Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

A Missão de Paz da ONU no Haiti liderada pelo Brasil pode ser considerada um sucesso?

Últimas tropas brasileiras são enviadas ao Haiti, cuja Missão de Paz se encerrará em outubro. Após 17 anos, seu sucesso é questionável

Foto: reprodução ONU

O Brasil enviou nesta terça-feira (16/05) 240 militares ao Haiti que integrarão a Missão de Paz das Nações Unidas neste país. O governo brasileiro lidera a missão desde 2004, mas por determinação do Conselho de Segurança da ONU no mês passado, deverá encerrá-la até 15 de outubro, quando os militares serão substituídos por uma força policial.

A motivação para o Brasil liderar uma missão de paz é, antes de mais nada, humanitária. Acaba servindo também para treinar militares em zonas conturbadas, além de melhorar a imagem brasileira perante a ONU, o que ajudaria a realizar um desejo antigo: conquistar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança.

As tropas enviadas ontem estão entre as últimas que o Brasil despachará ao Haiti e participarão da transição para a “Polícia da Paz”. Após 17 anos, vale destacar alguns pontos desta operação que nos fazem questionar o seu sucesso – não só no Haiti, mas em todos os outros países em que a ONU mantém missões de paz.

Em 2014, vieram à tona escândalos de abuso sexual no Haiti e na República Centro-Africana pelos capacetes azuis. Soldados se revezavam entre quem abusava e quem vigiava o local. Se as mulheres e crianças não aceitassem, simplesmente não recebiam mais assistência e alimentos. Foram registrados, somente no ano em questão, 79 casos, ou seja, quase um a cada quatro dias.

Correspondente brasileiro em Genebra, Jamil Chade disse ter pedido, sem sucesso, aos porta-vozes da ONU a lista de pessoas punidas na última década por terem cometido abusos sexuais. Em outras palavras, a transparência pregada pelas Nações Unidas a governos mundo afora não é praticada por eles mesmos. E para piorar, sabe-se que o único punido foi Anders Kompass, um funcionário do alto-escalão da ONU afastado do seu cargo e responsável justamente por denunciar esses casos.

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, comandante da Missão de Paz no Haiti entre 2006 e 2009, esteve em Goiânia no início do ano passado para conceder uma palestra. Perguntado sobre as medidas tomadas por ele acerca dos abusos sexuais, Santos Cruz justificou que muitos desses casos não passam de denúncias falsas com o intuito de receber indenização. Contudo, o general esqueceu que a maioria não chega nem a denunciar. Pode-se dizer, assim, que o número tende a ser maior do que 79 em um ano.

A lista de fracasso das missões de paz inclui ainda Somália, Ruanda, Bósnia, Saara Ocidental, dentre outros. Em relação ao Haiti, Ricardo Seitenfus, que já serviu como representante do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) no país caribenho, disse ao Jornal Zero Hora que esta foi “uma das piores missões de paz da história da ONU”. Portanto, a decisão de retirar tropas brasileiras do Haiti é acertada e as ações das Nações Unidas devem ser sempre questionadas.

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