Euler de França Belém
Euler de França Belém

Poema de Gerard Manley Hopkins que George Orwell recitava durante a Guerra Civil Espanhola

Durante a noite gelada, quando estava de guarda para proteger seus aliados republicanos, o autor de “Homenagem à Catalunha” recitava sem parar “Felix Randal”

Gerard Manley Hopkins e George Orwell

Ao contrário de alguns escritores e jornalistas, George Orwell realmente lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e só saiu da frente da batalha devido a um grave ferimento no pescoço. O autor de “Home­nagem à Catalunha”, livro incontornável sobre a luta contra as tropas de Francisco Franco e do stalinismo, chegou a comandar soldados, que, cedo descobriu, estavam despreparados para guerrear contra militares adequadamente treinados pelos fascistas. O inglês Stafford Cottman, que estava na Espanha, disse a respeito de George Orwell: “Era um dirigente nato. Infundia respeito e sabia do que falava”. Ele, que havia sido policial na Birmânia, era disciplinado militarmente e sabia atirar.

Provando que era um homem diferenciado, enquanto muitos bebiam e fumavam nas noites geladas, George Orwell, quando estava de guarda, recitava sem cessar o poema “Felix Randal”, do notável poeta Gerard Manley Hopkins (1844-1889), espécie de Emily Dickinson da Inglaterra. O autor de “A Revolução dos Bichos” e “1984”, ficções candentes sobre o totalitarismo, denominava-o como “o melhor poema breve em língua inglesa”.
Hopkins, padre jesuíta, era um homem angustiado? Aparentemente, sim. Era um religioso convicto, não há dúvida. Mas era também um intelectual de primeira linha, com ampla formação filosófica, e sobretudo era um grande poeta, quer dizer, um ser incontrolável. Volta e meia, seus chefes religiosos buscavam moderá-lo, como se fosse possível “segurar” um rebelde que se debatia entre ser integrado, o que era, e apocalíptico, o que também era.

Em 1944, ao analisar um livro de Hopkins, George Orwell escreveu: “A arte emerge do sofrimento, e está claro que Hopkins era infeliz, e não só porque tinha má saúde. Fora um poeta esquecido e estivera condenado a um trabalho desagradável em lugares deprimentes”. Jeffrey Meyers, autor da biografia “Orwell — La Consciencia de una Generación” (Ediciones B, 443 páginas, tradução de Maria Dulcinea Otero), anota que o escritor, “que também se encontrava em um lugar deprimente, se identificava com o poeta jesuíta”.

Na sequência, três capas de livros com traduções qualitativas da poesia de Hopkins; trabalhos exemplares de Aíla de Oliveira Gomes, Jorge Wanderley e Augusto de Campos

Nós, brasileiros, temos sorte, pois contamos com duas traduções de primeira linha do poema “Felix Randal”.

A tradução de Aíla de Oliveira Gomes (a grande tradutora é sempre enaltecida pelo crítico literário e poeta Adalberto de Queiroz) está no livro “Poemas” (Companhia das Letras, 183 páginas), de Hopkins. Ei-lo: “Felix Randal, o ferrador, ah! ele morreu? Findo é meu/dever —/Eu, que acompanhei esse molde viril, ossuda, rude beleza,/Definhando, definhando, até vaguear dentro dele sua razão/sem firmeza,/E ficarem quatro desordens fatais em sua carne a combater.//A doença o quebrou. Impaciente, a princípio praguejou, mas/melhorou/Depois da unção e tudo mais; embora um coração mais/piedoso, antes/Se formara, des’que lhe ministrei nossa doce absolvição/resgatante./Ah! Deus lhe perdoe algum caminho errado que trilhou.//Isto de ver doentes os torna amados; e cresce por nós sua/estima/Minha boca sussurrou-te consolo; minha mão ao tocar-te/enxugou-te a lágrima,//Tua lágrima tocou-me o coração, filho, Felix, pobre Felix/Randal;//Quão longe, então, de tuas conjecturas, quando, nos anos/impetuosos de tua vida,/Vigorosos entre teus pares, tu, em tua forja de pedras brutas,/denegridas/Moldava p’ra o cavalão cinza da carroça sua sonora,/cintilante sandália!”(Acrescente-se que Aíla de Oliveira Gomes é autora de uma introdução esclarecedora sobre a poesia e a vida de Hopkins.)

Jorge Wanderley traduziu “Felix Randal” (“22 Ingleses Modernos — Uma Antologia Poética”, Civilização Brasileira, 162 páginas): “Morreu Felix Randal, ferrador? — Que a luta eu/[suspenda,/Eu que o vi — um modelo de homem, belo e/[espadaúdo,/Definhando, definhando, até que o delírio em tudo/Se estendeu — e lhe encarnou quatro males em/[contenda!/A doença o quebrou. E praguejou, mas veio a/[emenda/Depois de ungido: embora um coração com mais/[virtude, o/Entendesse antes, pois eu lhe estendia o nosso/[mudo/Perdão. Deus lhe perdoe nos feitos tudo O/[ofenda!/Isso de ver doentes nos liga a eles, sim, liga!/Consolei-te e te enxuguei lágrimas com mão amiga,/As tocantes lágrimas, meu filho, Felix Randal: e a/Sorte tão imprevisível, nas horas de mais fadiga!/Quando ao cavalo cinzento, da forja tosca e antiga/Calçaste com brilhante e percussora sandália!”
Lido o poema, dá para entender por qual motivo George Orwell o recitava, durante as noites geladas da Espanha, quando combatia pelos republicanos contra as tropas de Franco.

Augusto de Campos não traduziu “Felix Randal”, mas é autor de um livro, “Hopkins — A Beleza Difícil” (Perspectiva, 111 páginas), no qual, além de traduzir os poemas “A grandeza de Deus”, “Ser estrangeiro é minha sina” (Aíla de Oliveira Gomes traduz o início assim: “Parecer um estranho é minha sina, minha vida/Entre gente estranha”. Versão de Augusto de Campos: “Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio/A estrangeiros”) e o “Naufrágio do Deutschland”, escreve uma crítica luminosa à arte inventiva do poeta.

Uma tradução de Augusto de Campos para outro poema de Hopkins: “Senhor, és justo, mas se te ouso agora/Contraditar, também é justo este meu pleito./Por que somente o mau prospera e sempre gora/Meu sonho de florir, desolado e desfeito?//Um inimigo, ó caro amigo, não me fora/Tão desamigo ou mal maior houvera feito/Para me destruir. Mais vive e mais vigora/O escravo da paixão do que eu que ora rejeito/A vida por tua causa. Admira, em mata e messe/As folhas cobram cor! De laços se carrega/A umbelífera em flor. À volta, o vento tece-/A; aves alam-se — eu não; cego, meu ser se nega./Eis-me, eunuco do Tempo, em mim nada floresce./Minhas, senhor, de mim, ruins raízes rega.”

Tradução de Aíla de Oliveira Gomes para o mesmo poema: “Sim, é justo, Senhor, se consigo contendo./Mas, senhor, o que pleiteio é justo. E por que hão/De prosperar os planos dos pecadores e aquilo que pretendo/Há de sempre somente terminar em decepção?//Pois hás de ser pior que um inimigo, oh! meu amigo,/Que me abates, me frustras? Enquanto, em ociosas horas,/Ébrios, lascivos prosperam; eu, que contigo/Vivo e apenas por ti luto, tu não me olhas!//Vê como bosques e encostas, em novo alen­to,/En­folham-se e verdejam, engrinaldados de festivas/Gregas de salsa. Vê como tremulam ao vento.//As aves constroem. Não eu; em lidas in­felizes,/Eunuco do tempo, não crio nada que viva./Senhor da vida, envia chuva a minhas raízes.”