Euler de França Belém
Euler de França Belém

Numa viagem de trem de Zurique à Estação Finlândia, Lênin articulou a Revolução Russa de 1917

Em oito dias, dentro de um trem, o líder bolchevique bolou a tese de que a revolução deveria ser violenta e dirigida por um grupo de vanguarda. Ele tinha 47 anos e estava no exílio havia 12 anos

Vladimir Lênin: o político que, liderando os bolcheviques, conseguiu fazer a revolução que mudou a história do século 20 até nos países capitalistas

A Revolução Russa de 1917 completa 100 anos em outubro (ou fevereiro, dependendo do calendário). As editoras estão assanhadas e começam a publicar livros de qualidade. A melhor “biografia” da guerra pelo poder articulada pelo bolchevique Vladimir Lênin é “A Tragédia de um Povo — A Revolução Russa: 1891-1924” (Record, 1103 páginas, tradução de Valéria Rodrigues), do historiador britânico Orlando Figes. É a bíblia sobre o assunto. Merece reedição. As casas editoriais estão publicando obras tanto sobre a Revolução de 1917 quanto sobre a consolidação do socialismo na União Soviética e países-satélites e a respeito da debacle comunista de 1989 a 1991. Acabam de chegar às livrarias os excelentes “Cortina de Ferro — O Esfacelamento do Leste Europeu: 1944-1956” (Três Estrelas, 710 páginas, tradução de Alexandre Morales), “O Fim do Homem Soviético” (Companhia das Letras, 596 páginas, tradução de Lucas Simone), de Svetlana Aleksiévitch, “O Túmulo de Lênin — Os Últimos Dias do Império Soviético” (Companhia das Letras, 712 Páginas, tradução de José Geraldo Couto) e “A Maldição de Stálin — O Projeto de Expansão Comunista na Segunda Guerra Mundial e Seus Ecos Para Além da Guerra Fria” (Record, 558 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), de Robert Gellately. Portugal, país menor do que Goiás mas com uma indústria editorial ativa, lançou recentemente “Lenine no Comboio” (Temas e Debates, 344 páginas), de Catherine Merridale, e “Os Últimos Dias de Estaline” (Objectiva, 336 páginas), de Joshua Rubenstein.
Os livros de Catherine Merridale (tam­bém autora do magnífico “For­ta­leza Vermelha — O Coração Secreto da História da Rússia”, Temas e De­ba­tes, 664 páginas; trata-se de um livro sobre o Kremlin) e de Joshua Ru­benstein foram comentados com atenção na imprensa de Portugal. O da primeira mais positivamente do que o do segundo.

Lênin estava exilado havia 12 anos quando, aos 47 anos, convocado pelos comunistas russos, decidiu voltar para comandar a revolução. Ele saiu de Zurique e chegou à Estação Finlândia, em Petrogrado (São Petersburgo), em cima dos fatos, trabalhando-os, modificando-os e, enfim, conduzindo o imenso país à primeira revolução efetivamente socialista da história, em 1917. Catherine Merridale refez seu percurso (viajou de Zurique à Estação Finlândia) e, sobretudo, conta como esse intelectual culto e disciplinado entendeu a fragilidade da revolução liberal que se processava e pôde assumir o comando das ações, embora fosse desconhecido da maioria dos russos. Quase um estrangeiro — era pouco conhecido até pelos esquerdistas.

Entrevistada pelo “Diário de Notícias”, jornal de Portugal, Catherine Merridale, assinala que “a população” da Rússia “está muito interessada na história da Revolução, mas ainda não decidiu como fixará a história nacional. Percebe-se que é mais fácil falar de Stálin do que de Lênin. Stálin foi o líder nacional que criou a grande Rússia e Lênin um revolucionário que combateu por ideias que eram subversivas e perigosas, não se interessando pela criação de um império ou em ter um grande papel em nível internacional”. Os russos, portanto, “gostam mais de Stálin”.

Nem todos os russos gostam de Stálin, porém o líder que construiu a União Soviética, praticamente uma nova nação e um novo povo, permanece como um fato grandioso e incontornável. “Existe uma geração para quem Stálin era o representante do grande império russo que liderava o mundo”, afirma Catherine Merridale.

O livro de Catherine Merridale mostra um Lênin resoluto e desconhecido dos russos, mas que rapidamente tomou a dianteira do movimento político e organizou a revolução

Por que Lênin chegou e, de imediato, não foi combatido e, até, destruído? Catherine Merridale explica a razão: “Não sabiam bem quem ele era e mesmo o governo de então não o achava um grande perigo, apesar de saberem que era capaz de mobilizar. Acharam que o poderiam conter e não seria um problema”. Nem os principais líderes europeus, cujas nações haviam acolhido o revolucionário, perceberam naquele homem circunspecto o político que iria articular um regime capaz de convulsionar várias países e o mundo. Noutras palavras, fizeram o que é extremamente perigoso em política e na guerra: subestimaram o adversário, ou melhor, até por falta de informações, nem tinham como avaliá-lo com precisão. Os alemães deixaram Lênin passar sem lhe criar problemas (chegaram a sugerir que lhe deram dinheiro para, se chegasse ao poder, retirar a Rússia da guerra contra a Alemanha, o que, de fato, fez).

Durante a viagem de trem, da Suíça para a Rússia, Lênin, um intelectual que pensava rápido, foi reequacionando o que deveria fazer. “À partida estava muito focado sobre o que iria fazer, mas durante a viagem foi recolhendo informação e em Estocolmo atualizou-se bastante”, diz Catherine Merridale. Frise-se que Lênin estava viajando de trem, o tempo inteiro. “O discurso não era exatamente o que planeara, porque o governo provisório queria que o país se preparasse para a guerra e estava preocupado que a Alemanha invadisse a Rússia. Lênin não queria cooperação com a posição beligerante e essa não foi uma posição muito popular”, sublinha a professora de História Contemporânea no Queen Mary, Universidade de Londres. O líder e intelectual planejava chegar ao poder com o uso da violência e com o processo comandado por um partido de vanguarda, o Bolchevique.

Não há registro do discurso que Lênin fez na Estação Finlândia. Aí, como a multidão era muito grande, ninguém conseguia ouvi-lo direito. “Escutavam apenas partes do discurso e sabe-se que manifestavam surpresa, mas não existe uma cópia deste ou doutros discursos. O que sabemos é o que alguns ouviram”, conta a pesquisadora. “As palavras que proferiu eram chocantes e completamente novas. Estava a esforçar-se por convencê-los, isso era óbvio. Não regressava para se aliar a uma coligação nem esperava por belos discursos ou uma banda militar.” Lênin foi carregado nos braços, tanto espontaneamente quanto pela ação dos comunistas e seus aliados (eram várias as correntes socialistas, algumas delas não comunistas), pelo povão. Este levou o revolucionário até um blindado e, lá, ele mesmerizou a plateia. Liev Kamenev, mais tarde aliado de Stálin contra Trotski — e, em seguida, uma de suas vítimas —, disse sobre a fala de Lênin: “Nunca esquecerei aquele discurso veemente. Estou certo de que ninguém esperava uma intervenção assim”. Goste-se ou não do que fez, Lênin era a “voz da história”.

O entrevistador do “DN” diz que, ao parar em Berlim, não se sabe o que Lênin fez. Catherine Merridale admite que se trata de um ponto obscuro de sua biografia. É o único ponto não esclarecido. “De resto, quem viajou no comboio foi registrando os passos e, Radek por exemplo, publicou vários relatos num jornal americano.”

As ações de Lênin foram devidamente registradas, mas, sugere Catherine Merridale, “muito do que é relatado está errado e contém mentiras”. “Lênin” (Difel, 630 páginas, tradução de Eduardo Francisco Alves), do historiador britânico Robert Service, é uma biografia extremamente confiável.

O “DN” quer saber se, concluído o livro, Catherine Merridale mudou sua opinião sobre Lênin. “O que mais me assustou foi o fato de ser um homem muito sedutor e de as pessoas porem tudo de parte só para o ouvir.”

Os russos, notadamente a esquerda, mas não só — os demais líderes, inclusive os liberais, mostravam-se, senão inábeis, frágeis e desnorteados com a história mudando rapidamente, sob seus olhos —, buscavam um líder, quase um novo czar. O homem era Lênin, que não receava ser líder e queria mesmo o poder. “Era uma época de profundas mudanças e havia muita gente que queria participar na alteração. Lênin percebia-o e isso fazia dele o homem certo”, interpreta Catherine Merridale. O bolchevique “mudou o mundo”.

Ao lado da entrevista, o “Diário de Notícias” publicou uma resenha da obra de Catherine Merridale, assinada por João Céu e Silva, um dos comentaristas mais gabaritados de Portugal.

Lênin deixou Zurique em 9 de abril de 1917 e, em oito dias, dentro de trens, “preparou a revolução”. No livro, Catherine Merridale está em busca do “homem devorador e impiedoso”, mas também descobre que o líder bolchevique “gostava muito de música, de gatos e de crianças”. Lênin era mais multifacetado do que parte da crítica imagina? A historiadora avalia que sim. “Todos os Lênins são verdadeiros, porque era um ser humano e não uma construção geométrica perfeita. Um homem conduzido por ideias e bem diferente da geração atual de políticos. O verdadeiro Lênin sonhava 24 horas por dia sobre revolução, o que torna muito difícil entendê-lo em toda a dimensão”.

Um dos mais notáveis intelectuais americanos, Edmund Wilson, escreveu “Rumo à Estação Finlândia” (Com­panhia das Letras, 524 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto). Por mais que esteja desatualizado (o livro é da década de 1940; em plena era stalinista, não se tinha acesso aos arquivos soviéticos), aqui e ali, é um clássico do ensaísmo histórico e, como tal, não perdeu seu valor, não datou-se inteiramente. Assim como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” (Companhia das Letras, 504 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de John Reed, guarda certo frescor.

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