Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

A campanha que insiste em não começar

Partidos e possíveis candidatos estão quietos, “deitados em berço esplêndido” em relação ao pleito do ano que vem

Carlos Antonio, Ernani de Paula e Alexandre Baldy: cadê a movimentação que poderia viabilizar uma campanha? | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Carlos Antonio, Ernani de Paula e Alexandre Baldy: cadê a movimentação que poderia viabilizar uma campanha? | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Tudo bem que os aportes financeiros andam cada vez mais curtos quando o assunto é “investir” em política e, com as mudanças na lei eleitoral a respeito de prazos, tanto par­tidos quanto pré-candidatos pu­seram o pé no freio a fim de aguardar um pouco mais, optando por es­ten­der as negociações e conversações so­bre alianças e composições de chapas. Mas, em Anápolis, além des­tes componentes, há uma espécie de le­targia que empaca generalizadamente as negociações. Anda-se mui­to para os lados e nada para frente.

O primeiro item de análise para tentar desvendar esta água de poço da política anapolina pode ser a postura político-administrativa dos governos de Antônio Gomide e João Gomes. Tanto um quanto o outro, com profundas relações com a cidade, não iniciaram gestões com teor agressivo, promovendo perseguições, o que costuma-se chamar de “caça às bruxas”. Muita embora elas existam e sobrevoem o passado administrativo, não foi feita uma campanha de perseguição que culminaria numa reação dos grupos e quadros eventualmente atingidos.

Ninguém revida um tiro que não foi disparado.

Igualmente não se criou nestes anos um estilo de governo baseado na dicotomia do “nós contra eles”. Do contrário, mesmo sem afinidade pessoal ou tampouco político-ideológica, Antônio Gomide manteve um diálogo proativo com o governador Marconi Perillo. O ponto alto desta relação foi a decisão de Perillo em 2012 de não ter um candidato seu na cidade. O governador nem sequer visitou Anápolis a fim de fazer campanha. Com João Gomes, esta relação torna-se ainda mais próxima dada a maior intimidade fora do cenário político do atual prefeito com o governador de Goiás. Ambos dizem-se publicamente amigos.

Quando não se cutuca a desavença, dificilmente ela se aproxima.

Outro ponto a ser considerado é o sucesso da gestão empreendida pela dupla. Os cinco anos de Gomide e a continuidade promovida por Gomes tem sido um tanto quanto realizadora. Desde a recuperação da confiança e do diálogo com o funcionalismo público municipal até a realização das chamadas “grandes obras” — que em Anápolis estavam ausentes havia pelo menos 20 anos — acalentaram a população, geraram autoestima e, como desdobramento indireto, acabaram por esvaziar o discurso da oposição.

Se as casas parlamentares são um importante termômetro de como anda a política de oposição frente ao Executivo, a Câmara Municipal de Anápolis reverbera bem o momento: a oposição é discreta e sem qualquer discurso consistente.

Mas nem tudo gira em torno da gestão municipal, bem como nem tudo depende das ações de quem está no poder. A terceira vertente que auxilia esta compreensão está na indisposição organizacional dos partidos em se movimentar. Do comodismo à preguiça – que não podem soar, mas são a mesma coisa – todas as demais legendas adormeceram branca-de-nevemente nos últimos anos. E é possível que esses “últimos anos” se refira a um tempo pré-Gomide/Gomes.

É natural que os partidos que integrem a base de um governo descansem um pouco da árdua e incessante tarefa de buscar novas lideranças. Quando se está na condição de dar suporte a um governo é, ainda, normal que novas lideranças não consigam se firmar por não terem um discurso único. É o esperado que quadros e partidos sejam apenas uma caixa de ressonância de um discurso uniforme do grupo que comanda as decisões administrativas da cidade ou do Estado.

Ainda assim, os partidos da base em Anápolis sossegaram. Se já não eram um primor de organização partidária, com reuniões periódicas, alinhamento com movimentos sociais, presença em bairros ou mesmo junto à sociedade organizada em geral, com a acomodação no governo e com o vento extremamente a favor, as legendas tiraram uma espécie de soneca política. Não incentivaram novas lideranças, não buscaram a renovação ou a inserção de novos quadros com possibilidades de gerar visibilidade, nem nada parecido. Para se usar um jargão patriótico, os partidos deitaram em berço esplêndido.

Os de oposição fizeram o mesmo caminho só que do outro lado. A falta de compromisso com o fortalecimento dos partidos de oposição sempre encontrou conforto na falsa segurança dos políticos de maior projeção. Exemplo? Dois. Um é Mar­coni Perillo e o outro é Ronaldo Caia­do. Pelo PSDB e pelo DEM, res­pe­c­ti­vamente, ambos sempre foram ao mesmo tempo a sombra que refresca nos dias quentes e também a mesma sombra que apaga na hora em que se deveria sair ao sol e brilhar.

Mas a culpa não é deles. Ao menos, não isolada e totalmente. Isso porque a existência de figuras populares com alto poder de decisão e autoridade fez com que os dirigentes anapolinos e os quadros com maior capacidade de gestão interna dos partidos também se acomodassem e contassem sempre com a decisão “que vem de cima pra baixo”. E nessa de esperar ordens superiores, congelou-se o tempo e o partido. Na espera de que sempre surgisse um “ungido” pelo governador, no caso, esqueceu-se de preparar aquele especial, pronto para só receber a unção. Ficaram todos no meio do caminho, sem unção, sem provisão, sem nada.

Independentemente do levantamento de nomes e seus partidos, hoje Anápolis conta com um ú­ni­co candidato: o prefeito João Go­mes, que tentará a sua reeleição. Além dele, há uma série de nomes muito mais especulativos que propriamente quadros competitivos que despertem na população alguma expectativa. O que na publicidade se batizou de “teaser” ou seja, aquela esperança do “vem aí”, em Anápolis, pode até vir, mas ninguém está sequer esperando ou sabendo o que vai encontrar.

Nomes como o do deputado federal Alexandre Baldy (PSDB), do ex-prefeito de Anápolis, Ernani de Paula (Pros) e do deputado estadual Carlos Antonio (SD) têm sido colocados e sondados. Alguns afirmam sua pré-candidatura, caso de Ernani e Baldy. Antonio deixou que assumissem por ele ao deixar a pauta correr. Só que numa análise consistente nenhum deles tem feito qualquer movimentação na cidade a fim de desempenhar uma campanha. O trabalho de base que Carlos Antonio possui não vem sendo estruturado para o ano que vem e os demais em nada se movimentam: Baldy faz uma fala bissexta e o ex-prefeito está empenhado em uma boa campanha de retorno à cidade para tentar uma vaga na Câmara Municipal.

Ernani de Paula chegou a afirmar em artigo que vê em Alexandre Baldy a sua própria imagem e semelhança de quando ele mesmo foi uma surpresa na cidade. Mas a Anápolis de 2016 é a mesma de 2000? O cenário político daquele tempo é o mesmo de hoje? Certa­mente que não. E mais: na época, Ernani era um empresário com residência fixa em Anápolis, na sua fazenda, que era um referencial no agronegócio. Possuía um círculo de amizades com dirigentes partidários e políticos havia alguns anos. Se não era conhecido pelo eleitorado, era bastante familiar e disputado por partidos. Ernani só se tornou candidato depois de ter sido convidado para ser vice em todas as demais chapas. Eis mais um diferencial.

De qualquer forma, tanto nestas legendas e nestes nomes quanto os que aqui nem sequer foram citados por total inconsistência política, o único traço uniforme que une todas as bandeiras político-ideológicas é a prostração e o arrebatamento do desânimo. Quem sabe os fogos do ano novo não façam os grupos acordarem para o ano eleitoral de 2016? É hora de esperar para ver.

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