Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morte de Che Guevara eliminou rival político de Fidel Castro e deu um mártir a Cuba

General boliviano e pesquisadores sugerem que o ditador não queria o guerrilheiro comunista em Cuba e o abandonou para morrer na selva da Bolívia

Che Guevara e Fidel Castro: pressionado pelos soviéticos, que estavam incomodados com críticas do argentino, o cubano desistiu do companheiro da Revolução de 1959

Fidel Castro (1926-2016), Che Guevara (1928-1967) e Raúl Castro são a trindade socialista de Cuba. Eles foram decisivos para a Revolução de 1959 e para a consolidação da ideia de que o novo regime seria comunista. Porém, ao assenhorar-se de parte do poder, o comunista argentino acabou se tornando um incômodo. A saída foi transformá-lo em agente transnacional do “cubanismo”. Primeiro, no Con­go; depois, na Bolívia. No Congo, fracassou; na Bolívia, morreu. Há quem aponte que Fidel Castro não suportava mais os “excessos” e a “autonomia” do companheiro dos primeiros tempos de luta. No poder, é preciso administrar, obter resultados satisfatórios e, por isso, não dá para ficar discutindo tão-somente as “maravilhas” da “revolução”. Cuba havia ficado “pequena” para os dois, dotados de egos gigantes.

Mas Fidel Castro queria mesmo Che Guevara morto? Mandou-o para o Bolívia para que morresse e o deixasse em paz em Cuba? Há evidências de que o cubano não queria mesmo dividir o poder com o argentino. O exercício do comunismo, nos moldes soviético-cubano, praticamente exige o controle por um só homem. Então, um precisava sair e não havia espaço para um argentino controlar o país. Daí saiu o que não tinha o controle das Forças Armadas e não era cubano. A saída parece ter sido consensual. Não há, porém, evidências inquestionáveis de que Fidel Castro queria a morte do companheiro de jornada. A leitura do que vem a seguir deve ter em mente o que disse neste parágrafo, na linha anterior.

Na edição de 15 de junho deste ano, o jornal “ABC”, da Espanha, publicou uma reportagem, “Fidel Castro, o tirano que conspirou para ‘matar’ seu grande amigo Che Guevara”, de Manuel P. Villatoro.

Em 8 de outubro deste ano, completa-se 50 anos da morte de Che Guevara. O líder comunista foi capturado por uma equipe de militares bolivianos treinados pela CIA e por boinas verdes. Pouco depois, foi fuzilado, aos 39 anos. O objetivo era evitar que levasse a chama revolucionária para outros países. Era cortar o “mal” pela raiz. Manuel Villatoro menciona uma entrevista do general boliviano Gary Prado Salmón, de quase 80 anos, um dos principais responsáveis pela prisão do guerrilheiro, concedida à agência Efe. O militar reformado fala da “colaboração de Fidel Castro na captura e assassinato” de Che Guevara. A palavra “colaboração” não ganhou aspas, o que deixa a impressão de que a colaboração se deu direta e não indiretamente. “Mandaram o Che para morrer” na Bolívia, sustenta Gary Prado.

Expurgo do pária

O militar boliviano assegura que Fidel Castro “livrou-se” de Che Guevara ao enviá-lo à Bolívia para lutar por uma “causa perdida”. Fazer revolução no país, na década de 1960, equivalia quase a articular uma revolução na Lua: uma missão im­possível. Gary Prado não menciona suas fontes, mas sugere que Fidel Cas­tro praticamente “expurgou” o guerrilheiro porque “a cúpula do Partido Comunista já não tolerava seu caráter e suas maneiras impulsivas”.

No prólogo da nova edição do livro “A Guerrilha Imolada”, Gary Prado diz que vai apresentar pormenores do que disse na entrevista.

O “ABC” registra também as opiniões de Dariel Alarcón Ramírez, Benigno, companheiro de armas de Che Guevara. Numa entrevista ao jornal italiano “Corriere della Sera”, Dariel Alarcón disse que Fidel Castro “odiava” o guerrilheiro. “Sua morte se deve a uma maquinação de Fidel Castro e da União Soviética.” Ele sublinha que os comunistas soviéticos avaliavam Che Guevara “como perigoso para seus interesses” e, por isso, deram um ultimato ao ditador cubano. Entre Che Guevara e a salvação econômica, a União Soviética, Fidel Castro não hesitou um minuto: ficou com a razão. E transformou o argentino num revolucionário internacionalista; na verdade, um pária. Prendê-lo ou matá-lo repercutiria mal? É provável, mas não há documentação ou depoimentos definitivos a respeito.

A “amizade” entre Fidel Castro e Che Guevara teria acabado em 1965. Na Conferência Afro-asiática, em Argel, o guerrilheiro argentino fez críticas contundentes à União Soviética. O país de Lênin e Stálin foi acusado de “cúmplice da exploração colonial” (e, de alguma maneira, Cuba, ao menos até 1991, se tornou uma espécie de colônia dos soviéticos) e chegou a apontar “práticas imorais”. Ao ser informado do discurso, Fidel Castro, que “precisava de­sesperadamente do apoio econômico do governo soviético”, considerou-o como um tiro no pé. A partir daí, os comunistas cubanos marginalizaram-no de todas as decisões políticas e econômicas. Ele não falava mais por Cuba. Benigno disse que os líderes Fidel Castro e Raúl Castro praticamente o obrigaram a “sair de Cuba”.

Fidel Castro escreveu uma carta e entregou a Che Guevara. Ela só seria divulgada em caso de morte ou captura do guerrilheiro. No entanto, em 3 de outubro de 1965, o poderoso chefão cubano divulgou-a publicamente. Gary Prado diz que a “punhalada” foi uma “jogada de mestre” de Fidel Castro. A divulgação da carta foi uma forma de dizer a Che Guevara que as portas de Cuba estavam fechadas para ele. Benigno revelou que Che Guevara, ao saber que a carta havia se tornado pública, “teve um ataque de fúria”.

Mesmo assim, depois do fracasso da aventura no Congo, Che Guevara voltou “incógnito” a Cuba. Mas não oficialmente. Consta que o guerrilheiro não aceitava orientação de ninguém, mas certamente ouvia ao menos Fidel Castro — o único que poderia financiar qualquer foco guerrilheiro. Tanto que, ao deixar Cuba em novembro de 1966, teria recebido a promessa de que receberia apoio financeiro e até logístico do ditador.

Segundo Gary Prado, Fidel Castro “abandonou” Che Guevara e seus homens. Deixou-o lá para “morrer”, na interpretação do general. A cabeça do guerrilheiro estava a prêmio e ele não tinha como escapar, exceto se recebesse ajuda efetiva do governo cubano. Che Guevara dizia frequentemente: “Sem contatos com Manila”. Era como denominava Cuba. Estava isolado.

Sem apoio, Che Guevara e seus homens vagavam pela selva boliviana. “Era uma guerrilha sem sentido e debilitada”, afirma Gary Prado. O general sustenta que o grupo do revolucionário não tinha mais contato algum com Cuba. A informação lhe foi prestada por Humberto Vázquez Viaña, que era próximo de Che Guevara. Fidel Castro teria dado ordens aos “agentes que apoiavam os guerrilheiros” para que “desaparecessem do teatro das operações”. “A saída de cena de Ariel” — homem de Fidel e Raúl Castro na Bolívia — “foi outra instrução” de Cuba, afirma Gary Prado.

O “ABC” colheu outras opiniões que corroboram as informações de Gary Prado. O jornalista cubano Alberto Müller, numa entrevista de 2015, disse que Che Guevara foi “traído” e “abandonado” na Bolívia por Fidel Castro. “A posição do Che era contrária aos interesses de Fidel Castro. Ele se converteu num ‘pesteado’ para a Revolução Cubana, uma pedra no sapato”, afirma Alberto Müller. Como não havia mais espaço para ele em Cuba, optaram por deixá-lo morrer na Bolívia.

Alberto Müller sustenta que Che Guevara pretendia organizar a revolução na Argentina, mas os cubanos impuseram a Bolívia. “Apesar de que”, nesse país, “não havia condições para” o desenvolvimento de uma “guerrilha”. Portanto, os cubanos queriam mesmo descartá-lo de vez.

Os “rangers” bolivianos, treinados por boinas verdes americanos, não tiveram dificuldade para atacar o grupo de Che Guevara e capturá-lo. “Não disparem. Eu sou Che Guevara. Valho mais vivo do que morto”, clamou o guerrilheiro.

Gary Prado assinala que, “no momento de sua captura”, Che Guevara “era um homem derrotado, que tinha consciência do fim de seus sonhos. Estava desmoralizado”. Depois, como foi bem tratado pelos militares, bebeu água e café e fumou cigarros, ficou mais tranquilo e, segundo o general, “começou a sentir alguma esperança” e decidiu conversar.

O agente da CIA Félix Rodríguez e o prisioneiro Che Guevara, há 50 anos

Che Guevara pode ter ficado mais tranquilo porque Gary Prado informou-o de que seria “julgado”. O guerrilheiro, na verdade, foi entregue ao agente da CIA Félix Ismael Rodríguez. Este recebeu uma mensagem ordenando que executasse o prisioneiro.

Alberto Müller sugere que “Fidel Castro poderia ter evitado a morte” de Che Guevara, “mas preferiu que morresse. Perdia um inimigo político e ganhava um mártir”. É provável que o ditador cubano não se interessasse mesmo em salvar o guerrilheiro. Mas como poderia salvá-lo? Como poderia negociar com militares, agentes e políticos bolivianos e americanos? Alberto Müller não explica. Por quê? Porque, provavelmente, dirigentes de Cuba não tinham como evitar a morte do parceiro de revolução. Mas, de fato, Cuba e Fidel ganharam um mártir que, habilmente, transformaram em símbolo do país e, até, universal.

Morto, Che Guevara se tornou um ícone transnacional, tão celebrado quanto os Rolling Stones, os Beatles, a atriz Marilyn Monroe e, mais recentemente, a pintora Frida Kahlo. Ganhou uma aura romântica, quando, na verdade, era um realista extremado, um político duríssimo.

Seu melhor biógrafo permanece sendo Jon Lee Anderson. O jornalista americano sublinha que Che Guevara era “egocêntrico e arrogante. Era soberbo e muito severo com os demais”. Quando avaliava que era necessário, matava sem a mínima piedade.

Félix Rodríguez relata que uma mulher lhe contou que seu filho de 15 anos havia sido condenado à morte por criticar o governo de Fidel Castro. “Ela conseguiu uma audiência com Che e lhe implorou que deixasse seu filho viver. Era uma sexta-feira e a execução estava prevista para segunda. Quando Che perguntou o nome do rapaz, a mãe acreditou ter conseguido salvar a vida do filho. Ele girou a cabeça e, dirigindo-se a seus soldados, gritou: ‘Fuzilem o filho desta senhora hoje mesmo para que ela não tenha que esperar até segunda-feira’.”

Autor do livro “O Rosto Oculto do Che”, o jornalista cubano Jacobo Machover conta que, certa vez, Che Guevara foi nomeado para dirigir uma “comissão purificadora” de uma prisão de Havana, a Fortaleza de la Cabaña. Ao menos 180 pessoas foram executadas sob a supervisão direta do líder comunista. O advogado cubano José Vilasuso confirma a informação: “Os fatos eram julgados sem nenhuma consideração dos princípios de justiça”. Dariel Alarcón corrobora: “Che subia num muro e, deitado de costas, observava as execuções enquanto fumava um charuto”.

O escritor americano Lawrence Osborne avalia que certos discursos de Che Guevara o aproximam do fascismo. “O incontrolável ódio ao inimigo nos impulsiona e nos transforma em máquinas de matar efetivas, frias e seletivas”, disse num pronunciamento.

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Pergunto se a geração dos meus netos manterão o MITO.

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