Henrique Morgantini
Henrique Morgantini

Auge do embate entre o velho e o novo acontece em 2016

Eleição nos EUA vai confrontar a memória sobre os tempos de Clinton e a herança deixada por Obama

Trump e Hillary: os adversários na eleição que vai promover um sopro na biruta ideológica do mundo

Trump e Hillary: os adversários na eleição que vai promover um sopro na biruta ideológica do mundo

O Brasil vive uma crise de identidade. Talvez não seja de hoje ou, talvez, nunca tenha sequer iniciado este conflito: é possível que desde 1500 ainda busquemos uma identidade própria, fundante, algo que, se não nos caracteriza como povo, que pelo menos nos explique. Hoje, somos uma massa disforme que é histórica, ideológica, social e politicamente sem norte. Herdamos confusões e repetimos isto em nossa trajetória. Se a História é cíclica, nós não fugimos um grau da tangência de todas as curvas.

A análise dos nossos movimentos políticos é esclarecedora a fim de traduzir de onde viemos e o que nos tornamos. Passamos por regimes monárquicos, demos golpes, promovemos guerrilhas, atingimos a democracia. Então passamos por novos golpes militares, o último deles com duração de 20 anos e um lastro de malfeitos econômicos, culturais e sociais como sequela. Temos literalmente uma série de esqueletos escondidos pela nossa terra à espera de alguém que lhes confira justiça e dignidade, sobretudo serenidade às famílias. As mortes, por mais assombrosas que sejam, refletem um fetiche perverso de um regime que nos levou muito mais que vidas humanas. Como nação, dividimo-nos entre apoiadores deste tipo de violência e os que se entrincheiraram no combate aos abusos e desmandos.

Como se não bastasse esta secessão, ainda hoje carregamos a sobra disto. Somos o único país das ditaduras latinas que entrou num estranho “oba-oba” de anistia. O Brasil inventou, na contramão de nossos vizinhos, algo que pode ser chamado de Anistia ao Opressor. Aqui é o único lugar em que torturador tem a garantia moral de se justificar como integrante de carnificina. A anistia total referendou discretamente o direito à tortura e à perseguição.
Tudo isto vai se acumulando como nação e nos recalcando num processo de formação histórica do que somos.

E em meio a este cenário, encontramos quem saia às ruas pedindo mais. Mais do mesmo, mais da violência, da exceção. As manifestações recentes reivindicando a destituição da democracia e a instalação de um regime militar são baseadas no preconceito e no sentimento de uma parte do Brasil mimado. É o Brasil que não aprendeu a perder. Ou aprendeu algo pior: que aquilo que não conseguimos conquistar pelas regras pode ser conquistado com um golpe, com o uso da opressão das armas e na morte de quem está onde nós gostaríamos de estar.
Um golpe é tão somente isso: tomar na força o lugar que os meios libertários e justos da democracia não conferiram.

É fato que defender carnificina, tortura e regime de exclusão deveria ser o único item a sequer se mencionado por alguém que ganhou o direito de ir às ruas protestar através da luta democrática. No entanto, é um traço bastante presente nestas últimas manifestações contra o governo, organizadas sorrateiramente por partidos de oposição para que soe como algo “apartidário”. E este se configura no nosso traço mais característico nesta crise de identidade: nós não sabemos o que somos.

Não sabemos se somos saqueadores golpistas ou se devemos ser democratas até a última gota de sangue. Esta dúvida nos leva ao embate.

O confronto dado nos moldes de uma arquibancada das arenas de futebol tem se instalado pela necessidade clara como sociedade de criarmos um “nós contra eles”. E por mais nocivo que isto seja, não se pode contestar seu valor enquanto verdade. A guerra social se baseia em quem tem preconceito e quem é alvo deste preconceito. A luta de classes jamais chegou a um ponto tão alto no Brasil quanto agora. O Brasil branco da renda fixa foi às ruas na emblemática Avenida Paulista pedir a destituição de um governo que eles jamais apoiaram no voto. Eles não querem o fim da corrupção, eles querem o direito de ter o Brasil de volta, querem o direito de cercear, de praticar mais do preconceito a nordestinos, pretos, pobres.

De outro lado, há um Brasil diferente. Há um Brasil que sentiu na pele e na barriga os avanços de um governo popular. Este tipo de Brasil às vezes é convocado às ruas, mas sem se empolgar muito. E só vai porque o apelo das manifestações foi cuidadosamente montado para atingir a todos: o combate à corrupção. Há políticos envolvidos em casos de corrupção discursando em meio à massa, pedindo o fim da… roubalheira.

O brasileiro deve ser o povo mais suscetível à suspeita de desonestidade do mundo. Qualquer desconfiança protocolar se torna uma ofensa pessoal. Só um povo marcado pela desonestidade e pela ineficácia de caráter pode se ofender tanto. Qualquer mínima averiguação na saída do trabalho, um monitoramento padrão já nos dá arrepios, já nos soa como uma tremenda acusação.

É a reconhecida e temida desonestidade nossa de cada dia que nos convoca a “combater a corrupção”. Melhor combater nos outros que em nós mesmos.

Mas mais do que isso, o que está em jogo no Brasil, no embate do “nós contra eles” é de fato um movimento distinto por natureza. É o Velho contra o Novo. É o Brasil do apartheid social dos últimos quatro séculos versus este, de agora, mais inclusivo, com mais atenção ao pobre, ao faminto. Na roubalheira, somos todos iguais e a História nos dá está certeza.

Na roubalheira nos misturamos. No déficit de caráter somos verdadeiramente irmãos. E para isto não precisamos comparar escândalos de políticos e partidos. Bem mais perto que isso, conseguimos nos ver. Somos os canalhas do trânsito, que roubamos vagas reservadas, passamos propina a policiais, que às vezes as aceitam, fazemos carteira de estudante para pagar meia no cinema, e fazemos de tudo para enganar os outros e levar vantagem.
Mas no domingo é importante vestir a camisa verde-amarela da seleção (da CBF!) e ir às ruas pedir honestidade.

Veja que pedimos uma luta contra o comunismo, em nome do pleno capitalismo, mas burlamos as regras do nosso regime ao usarmos camisas da seleção falsificadas… somos uma legião de honestos piratas dos trópicos.

Pior, impossível.

Se serve de consolo – ou pelo menos algum alento na questão social da defesa de alguns conceitos dos Direitos Humanos – é interessante perceber que não estamos sozinhos. Em diversos outros países tem havido este embate. Na França, talvez a nação europeia que mais debata os problemas e soluções envolvendo imigrantes, os movimentos conservadores tem ganhado espaço desde a aventura de Michel LePen. Cresce o discurso inflamado da discriminação por lá.

O auge deste enfrentamento acontece, é claro, no centro das atenções do mundo: no ano que vem haverá uma eleição emblemática nos Estados Unidos. De um lado a ex-primeira-dama Hillary Clinton. Do outro, dois nomes fortes do movimento conservador. Pode ser o multimilionário Donald Trump ou o governador Jeb Bush, que carrega uma dinastia política do partido conservador. Hoje, dentro do Partido Republicano, tudo dá vantagem a Trump que, como um personagem de um valdeville dos ricaços, consegue incorporar bem um discurso do americano que quer “de volta a sua América”.

É uma versão mais endinheirada e mais racional da nossa, cujos brasileiros malandros querem de volta o direito de ter escravos mal remunerados em suas casas e empresas.
“Hoje ninguém quer trabalhar pelo salário que a gente paga por casa desse bolsa família”

Né?

As eleições americanas do próximo ano vão confrontar a memória do americano sobre os tempos de Clinton e ainda a herança deixada pelo primeiro presidente negro do país, Barack Obama, em contraposição ao retorno das políticas conservadoras. Trump fala abertamente em discriminação a não-americanos, imigrantes e mulheres. Faz piada.

Lá há um semelhante “nós contra eles”, com a diferença que ninguém torce para que o comandante do barco em que você está afunde só para que você possa dizer: Viu? Eu tinha razão. Este movimento de sociedade suicida que torce pelo quanto pior melhor é uma exclusividade de uma gente da república das bananas.

O fato é que as eleições americanas vão promover um sopro na biruta ideológica do mundo. Aqui, no lado ocidental, países com dilemas diferentes mas reações semelhantes vão se reorganizar com base nesta nova ordem. No oriente bélico, é só uma questão de odiar muito ou muito-muito o próximo presidente. Certamente que a escolha de um belicista coloca todo o Globo com a respiração em suspensão.

E enquanto isto, há quem faça vigília em oração pedindo que Jesus Cristo intervenha nos quartéis e faça com que as forças armadas persigam, torturem e matem aqueles cujo pensamento eu não concordo. Se você acha que isto não aconteceu, procure pelo vídeo. Está em todos os cantos da internet. É o golpe gospel em nome de Jesus.

No mesmo final de semana, na mesma São Paulo, uma chacina matou 19 pessoas num só local. Eram pobres, pretos e, talvez, alguns com passagens pela polícia.

Ninguém foi às ruas pedir o fim da violência. Porque ninguém liga para pretos e pobres. A reação de silêncio e omissão seria a mesma, caso a chacina acontecesse na esquina da Haddock Lobo com a Oscar Freire? A resposta a esta pergunta, curiosamente, dá uma direção para a compreensão do que querem os manifestantes na badalada e emblemática Avenida Paulista.

O diabo mora em Cuba.

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