Euler de França Belém
Euler de França Belém

Proibição da construção do Nexus pela Justiça prova que a sociedade está viva e não é amorfa

Os construtores do Nexus, cuja obra está vetada pela Justiça, anunciam na mídia e por isso contam com o seu silêncio. Mas a sociedade resiste e, com o apoio do Jornal Opção, derrota os poderosos

Maquete do Nexus Shopping & Business | Foto: Divulgação

Maquete do Nexus Shopping & Business | Foto: Divulgação

Fazer jornalismo, em qualquer lugar do mundo, é uma tarefa de Hércules. Nos Estados Unidos, país no qual se apregoa que é crítica, a imprensa por vezes adere ao poder e faz críticas mais pontuais do que estruturais. O governo do presidente Barack Obama, em nome da preservação do Império, mata centenas de pessoas em alguns países, mas o mundo pouco fica sabendo disto, porque os jornais cobrem mal política internacional. Na luta contra o terrorismo, é o que se depreende, vale tudo — inclusive omitir informações sobre massacres de inocentes “confundidos” com terroristas da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Se os jornais cobrem de maneira parcial os fatos, e aqui se está falando de “New York Times” e “Washington Post”, dois dos mais importantes dos EUA, restam os livros publicados por jornalistas que conseguem ir além do trivial e não aceitam cabrestos do governo.

Jeremy Scahill escreveu dois livros obrigatórios para que se entenda a política do terror — por vezes, apresentada como “guerra justa” — operada pelo governo americano. “Blackwater — A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo” (Companhia das Letras, 552 páginas, tradução de Claudio Carina) e “Guerras Sujas — O Mundo é um Campo de Batalha” (Companhia das Letras, 840 páginas, tradução de Donaldson Garschagen) mostram, com uma fartura de dados impressionante, o que militares, agentes da CIA e terceirizados do país mais rico e poderoso do mundo estão fazendo no Oriente Médio (e não só).

Mark Mazzetti, ganhador de um Pulitzer, publicou “Guerra Secreta — A CIA, um Exército Invisível e o Combate nas Sombras” (Record, 391 páginas, tradução de Flávio Gordon), no qual mostra que o Pentágono e a CIA, com novas funções, estão matando e espionando (com total apoio de Barack Obama). Matam mais inocentes do que guerreiros da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Há, por assim dizer, um terrorismo de Estado. Não que a imprensa americana não mostre isto, até mostra, mas com escassa contundência e estridência. O que chega até nós, com destaque, são as mortes que ocorrem nos EUA e na Europa. Os mortos inocentes do Oriente Médio e da África, vítimas de ataques frequentes, em parte por meio de drones, raramente são lembrados.

A história de Edward Snowden sobre a espionagem abusiva de cidadãos americanos e de vários outros países, pela Agência de Segurança Nacional dos Estados (NSA), saiu primeiro, de maneira enfática, no “The Guardian”, jornal britânico, e só a rebarba ficou para a imprensa americana.

A imprensa que “moita” notícias é universal, evidencia-se. Sozinho — repita-se, sozinho — o Jornal Opção começou a publicar, há alguns meses, a história do empreendimento Nexus (os ossos do escritor americano Henry Miller, se ainda existirem, devem ter revirado-se no túmulo).

O Nexus é um combinado de shopping, hotel, salas corporativas e para escritórios, entre as avenidas D e 85, no Setor Marista, em Goiânia. Não é preciso ser arquiteto, urbanista e engenheiro para perceber que a construção neste lugar, no qual já se processa engarrafamentos — tanto que, quando prefeito, Iris Rezende construiu uma trincheira para tentar reorganizar o trânsito do local —, fere o bom senso. Uma construção desta dimensão deve ser levada para uma área mais distante — tal como fizeram com o shopping Passeio das Águas, que, inclusive, atrai novos investimentos para a região Norte, tradicionalmente abandonada e agora em processo de amplo desenvolvimento e valorização.

A construção do Nexus, agora vetada pela Justiça — há possibilidade de recorrer —, se for efetivada, um dia, demonstrará cabalmente que a cidade tem donos, e não são os cidadãos, e sim os empresários da construção civil. Contra tudo e contra todos — como se cidade grande fosse mesmo uma selva, onde é cada um por si e Deus contra todos, diriam Mário de Andrade e Werner Herzog —, dois empresários planejaram o Nexus para uma área já congestionada.
Como constatou um perito, o relatório de impacto de vizinhança, que deveria registrar a opinião verdadeira dos moradores do Setor Marista, foi falsificado. Uma repórter do Jornal Opção conversou com moradores do bairro e alguns disseram que, apesar de seus nomes constarem no relatório, não haviam sido ouvidos e suas assinaturas haviam sido falsificadas. O perito, ao examinar as assinaturas, percebeu que podem ter sido feitas por uma só pessoa.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) encampou a luta dos moradores do bairro, que também é sua, e demonstrou, por meio de um relatório técnico substantivo, que a confluência das avenidas D e 85 não é o local apropriado para o complexo Nexus, um “megaempreendimento”, como dizem seus apóstolos. O caso chegou ao Ministério Público e a mídia local, com se vivesse em Shangri-la, não publicou uma linha. Assim que saiu a decisão da Justiça, mandando suspender as obras do Nexus, a imprensa parece ter acordado do sono dos injustos e registrou o fato — claro, sem citar as reportagens anteriores do Jornal Opção. Curiosa ou sintomaticamente, o registro ficou expresso mais na internet do que nos produtos impressos.

O fato é que a obra está suspensa. O que prova que a sociedade é um organismo vivo, nada amorfo. Os poderosos, que se colocam acima das leis e dos mortais ditos comuns, também devem cumprir a legislação do país e levar em conta o que pensam os moradores da cidade.
A resistência do Jornal Opção prova que uma andorinha — uma só —, quando quer, faz, sim, verão. Mas a resistência não seria nada se não tivesse contado com figuras dignas e ponderadas do Ministério Público, como o competente e sóbrio promotor de justiça Juliano Barros, e do CAU, como as arquitetas Maria Ester e Regina Faria.

Acrescente-se, por fim, que o Jornal Opção não é contrário à edificação do Nexus. Só avalia, amparado nas avaliações técnicas, que o Setor Marista, ao menos entre as avenidas D e 85, não é o local adequado para sua localização. O entendimento do jornal é que uma obra deve ser positiva para a cidade como um todo, não apenas para seus construtores, que, depois de construi-la, não se sentem responsáveis pelo trânsito, pelos estacionamentos. A construção pode se tornar um trambolho para a cidade, mas os empresários não estão nem aí e, claro, já começam a pensar noutras obras.

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