dizia Millôr Fernandes: o pior cego é aquele que quer ver.

Eu não conheço Morrinhos e nem preciso. Não existe uma Morrinhos específica quando o tema é a confraria de proteção política e seus acertos feitos às sombras, porque Morrinhos está em todo lugar. Morrinhos é a mesma cidade das mais de cinco mil cidades em que todo o dia “Tons e Oberdans” se ajeitam. E se safam. Morrinhos é mais do mesmo. É mais um cenário político feito por políticos no qual uns sofrem a lei, outros gozam as amizades. E nem sempre tem um Geraldo da Costa, o desembargador, para, digamos, se meter onde não é chamado e fazer o serviço que algumas dezenas foram eleitas para fazer mas pensam que é melhor deixar pra lá.

Deixe um comentário

wpDiscuz