Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

A hérnia de disco arranhado de Ronaldo Caiado

Com a corrupção do PT, políticos de uma direita velha como o senador do DEM ganham espaço

Senador Ronaldo  Caiado: 400 anos de  uma aristocracia  das bananas

Senador Ronaldo Caiado: 400 anos de uma aristocracia das bananas

Henrique Morgantini

Eu tenho de confessar: Ronaldo Caiado é um dos meus assuntos preferidos.

Dessas admirações misteriosas que não conseguimos explicar, apenas sentir. Pela biografia esquisita, pelos posicionamentos histriônicos e os discursos cabotinos. Pelas histórias folclóricas e todo o emaranhado de sombras das lendas urbanas – no caso, rurais – que lhe são atribuídas. Pela postura arrogante e mal-educada com a imprensa, pela capacidade sui generis de desfazer laços e se separar de grupos que ele mesmo ajuda a fundar, tudo isso me faz querer compreender Ronaldo Caiado.

Se eu fosse Diogo Mainardi, Caiado seria o meu Lula.

Creio que a admiração e o mistério que ambos políticos despertam em mim e no jornalista radicado em Veneza são bastantes semelhantes. Tem um quê de inexplicável. Eu não sou Mainardi, Caiado não é nem uma sombra do principal líder popular do Brasil, quer Caiado queira quer não. Como diz Aécio Neves, constelações acima do brilho do senador goiano, “Lula não se explica, é um fenômeno popular”.

Aécio está certo.

Só que, ao contrário do Mainardi, não consideraria jamais Caiado como “minha anta”. Ele é o espectro de um outro Brasil que nos desacostumamos a ver nos últimos 13 anos. No entanto, é o Brasil de sempre. O Brasil que políticos como ele querem trazer de volta nem que seja na marra. Na deposição. O que Caiado quer abraçar como representante não é pouco e nem é ilusório, do contrário, é um tanto quanto real. É um Brasil datado de 1600 a 2000. São pelo menos 400 anos de uma aristocracia das bananas, de um poder capenga e frouxo emanado de clãs, de latifúndios, de coronéis e capitães do mato. O Brasil dos últimos 13 anos, os de Lula e Dilma, é um Brasil que oportunizou ao povo uma grande descoberta: nós não temos dono.

Durante séculos, nós, brasileiros comuns, nos apequenamos diante de supostos donos do Brasil que nos encoleiraram em opiniões, vontades e principalmente em possibilidades. Fomos impedidos de ter acesso à Educação, à formação técnica ou superior, fomos tolhidos de tentar ter um carro ou, quem poderia imaginar?, ter uma casa própria. Pobres brasileiros tinham de manter-se na mesma missão: nascer e morrer pobres, e convivendo entre si.

Só que a partir de 2002, começamos a perceber que nossa coleira era imaginária. Que se pudéssemos de fato acreditar e se nos fossem dadas condições minimamente ideais, poderíamos crescer, evoluir, ter e até mesmo chegar onde só os filhos dos nossos patrões antes pisavam. Os números, de qualquer instituto que o leitor quiser escolher, mostram isso: a ascensão social e a chegada das classes economicamente mais baixas às salas de aula das faculdades é uma realidade. O poder de compra foi resignificado.

Repito: quer Caiado queira, quer não. Isso é um fato que os números mostram.

Agora, com os recorrentes escândalos de corrupção, com a descoberta pela mídia de que o PT e os governos Lula e Dilma inventaram a roda do crime de colarinho branco com as empreiteiras (algumas delas quase centenárias e com obras em mais de dez países do Globo), os antigos “donos do Brasil” querem tomá-lo de volta. Nem que seja na porrada.

E é aí que políticos de um Direita velha, oligárquica e datada ganham espaço. É neste cenário da volta do que é velho que o discurso de Caiado prolifera. O Brasil do “nós contra eles”, do apartheid social, dos abismos econômicos e, sobretudo, das separações cotidianas é onde cresce e se espalha o ódio de Caiado por gestões populares. Aí começam as convocações pro “Vem pra Rua”.

É aí que nasce o ódio de Caiado por Lula, por Marconi Perillo e por todo mundo.
O mundo do senador Ronaldo Caiado é menor que o mundo do “Pequeno Príncipe”. Lá, na fábula de Saint Exupery cabe o príncipe e uma flor.

Caiado brigou com a flor e a arrancou do chão.

Em um momento de crise de credibilidade do PT, pelos desgastes naturais da superexposição e, obviamente, pelos escândalos de desvios de dinheiro público, a salvação vinda do passado ganha estranha sustentação como solução para o futuro. Hoje, os pobres que pagam seus carros e casas com benefícios inéditos adquiridos pelas gestões do PT se organizam para ir às ruas pedir um “Fora Dilma” e “Fora PT”. Querem se unir a uma massa com cheiro de coisa velha desta oligarquia delirante, imaginária, que nos permeia. Somos historicamente expurgos europeus que sonham com um brasão e um castelo herdado por gerações. Queremos ter fidalguia e linhagem. Mas tudo o que temos é o medo de perder o relógio de R$ 15 mil na esquina para um desses brasileirinhos pobres.

O discurso do atraso atende àquele sujeito que reclama que não consegue gente para trabalhar “porque estão todos sustentados pelo bolsa família”. É o discurso da dona de casa que reclama de ter de ir à feira ou ao supermercado porque não encontra mais “empregada doméstica”.

Pelo impacto das ações sociais dos últimos 13 anos, estamos perdendo a herança escravagista que permitia que por algum dinheiro mantivéssemos uma empregada que dormisse no trabalho. Ainda há um Brasil que lamenta não saber o que fazer com o chamado “quartinho de empregada”. Os filhos agora não podem mais crescer tentando bolinar em funcionárias da mãe. Ora, que Brasil é este que o PT refundou? É hora de sair às ruas e gritar: Fora Dilma.

Alguém precisa devolver minha empregada vinda do sertão nordestino sustentada com qualquer dinheirinho e se alimentando do que sobra depois do almoço da família.

O discurso de Ronaldo Caiado cai bem para parte dos goianos e para parte deste Brasil que quer reapertar a coleira imaginária. Curiosa­mente, como um agente político afiado e repleto de estratégicos argumentos, o senador do DEM usou a tribuna na última semana para repetir o discurso mais vazio entre os que lideram (??) este movimento. De todos os pensadores da Direita-mais-que-conservadora que o goiano poderia escolher, ele optou por emanar conceitos do ex-músico Lobão.

É Lobão quem dizia nas eleições: “vamos tirar o PT e depois a gente vê o que faz”. Caiado aposta em algo que sua inteligência não permite acreditar, mas que pelo senso de oportunismo ele se permite dizer: “Basta tirar o PT e a presidente Dilma que no outro dia o Brasil respira, cresce e supera as adversidades para voltar a ter tranquilidade, emprego e dignidade”.

São palavras dele na tribuna do Senado. São as profecias de um toque de mágica, um milagre.
Você, meu amigo que está pronto para ir às ruas – ou que já foi – para “manifestar” contra o mal do mundo, reflita: você realmente acredita que no dia seguinte a um golpe tudo fica às mil maravilhas?

Ficamos às mil maravilhas como éramos em 1500, em 1964, em 1984, em 1999?
Médico ortopedista, Caiado fechou seu discurso com uma frase de efeito: “O Partido dos Trabalhadores é a ‘hérnia de disco’ do Brasil”.

Caiado entende do assunto, já deve ter curado muitos pacientes do mesmo mal. Acontece que seu discurso em sintonia com o povo brasileiro não é tão profundo e nobre quanto seu reconhecido conhecimento da Medicina. E tudo o que resta a ele e a políticos que seguem a sua linha é ser não uma hérnia de disco, mas ser um disco arranhado que para e volta ao mesmo ponto, repetindo a mesma cantinela, insistindo no mesmo tom e querendo – por força da propaganda da desconstrução (uma especialidade do doutor) – passar a mesma ideia: só um golpe pode nos salvar.

Só um golpe pode nos salvar.

Só um golpe pode nos salvar.

Repita até acreditar nisso, vamos, não custa nada.

O que ninguém sabe é que o futuro de Caiado remete aos últimos 500 anos de Brasil.

Mas isso, que coisa, ele não diz.

Eu, definitivamente, adoro Ronaldo Caiado.

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Se os processos jurídicos e políticos forem seguidos, o afastamento da presidentE Dilma não se configura golpe… Vocês vermelhos gritaram “Fora Collor” e “Fora FHC” e ninguém gritou “golpe!”. Agora quando não há mais retórica que sustente tanta corrupção e incompetência você vem com esse papinho de comunista revoltado que vai perder as mamatas do governo dizendo que temos que nos sujeitar a esse tipo de governo pelo fato de parte da sociedade ter melhorado de vida? A maioria de nós que conseguiu melhorar de vida foi pelos próprios esforços e comprometimento!!! A bonança da economia do começo dos anos… Leia mais

O nome de quem escreveu a matéria está no inicio da página ao lado da foto do autor. Espero ter ajudado.

Na verdade a corrupção é o combustível que está trazendo de volta a direita, pois causa revolta instantânea, ninguém gosta de saber que foi roubado e quando surgem esses escândalos logo a população menos informmada pensa que qualquer coisa é melhor do que o que está aí, ou seja, é melhor regredir aos anos 70 (onde a corrupção era velada), do que ver esses escândalos todos.

A revolta do povo com a corrupção e o PT fez mal à toda a esquerda do Brasil, atualmente se você diz que é de esquerda, as pessoas não procuram saber o que é a “esquerda” e já te taxam como “Petista”, logo te associam à corrupção te mandam mudar para Cuba.

Bacana seu texto, muito bem escrito. Minimiza as mazelas atuais, que foram proporcionadas pela ideologia que você é adepto, e demoniza a ideologia contrária da pior – ou melhor- forma. Esse discurso de desconstrução da oposição e de passar a mão na cabeça do governo, tem muita chance de vingar. Não obstante, ainda chama impeachment e pedido de renúncia, de golpe. Não acho que seja despreparo, você passa a imagem de um cara sabido, acho que é a sua tentativa de lançar algo de efeito também, para chocar os leitores. Por fim, realmente acho que esse seja o caminho, o… Leia mais
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