Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sobrevivente que morava em Goiânia reconheceu nazistas que mataram judeus em Treblinka e Sobibór

Stanislaw Szmajzner fez o reconhecimento dos nazistas Franz Stangl e Gustav Wagner, os carrascos de Sobibór e Treblinka. Convidado por Pedro Ludovico, ele morava em Goiás

Franz Stangl e Gustav Wagner, homens da SS que cometeram barbaridades em campos
de extermínio da Polônia, como Sobibór, viveram no Brasil, onde foram presos

“Nazistas Entre Nós — A Trajetória dos Oficiais de Hitler Depois da Guerra” (Contexto, 189 páginas), do repórter do “Estadão” e doutor em História Marcos Guterman, não contém textos densos, o que não lhe retira certa profundidade. O livro é preciso, com um texto objetivo, unindo a objetividade do jornalista e o rigor do pesquisador. Há capítulos sobre Klaus Barbie, Josef Mengele, Albert Speer, Franz Paul Stangl, Gustav Wagner e Adolf Eichmann. O texto sobre o “arquiteto de Hitler”, embora importante, parece fora do escopo do livro, pois Albert Speer não fugiu para o Brasil ou para qualquer outro país da América do Sul. Não esteve, portanto, “entre nós”.

Franz Stangl supervisionou a segurança do ultrassecreto programa de eutanásia (para “eliminar os alemães” tidos como “incapazes ou com graves deficiências físicas e mentais”) e comandou dois dos mais letais campos de extermínio de judeus — o de Sobibór e Treblinka, na Polônia. Em Treblinka, responsabilizou-se “por administrar a pilhagem dos bens dos judeus e organizar a extração da pele e dos dentes dos mortos”. À jornalista Gitta Sereny (que esteve em Goiás para entrevistar um sobrevivente de Sobibór, Stanislaw Szmajzner), disse que “considerava a pilhagem e os negócios feitos com o produto desse roubo numa ‘legítima atividade policial’ e que essa atividade nada tinha a ver com o genocídio”. Gitta Sereny, ao entrevistar o nazista, contrapôs que seu argumento “ignorava o fato óbvio de que não haveria bens pilhados a administrar se não tivesse havido, em primeiro lugar, a morte de seus legítimos donos”. A ele eram imputados “o assassinato de 800 mil pessoas, a maioria judeus, somente em Treblinka”.

Em 1942, Stangl foi indicado para o campo de Sobibór, passou por Belzec, outro campo de extermínio, e voltou a Sobibór. Guterman assinala que, “em parte sob a zelosa supervisão de Stangl, de maio de 1942 a outubro de 1943, entre 200 mil e 250 mil prisioneiros, a maioria judeus, foram eliminados” neste campo. Dada sua “competência”, foi designado para Treblinha. “Cerca de 900 mil judeus foram mortos em pouco mais de um ano, entre julho de 1942 e outubro de 1943”, registra o pesquisador.

A partir de 1943, Stangl lutou na Iugoslávia e na Itália. O exército americano o capturou e o entregou, em 1947, às autoridades da Áustria. Em 1948, com a ajuda da Ratline (rede de apoio aos nazistas), escapou e, na Itália, recebeu ajuda do bispo austríaco Alois Hudal, da Igreja Católica. Hudal arranjou-lhe um passaporte da Cruz Vermelha e o nazista fugiu para a Síria. Em seguida, a mulher de Stangl, Thereza, visitou a embaixada brasileira em Beirute. “Diplomatas brasileiros se interessaram por Stangl, que lhes ofereceu seus préstimos de mecânico e, assim, obteve o visto para que sua família se mudasse para o Brasil”, anota Guterman. Seria interessante saber os nomes dos diplomatas.

Stangl e a família chegaram ao Brasil em 1951. Ele trabalhou inicialmente numa indústria têxtil e construiu uma casa em São Bernardo do Campo, depois se mudaram para o Brooklin, em São Paulo. Thereza trabalhava na Mercedes-Benz e o marido na Volkswagen, duas empresas alemãs.

O nazista sequer mudou de nome, mas, como seu nome constava “de uma lista de criminosos de guerra procurados pela Áustria”, Simon Wiesenthal, o caçador de nazistas, estava em seu encalço. Em 28 de fevereiro de 1967, o Dops o prendeu.

Um sobrevivente de Sobibór, Stanilaw Szmajzer, que morava em Goiânia — havia sido convidado para mudar-se para Goiás por Pedro Ludovico, o fundador da capital —, testemunhou contra Stangl tanto no Brasil quanto no julgamento de Düsseldorf, em 1970. “Stangl foi o único dos principais comandantes dos terríveis campos de extermínio a ser conduzido a julgamento na Alemanha depois da guerra”, escreve Guterman. Foi condenado à prisão perpétua. Morreu, em 1971, em sua cela.

Gustav Wagner, depois de participar do programa de eutanásia, trabalhou em Sobibór (ajudou a matar 250 mil pessoas). A Besta de Sobibór era um homem cruel e “torturava suas vítimas fazendo-as violar mandamentos religiosos” e “gabava-se de conseguir matar pai e filho com uma única bala — bastava juntar a cabeça das vítimas e atirar”. Mesmo depois de matar os pais de Stanislaw Szmajzner, afeiçoou-se ao adolescente, que, para sobreviver, trabalhava como ourives para Wagner e Stangl.

Wagner chegou ao Brasil em 1952, depois de uma passagem pela Síria. Trabalhou como caseiro num sítio de Atibaia. Com o apoio do jornalista Mario Chimanovitch (então no “Jornal do Brasil”), que publicou uma reportagem sobre o nazista, sugerindo que havia participado de uma festa de nazistas, Simon Wiesenthal intensificou sua caçada. Assustado, o carrasco de Sobibór apresentou-se à polícia posando quase de vítima, em maio de 1978.

Ao ser preso, em São Paulo, Wagner tentou se apresentar como um mero sargento em Sobibór, sem papel importante no extermínio de judeus. Não se tinha informação de que se tratava da Besta de Sobibór. Ao vê-lo no “Jornal Nacional”, Stanislaw Szmajzner “quase teve um infarto”. “Por trás daquela fala mansa e daquela aparência pacata está o maior monstro que se pode imaginar”, informou o sobrevivente de Sobibór.

A polícia intimou Stanislaw Szmajzner para uma acareação com o nazista. Ao se encontraram, o judeu chama o nazista de Gustl, como era conhecido no campo da Polônia. Pego de surpresa, o assassino de judeus disse: “O senhor era o menino que fazia joias para mim. Não deveria fazer isso comigo porque eu lhe protegia”.

Para a surpresa de todos, em junho de 1979, o “Supremo Tribunal Federal negou todos os pedidos de extradição de Wagner. O argumento central é que os crimes pelos quais Wagner estava sendo acusado foram considerados prescritos pela lei brasileira e pela lei alemã. Ainda não havia, no direito brasileiro, a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, conforme estabelecido pela ONU em 1970, valendo, portanto, o que dizia o ‘direito comum’”, assinala Guterman.

Em outubro de 1980, Wagner matou-se com uma facada no coração, no sítio de Atibaia.

O livro sintetiza, com mestria, a história dos nazistas que, com o apoio de redes de proteção, ao menos uma delas bancada por religiosos da Igreja Católica, fugiram para a América do Sul e viveram com relativa tranquilidade em países como Brasil, Paraguai e Argentina

Josef Mengele
O médico Josef Mengele era conhecido, em Auschwitz, como o “Anjo da Morte”. No campo de extermínio, selecionava aqueles que iriam viver — muitos para que pudesse usar em experimentos ditos científicos e outros para trabalhar como escravos — e os que iriam morrer na câmaras de gás. Era uma espécie de Deus da vida e da morte.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, Mengele escondeu-se primeiramente na própria Alemanha, tendo vivido quatro anos na zona de ocupação americana. Ante a possibilidade de ser preso e condenado à morte, fugiu para a Áustria e, de lá, para a Itália. Há indícios de que a rede Die Spinne encaminhou-o para a Argentina, em 1949, onde chegou com o nome de Edler von Breitenbach. No país de Perón, recebia salário de uma empresa do pai. Lá convivia com Adolf Eichmann (sequestrado pelo Mossad, serviço secreto de Israel), que havia adotado o nome de Ricardo Klement, e Willem Sassen.

Mengele trafegava com liberdade entre a Argentina e o Paraguai, onde chegou a ser apresentado ao presidente Alfredo Stroessner. Usava o nome de Helmut Gregor, mas era conhecido como José Gregori. Sua vida era tão tranquila que voltou a usar o nome de batismo. Mas em 1959 o juiz alemão Robert Müller emitiu uma ordem de prisão para o criminoso. Pouco antes, no Paraguai, havia pedido cidadania paraguaia com o nome de José Mengele. O país não tinha tratado de extradição com a Alemanha.

Em 1960, o Mossad começou a se preparar para capturar Adolf Eichmann e Mengele. A prioridade era o primeiro, “o planejador da matança dos judeus”. Mengele apavorou-se e mudou-se para São Paulo, em outubro de 1960, ficando sob a proteção de Wolfgang Gerhard. Quando Eichmann foi levado para Israel e condenado à morte, desesperou-se e chegou a deprimir-se.

Com receio de ser capturado pelo Mossad, que estava em seu encalço, Mengele escondeu-se num sítio de Itapecerica da Serra, em São Paulo, onde viveu abrigado pelo casal húngaro Geza e Gitta Stammer durante 13 anos. O nazista impiedoso escrevia poemas para Gitta, aparentemente apaixonado.

O governo alemão, informado de que Mengele estava no Brasil, pediu sua extradição. Mas o governo brasileiro não tinha informação sobre sua localização. Desconfiado, o médico mudou-se para uma fazenda, em Serra Negra.

Em 1962, o Mossad recebeu informação de que Mengele estava no Brasil, mas o governo de Israel tinha problemas mais sérios, como o conflito contra o Egito, com os quais se preocupar. Em 1967, o Mossad, com base em novas informações, concluiu que o nazista estava no país. Mas a Guerra dos Seis Dias interrompeu os preparativos para a caçada.
Quando Fritz Bauer, o juiz do julgamento de Frankfurt que tinha interesse em julgar Mengele, morreu, em 1968, a Alemanha desinteressou-se do médico.

Mengele, que passa para a proteção do casal austríaco Wolfram e Liselotte Bossert, “chegou a comprar um apartamento no centro de São Paulo, por 7 mil dólares”. Ele alugava o imóvel.
Em 1971, Mengele conseguiu uma identidade brasileira, ainda que falsa, e passou a usar o nome de Wolfgang Gerhard. Era o nome de um homem que voltara para a Áustria.

Em meados da década de 1970, Mengele passou a morar sozinho em Diadema, numa casa. Os vizinhos o conheciam como Pedro. Ele e um amigo jardineiro, Luís Rodrigues, assistiam novelas e “O Mundo Maravilhoso de Disney”.

Em 1976, Mengele sofreu um acidente vascular cerebral e começou um caso com sua empregada, Elza Gulpian de Oliveira. Mas a jovem, quarenta anos mais nova, o abandonou e ele flertou com o suicídio. “Passou a zanzar pelas ruas sem destino e quase foi atropelado.”

Em fevereiro de 1979, Mengele entrou no mar, em Bertioga, sofreu novo derrame e morreu. Seu corpo foi enterrado no cemitério Nossa Senhora do Rosário, no Embu. A polícia alemã descobriu cartas de Mengele para um amigo, Hans Seldmeier, e avisou a Polícia Federal do Brasil. O delegado Romeu Tuma vasculhou a casa dos Bossert, apreendeu documentos e, em seguida, descobriu a ossada de Mengele.

Escapada e proteção
Nazistas que contribuíram para o assassinato de milhões de judeus, homossexuais e ciganos, além de adversários políticos, como comunistas, viveram com relativa tranquilidade na América do Sul, inclusive no Brasil — casos de Mengele, Stangl e Wagner. Klaus Barbie, o açougueiro de Lyon, trabalhou para Estados Unidos e Alemanha “na caçada aos comunistas”.

Ao contrário dos Estados Unidos, que recrutaram nazistas, tanto cientistas quanto militares, notadamente da área de informação, Guterman afirma que os governos militares do Brasil eram “indiferentes” aos nazistas. “Nenhum dos três [Mengele, Stangl e Wagner] contou com a ajuda do governo brasileiro nem para se esconder nem para se manter, e também, até onde se sabe, não participaram de nenhuma atividade relativa à perseguição de comunistas. E os que acabaram capturados — casos de Stangl e Wagner — foram julgados conforme a lei, sem nenhum tipo de tratamento especial”, relata o pesquisador.
Há livros apontando a existência de uma rede transnacional de proteção à fuga dos nazistas — de nome Odessa, que, segundo Guterman, “nunca existiu de fato”: “Mas houve de fato diversos empreendimentos organizados para tirar os nazistas da Europa e levá-los a lugares seguros, onde, com a ajuda de membros do Vaticano e dos serviços secretos de várias partes do mundo, escapariam da Justiça e poderiam reconstruir suas vidas, muitas vezes emprestando sua expertise em tortura e assassinatos para governos ditatoriais ou mesmo em democracias dispostas a usar qualquer arma, mesmo as imorais, para vencer a Guerra Fria contra os comunistas”.

Guterman sublinha que “a principal rota de fuga para os nazistas era a chamada Ratline, literalmente ‘Linha dos Ratos’, também conhecida como ‘Rota dos Monastérios’, por envolver sacerdotes católicos. (…) A Ratline foi organizada por sacerdotes de ultradireita, que usaram parte da estrutura do Vaticano para operar. Um dos protagonistas da Ratline foi o padre Krunoslav Draganovic, um fascista croata, que tinha grande trânsito nos serviços de inteligência americanos, os quais ele ajudava com informações e com o perigoso trabalho de transportar para fora da Europa os nazistas que interessavam aos Estados Unidos. Outro importante operador da Ratline foi o bispo Alois ‘Luigi’ Hudal, reitor de um seminário austro-germânico em Roma. Foi ele quem organizou pessoalmente a fuga de Franz Stangl para a Síria e também de Adolf Eichmann e Josef Mengele”.

Uma organização menor, Die Spinne, A Aranha, “trabalhou para tirar nazistas da Europa — cerca de 600 criminosos foram beneficiados”. Guterman diz que Die Spinne aproxima-se da lendária Odessa, “pois se dedicava, tal como a rede fictícia, a salvar apenas ex-integrantes da SS, a tropa de elite nazista”. Otto Skorzeny, o superespião nazista, era um de seus operadores. “Os serviços de inteligência americanos sabiam perfeitamente como funcionava a rede Die Spinne, mas aparentemente nada fizeram para interromper seu trabalho.” Pelo contrário, os americanos usaram os serviços de vários nazistas, como Otto Skorzeny.

Os Estados Unidos negaram vistos para sobreviventes do Holocausto, mas, regista Guterman, “ao menos 10 mil nazistas receberam status de refugiados de guerra e puderam entrar. O imperativo da luta contra os comunistas se sobrepôs a qualquer consideração moral por parte dos Estados Unidos. Os nazistas começaram a ir para os Estados Unidos antes mesmo do início da Segunda Guerra”.

O nazista Karl Wolff, um dos homens-chaves de Heinrich Himmler, o chefão da SS, trabalhou para os americanos, notadamente para Allen Welsh Dulles. “Na Europa, numa operação chamada ‘Projeto Felicidade’, o CIC (Counterintellence Corps, o serviço de contraespionagem do exército americano) contratou ex-integrantes da Gestapo para se infiltrarem no KPD, o Partido Comunista Alemão.”

O nazista Otto von Bolshwing trabalhou como informante para a CIA, ganhando até elogios pela “eficiência”. O cientista Wernher von Braun, que trabalhara para Hitler, sem contestá-lo, tendo inclusive usado “mão de obra escrava para desenvolver mísseis que foram despejados sobre civis em Londres, se mudou para o Alabama e tornou-se um respeitável cidadão americano”.

Guterman ressalta que os Estados Unidos convocaram, “já a partir de 1946, químicos que haviam trabalhado na IG Farben, fornecedora de gás que matara milhões de judeus, e médicos que haviam feito experiências terríveis nos campos de extermínio”. Tudo em nome da competência técnica e da realpolitik. O engenheiro nazista Arthur Rudolph contribuiu, como Von Braun, “no desenvolvimento dos mísseis Pershing e do foguete Saturno V, pioneiro na exploração da Lua”. O pai da medicina espacial americana, Hubertus Strughold, era aliado de Hitler e “tinha pleno conhecimento dos terríveis experimentos com prisioneiros do campo de Dachau, na Alemanha, durante o Terceiro Reich”. Ele sabia que prisioneiros eram congelados vivos. Gustav Hilger, braço direito do ministro das Relações Exteriores da Alemanha nazista, Joachim von Ribbentrop, trabalhou como consultor da CIA. Era protegido por George Kennan, um dos intelectuais mais respeitados da diplomacia americana. Guterman informa que pelo “menos 20 criminosos nazistas” figuraram “na folha de pagamento da CIA e de outras agências americanas”.

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