Euler de França Belém
Euler de França Belém

Mídia divulga tanto a delação da Odebrecht que banaliza a denúncia e cansa o leitor-telespectador

Lava Jato democratiza o país ao inserir, de vez, políticos do PSDB como artífices da corrupção sistêmica. Responsabilidade pelo descalabro não é só do PT, do PMDB e do PP

É inescapável: a missão da mídia é divulgar os fatos mais candentes — sem tirar nem pôr. Portanto, ao divulgar de maneira massiva as gravações das delações dos executivos (ou ex) da Odebrecht, não cometeu nenhum deslize jornalístico ou ético.

O problema é outro: a divulgação repetitiva, feita de forma intensa, cansa os telespectadores e os leitores. Sobretudo porque, a partir de certo momento, não se apresenta nada de novo e fica-se divulgando a mesma coisa. O resultado é que as denúncias, mesmo fundamentais para a reinvenção institucional do país, são banalizadas e acabam perdendo energia. As pessoas se desinteressam e, por vezes, nem mesmo compreendem a gravidade de certos fatos e, igualmente, não entendem direito a situação dos denunciantes e denunciados. O fato de ser mencionado pelos delatores não resulta que o “denunciado” é culpado e que merece a caracterização, desde já, de corrupto.

A Globo e, sobretudo, a Globo News divulgaram os fatos — às vezes simulacros de fatos — de maneira exaustiva. A Globo News ao menos tentou analisá-los, dando contextos e nuances. Mas, apesar da competência de seus analistas, fica-se com a impressão (e talvez seja mera impressão) de certa histeria — com todos querendo falar ao mesmo tempo. Dony de Nuccio e a excelente Renata Lo Prete às vezes parecem metralhadoras giratórias, encavalando palavras e ideias. Mas isto não invalidade a cobertura dos repórteres e analistas, que, na medida do possível, tenta ouvir todos os implicados. O “Jornal Nacional”, com William Bonner e Renata Vasconcellos, procuram apresentar a denúncia e o contraditório de maneira rigorosa — até irritante àqueles que só querem ouvir as críticas.

O jornalista tem, como qualquer cidadão, direito a indignar-se com a corrupção e a criminalidade. Não se trata de um ser frio, à parte, uma ilha. É um ser humano. Mas precisa conter a histeria, posicionando-se de maneira um pouco mais objetiva, para não contribuir para produzir histeria coletiva. Advogados têm sido execrados, como se fossem quase-criminosos, mas não existe democracia sem advogados e todos, inclusive os criminosos mais cruéis, têm o direito de contar com um para se defender — para expor o contraditório (a realidade é sempre mais “turva” do que “clara”). O advogado é como o psicanalista: se ficar fazendo julgamento moral, avaliando que a pessoa não tem o direito se defender, de uma forma ou de outra, tem de trocar de profissão. Nos momentos de histeria, em que todos querem condenar os políticos à forca, a serenidade dos advogados, que devem ser convidados para o debate, é salutar.

Uma coisa positiva das delações é a inserção definitiva do tucanato no rol dos denunciados. A contaminação é generalizada e não se pode responsabilizar apenas o PT, o PMDB e o PP por todos os descalabros da política patropi. A Lava Jato agora “democratiza” o país, em termos de denúncia.

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