Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” na sucessão goianiense

Semana foi pródiga em lances que podem influenciar diretamente o pleito na capital em 2016

Demóstenes Torres, Vanderlan Cardoso e deputado Delegado Waldir: a sucessão embaralhada no ano que vem

Demóstenes Torres, Vanderlan Cardoso e deputado Delegado Waldir: a sucessão embaralhada no ano que vem

Este título é o nome de um filme. A semana foi sorrateiramente movimentada no tocante ao processo de sucessão do comando da Prefeitura de Goiânia. Se não na agenda política efetiva, ou seja, na mexida declarada de partidos e possíveis candidatos, ao menos indiretamente diversos acontecimentos causaram um efeito cascata, como um dominó. E esta é a beleza do processo político: as organizações das peças se dão muitas vezes no detalhe das ações para somente posteriormente brotarem os grandes feitos.

A organização política, quando bem feito, passa longe de obviedades.

O primeiro movimento dos três registrados chega junto com a notícia vinda do STJ de que a ação penal que envolve Demóstenes Torres pode ser arquivada. O motivo seria a ilegalidade na obtenção de provas das escutas telefônicas. A sinalização desta possibilidade joga automaticamente o nome do ex-senador no centro das atenções da sucessão goianiense de 2016.

Torres, se inocentado, ganha um fortíssimo discurso: o do injustiçado. Não cabe neste momento a análise subjetiva desta alegação de inocência e – talvez – só caiba a capacidade de entendimento do eleitor se ele é, de fato, inocente. O objeto de análise, no entanto, é a ideia de que se os outros ministros seguirem o relator, que já pediu o arquivamento, Demóstenes poderá dizer a todos uma emblemática verdade jurídica: sou inocente e fui inocentado pelo STJ.

Este discurso saído de um agente público de tanta capacidade oratória e cuja imagem está guardada na memória popular como o combatente ao petismo pode ser explosivo em Goiânia. Demóstenes Torres, num sentido bastante específico, é o Ronaldo Caiado original. Fora do tal sentido específico, ou seja, a imagem dele como líder de oposição ferrenha, comparar ambos soa como uma ofensa tremenda a um elegante, culto e educado Demóstenes Torres. Até na agressividade da oposição, ele consegue se manter de forma coerente e respeitosa.

O fato é que Demóstenes, como incógnita, pode roubar a cena.

O ex-senador manteve conversas com Carlos Cachoeira, cujas escutas – é preciso que se diga – não registram a voz do então senador exclusivamente. Muita gente conhecida das cédulas eletrônicas andou conversando com Carlos Cachoeira, uma das figuras mais poderosas de Goiás e que fez por merecer este status. Sua eventual ligação com máquinas de caça-níquel, aqueles de azar que lhe renderam fama, parecem há muito ter ficado para trás. Cachoeira é um homem da política. E se há jogos, seus jogos são outros e tão plurais que culpar Demóstenes com exclusividade por alguma relação é uma injustiça pueril. Afinal, Demóstenes não foi o único, mas somente o que foi “pego”. E está prestes a conseguir uma reviravolta surpreendente neste cenário.

O outro lance marcante da semana foi a filiação da senadora Lúcia Vânia ao PSB, de Vanderlan Cardoso. A filiação por si só já se torna um ato de grande monta, cujos desdobramentos devem ser analisados com tranquilidade. Mas, dentro deste cenário, outras mexidas causam, no mínimo, suspeitas. A presença do governador Marconi Perillo ao evento, e sua fala aos presentes, são até mesmo muito mais marcantes que a própria assinatura de Vânia à legenda socialista.

“Estou com a sensação de quem traz a noiva”, disse Perillo. De fato, ele entregou a senadora ao PSB. O ato pode resplandecer diversas interpretações. Uma delas é que ninguém perde uma vaga no Senado sorrindo. Portanto, Perillo pode estar dando graças aos céus por tirar de seu caminho uma figura política forte, de luta, e cujas histórias nos bastidores remetem muito mais a uma pedra no sapato do que uma aliada cordial, que ao contrário de outros, nunca foi de aceitar e acatar as decisões do tucano-mor passiva e silenciosamente.

Há quem diga que as pressões de Lúcia Vânia nos bastidores do PSDB chegaram aos limites do aceitável. Em outras oportunidades foram além. Um dos episódios remete à conquista do direito de disputar o Senado. Vânia teria usado de expedientes irrefutáveis a fim de que lhe fosse dado o espaço quando, na verdade, a intenção de Marconi era que ela fosse “rebaixada” a candidata a deputada federal.

Uma pedra no sapato.

Portanto, que alívio!, estar levando a noiva e entregando a quem cuide dela.

Por outro lado, pode haver um indicativo curioso que remete à aproximação do tucano Perillo ao PSB de Vanderlan, envolvendo até mesmo lideranças nacionais, superiores a Cardoso. Nos sussurros que apontam para uma possível saída de Marconi do PSDB para buscar espaços no debate nacional, o PSB seria uma das opções, assim como o PSD. Em sendo assim, há a possibilidade de que Vanderlan ganhe mais que moral com o governador, mas conquiste o apoio de Perillo para se tornar o candidato da base governista ao Paço Municipal. Uma troca de afagos com vistas ao futuro. E neste caso, a noiva viria com um dote.

Este apoio é o mais esperado por Cardoso desde que iniciou conversações com diversas legendas. Ele tem ido do PT ao PSDB e até aí, este é um procedimento polido da democracia, como, aliás, polido é Vanderlan Cardoso. O evento do casório político representado por Lúcia, Marconi e Vanderlan pode ser o flerte fatal para as ambições de outros tucanos que correm o risco de apodrecer na fila esperando que chamem a sua senha. Como disse anteriormente, nem todos batem a mão na mesa como faz a forte mulher de convicções que atende pelo nome de Lúcia Vânia.

Entre uma suposição e outra, envolvendo a entrega da cobiçada noiva ou de um “cavalo de Troia”, todo aquele teatro da filiação diante de Marconi Perillo pode ter duas interpretações, mas um único desdobramento: ao acariciar o PSB numa dança do acasalamento político, o tucano-mor de Goiás pode vir a passar a perna nos tucanos que esperam na fila a unção do chefe.

Esta seria a “Trapaça”.

Ainda no meio dos governistas, oposicionistas ao Paço, a semana teve o desabrochar de um bruto. O deputado-delegado Waldir Soares, desavergonhou-se e assumiu que é candidato a prefeito, quer Marconi queira, quer não. Ou seja: seja pelo PSDB, seja por outra legenda, desta corrida eleitoral ele não fica de fora. O mais interessante foi o curioso momento de raríssima sensibilidade que ele teve para afirmar: Waldir foi a uma sabatina do PSDB e, numa plateia lotada da juventude da legenda que se reuniu para ouvi-lo, ele mandou bala retórica em todo mundo. “Sou candidato com vocês ao meu lado ou contra mim”.

E este foi o primeiro tiro.

No conteúdo de seu discurso, o ponto relevante é que Soares, agora, já deixou de ser o delegado das fotos com o dedo em riste, simulando uma arma. Buscando mais amplitude para conversar com o eleitor, tornou-se cabotinamente polivalente. Segundo disse aos jovens tucanos, ele foi “sapateiro, vendedor de roupa, servente de pedreiro, serralheiro, auditor fiscal e professor”.

“Entendo de muita coisa”, declarou ele diante da atônita plateia tucana que esperava se encontrar com o delegado nervosão, mas encontrou praticamente com um canivete suíço, um homem multifunções.

Sim, acredite, estas credenciais para se tornar prefeito de Goiânia não foram inventadas por mim ou ninguém, ele declarou isto.

Mas, não para por aí. Ele foi além e revelou algo importantíssimo e até inédito em suas declarações: disse que trabalhou com Jaime Lerner, urbanista paranaense, ex-prefeito de Curitiba, uma referência internacional de gestão pública.

Ele, no entanto, não explicou aos pupilos tucanos se sua atuação ao lado do incrível e renomado arquiteto Lerner foi como serralheiro, servente, auditor, delegado ou professor. Ou algo que não foi ainda revelado. Pelos cálculos possíveis, levando-se em conta que para se tornar um profissional experiente em cada uma das funções (sapateiro, serralheiro, vendedor, etc, etc, etc) é preciso pelo menos uma década de prática, o deputado Waldir deve ter começado a trabalhar logo saído das fraldas. Ou deve ter uns 80 anos de idade. Afinal, leva-se tempo para tornar-se exímio conhecedor de tamanhas funções apresentadas que o colocam como ele quer: um homem além dos limites da Segurança Pública.

“Entendo de muita coisa”.

Mas isto, sim, foi uma conta minha e ninguém precisa levar tão a sério assim.

O fato é que se o deputado tenta abandonar a imagem de um homem resguardado ao tema da segurança pública e do discurso virulento contra bandidos, sua oratória e sua organização cerebral de discurso continua reluzindo à bala de prata. É um franco atirador cuja mira já passou até por Marconi Perillo e Jayme Rincón.

Soares, o serralheiro-professor-servente-vendedor-de-roupa disparou contra ambos na última semana. É ele o dono dos “Dois Canos Fumegantes”.

Enquanto isto, na calmaria do outro lado do poder, onde só se emana saudosismo e paciência, meio alheio a tudo, meio cansado de ver o mesmo cenário, meio que já sabendo todos movimentos do tabuleiro, há um velhinho experiente, matreiro, vivido e sábio, que fica observando políticos e partidos se digladiarem. Uns querem aniquilá-lo, acabar com ele nas urnas, outros, no entanto, brigam na disputa de um espaço na sua chapa, querendo ser aliado, indicar ou até mesmo ser seu vice. Todos na política em Goiânia de hoje dormem e acordam suspirando por Iris Rezende.

E para ele ainda não há um filme que remeta precisamente uma analogia sobre.

Este título, como disse, é o nome de um filme. Você deveria assistir. O final é surpreendente. Talvez só perca para o final desta epopeia: a da sucessão ao Paço Municipal goianiense.

Até aí, nada demais, afinal a vida é muito mais sensacional que a arte.

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