Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre a jornalista que deu o furo do início da Segunda Guerra Mundial na Polônia

Enviada para a Polônia para cobrir outro assunto, Clare Hollingworth percebeu que os alemães iriam invadir o país e deu a notícia em primeira mão

Ribbentrop, Stálin e Molotov: a aliança entre o ditador soviético e o ditador Adolf Hitler foi decisiva para a invasão da Polônia, em 1939

Os historiadores A. J. P. Taylor (pioneiro), Ian Kershaw, Andrew Roberts, Richard Evans, Antony Beevor e Richard Overy demonstraram que Adolf Hitler era um estrategista extremamente hábil, porém, como derrotado e, sobretudo, como um estadista totalitário, acabou por ser visto como incapaz e, até, “maluco”. Seus méritos militares são obscurecidos porque avaliados a partir da debacle, quando, para não ser capturado pelos soviéticos, se suicidou. O ditador nazista sabia que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) era praticamente inevitável, dada a expansão imperialista da Alemanha, em busca do que chamava de espaço vital, mas é provável que não a quisesse já em 1939, quando as forças armadas ainda estavam sendo preparadas e a economia do país estava em franca recuperação.

Como estava preparando a Alemanha para a guerra, ainda que para mais tarde, Hitler fez um acordo com Ióssif Stálin, o poderoso chefão da União Soviética, em agosto de 1939. Os dois países não se atacariam, pois, em tese, os inimigos de ambos eram a Inglaterra e França, na Europa, e, quiçá, os Estados Unidos, na América. Pode-se condenar moralmente a tática de Hitler e Stálin, aliados improváveis a longo prazo, mas, em termos geopolíticos, não era equivocada. Ao neutralizar Stálin, no caso de guerra, Hitler evitava que ingleses e franceses pudessem contar com um aliado forte (política e economicamente) no Leste Europeu. Ao abrir diálogo com Hitler, Stálin enviava um recado aos seus adversários europeus: estava disposto a qualquer aliança para manter a União Soviética em processo de expansão.

Em setembro de 1939, com a União Soviética como aliada, Hitler invadiu a Polônia. Prontamente, Stálin apoiou a invasão e, para contentá-lo, o líder nazista repartiu parte do país com os comunistas. Os Aliados, que ainda nem podiam ser totalmente chamados de Aliados, foram pegos com as calças do apaziguamento nas mãos. Ninguém era néscio para não perceber que Hitler não iria à guerra, mas esperava-se que não fosse tão rapidamente. Inglaterra e França, que temiam o poderio de Hitler, mostraram fragilidade, aliás desde 1938, e o austríaco entendeu que podia avançar.

Invadida a Polônia, a guerra estava de volta à Europa. França e Inglaterra se aliaram, não para defender a Polônia, o que não fizeram, e sim para se protegerem, porque sabiam — ao menos Winston Churchill, expert em história, sabia — que Hitler queria dominar toda a Europa, tornando-a serva do crescimento da economia da Alemanha.

Em pouco tempo, Hitler dominou quase toda a Europa. A França caiu como um patinho. Um verdadeiro passeio da Alemanha. A “ocupação” da Europa — menos da Inglaterra, que resistiu, graças, em parte, à energia vital de Churchill (e a certa hesitação do nazista-chefe) —, de tão rápida, encorajou Hitler a cometer um de seus primeiros desatinos, se se pode dizer assim.

Em 1941, quando deveria ter concentrado suas forças na Europa, notadamente derrotando a Inglaterra, o país que lhe oferecia a maior resistência e o único que poderia atrair os Estados Unidos para a Guerra, Hitler “imitou” Napoleão Bonaparte (1769-1821) e invadiu a União Soviética. Ali, ante a resistência feroz e letal dos comunistas — Stálin mandava fuzilar quem recuava no campo de batalha —, os alemães descobriram o que, em termos de guerra, pode ser chamado de areia movediça. A rigor, os ingleses foram os primeiros a provar que se podia resistir a Hitler. Mas a União Soviética, a velha Rússia, resistiu bravamente e impôs derrotas sangrentas aos nazistas. Os britânicos resistiram bravamente, mas não derrotaram Hitler, ao menos nos primeiros anos da batalha. Os soviéticos foram os primeiros, muito antes da aliança entre ingleses, franceses e americanos (pós-Pearl Harbor), a vencer os alemães. A custo de vidas altíssimo, é claro.

Pode-se dizer que, por um erro tático (derivado de uma estratégia definida bem antes da guerra: a União Soviética era vista como “a” inimiga, e a Inglaterra era sugerida como possível parceira, depois da luta), Hitler é um dos principais responsáveis por sua derrota. Pouco conectado ao Japão, apesar de que eram aliados, o nazista não quis ou não pôde impedir o ataque a Pearl Harbor, em 1941, o que atraiu, de vez, os Estados Unidos para a batalha “europeia”.

O resultado todos sabem: os Aliados, inclusive com a participação de 25 mil brasileiros, que lutaram corajosamente na Itália, venceram a Alemanha nazista e Hitler se matou.

Clare Hollingworth, a jornalista que deu o furo do início da Segunda Guerra Mundial

Furo internacional

Na terça-feira, 10, morreu a jornalista britânica, de 105 anos, em Hong Kong. Ela se tornou uma celebridade internacional ao revelar, entre agosto e setembro de 1939, o início da Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Polônia pelas tropas da Alemanha Nazista.

Enviada pelo jornal “The Daily Telegraph” para Kotowice, na Polônia, em agosto de 1939, com o objetivo de produzir reportagens sobre “refugiados, cegos, surdos e doentes mentais”. Mas, provando que era uma jornalista de primeira linha, percebeu a grande movimentação de tanques, carros e tropas alemãs na fronteira com a Polônia. Sacou que havia algo errado e que se tratava de um movimento de ataque, não de treinamento, e escreveu: “Mil tanques escondidos na fronteira com a Polônia. Dez divisões a postos para atacar”.

Clare Hollingworth, como uma repórter privilegiada, na época com 27 anos, entendeu que não basta ter uma boa informação; igualmente relevante é o que se faz com ela. Então, antes de repórteres de outros países, inclusive da própria Polônia, deu o furo global. No dia 1º de setembro de 1939, quando começou a invasão, ela ligou para um amigo, que estava na Embaixada Britânica, e disse, chorando: “A guerra começou”. O amigo perguntou se tinha certeza e ela pôs o telefone na janela para captar o barulho dos bombardeios.

Mais tarde, Clare Hollingworth cobriu guerra nos Balcãs, no Norte da África, na guerra civil na Grécia e na Argélia, no Vietnã e as batalhas entre israelenses e árabes. “Tenho de admitir que gosto de estar numa guerra”, revelou ao “Telegraph”, em 2011, ao comemorar 100 anos.

Os pais de Clare Hollingworth não queriam que fizesse jornalismo. “A minha mãe achava o jornalismo uma profissão muito baixa e não acreditava em nada que os jornalistas escreviam”, conta. Mas ela insistiu e fez faculdade, em Londres.

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