Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ievtuchenko usou sua poesia, de matiz populista, como crítica radical do stalinismo

Poeta populista, Ievtuchenko era capaz de lotar estádios com 100 mil pessoas

Reprodução

Ievguêni Ievtuchenko, o mais popular dos poetas da Rússia, morreu no dia 1º, sábado, nos Estados Unidos, aos 84 anos. As pessoas — mais de 100 mil — se reuniam em estádios para ouvi-lo declamar seus poemas. No Brasil, ganhou traduções de Haroldo de Campos, Boris Schnaiderman e Lauro Machado Coelho. Na apresentação de seus poemas, no livro “Poesia Russa Moderna” (Brasiliense, 292 páginas, tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman), o mestre Schnaiderman escreve: “Sua obra caracteriza-se pela retomada de um estilo direto e coloquial, em que se percebem as marcas de Khlébnikov, Maiakóvski, Iessiênin e Pasternak. Mas, ao mesmo tempo, é um arrojo que não ultrapassa nem pretende ultrapassar determinados limites. Poesia de tribuno, não isenta de certa retórica, tem exercito uma função importante na vida literária soviética” (o livro é de 1985). Uma síntese perfeita. O poeta era populista e agradava tanto os leitores que, certamente, não sentiu necessidade de avançar, de ousar.

Lauro Machado Coelho, ao apresentá-lo no livro “Poesia “Soviética” (Algol, 654 páginas) assinala: “Seus corajosos ataques à burocracia soviética, ao legado de Stálin e a temas tabus como o antissemitismo tornaram Ievguêni Aleksándrovitch Ievtuchenko muito conhecido no Ocidente. Mas ele é também o autor de uma poesia lírica e romântica. (…) Seu primeiro poema importante, ‘Stántsia Zimá’, publicado em 1956, causou grande impacto nos anos do Degelo. Em 1961, ‘Bábi Iár’, sobre um massacre de judeus em setembro de 1941, tocou o dedo numa ferida muito sensível na política soviética. Muito lido no exterior, usado por Dmítri Shostakovitch como o primeiro movimento de sua Sinfonia nº 13, o poema só foi publicado pela editora estatal em 1984. No mesmo ano de ‘Bábi Iár’, o ‘Pravda’ estampou ‘Os herdeiros de Stálin’, como parte da campanha de Kruchev de denúncia dos crimes do antigo ditador. Mas a celeuma provocada por essa denúncia da persistência do stalinismo fez com que ele só fosse editado, oficialmente, durante o governo de Mikhail Gorbachev”. Ele defendeu o poeta e crítico Iósif Bródski e o escritor Aleksandr Soljenítsin (“O Arquipélago Gulag”).

Transcrevemos dois poetas de Ievtuchenko: “Bábi Iár” e “Os herdeiros de Stálin”.

Bábi Iár¹

Ievguêni Ievtuchenko

Em Bábi Iár não há monumento.

Uma rocha escarpada, apenas, como a lápide mais rude.

Tenho medo.

Hoje, sinto-me tão velho

Quando todo o povo judeu.

Vejo-me como um antigo israelita.

Perambulo pelas estradas do antigo Egito

E, na cruz, morro torturado:

Até hoje carrego na mãos a marca dos pregos.

Parece que eu sou o próprio Dreyfus.

Os filisteus me traíram — e agora, me julgam.

Estou em uma gaiola. Cercado, numa armadilha,

Perseguido, cospem em mim, me caluniam,

As beldades dão risadinhas histéricas enquanto

Espetam o meu rosto com a ponta de suas sombrinhas de Bruxelas.

Vejo-me como um menino de Bielostók.

O sangue espirra, corre pelo chão,

O dono da taverna esbraveja comigo

E cheira a cebola e vodca misturadas.

Sou chutado por uma bota, já não tenho mais forças,

Em vão suplico à multidão que me persegue

E grita, escarninha “Matem os judeus e salvem a Mãe Rússia!”

Um clérigo está espancando a minha mãe.

Ó, Rússia do meu coração, sei que és

Internacionalista por natureza.

Mas quantas vezes aqueles cujas mãos estão emporcalhadas

Abusaram de teu puro nome, em nome do ódio.

Sei como é boa a minha terra natal.

Como são sórdidos, sem o menor escrúpulo,

Os antissemitas se proclamarem

Sinto-me como se eu fosse Anne Frank,

Transparente como mais frágil ramo em April,

E estou apaixonado e não preciso de palavras,

Apenas de que olhemos para os olhos um do outro.

Quão pouco podemos ver ou sentir!

As folhas são proibidas, o céu também,

Mas algumas coisas ainda são permitidas — suavemente,

Em quartos na penumbra, abraçarmos um ao outro.

“Eles estão vindo!”

“Não, não tema — estes são os próprios

sons da primavera. Ela vai chegar logo.

Depressa, os teus lábios!”

“Estão arrombando a porta!”

“Não, é o gelo quebrando o rio…”

Relva brava cresce em Bábi Iár,

As árvores erguem-se severas como juízes.

Aqui, em silêncio, como o chapéu na mão, ouvindo esses gritos,

Sinto o meu cabelo embranquecendo.

Eu próprio, como um longo grito silencioso,

Acima dos milhares e milhares de enterrados aqui,

Sou cada um dos velhos executados neste lugar.

Nenhuma fibra de meu corpo há de se esquecer disso.

Que a “Internacional” troveje e ressoe

Quando, para sempre, for enterrado e esquecido

O último dos antissemitas desta terra.

Não há uma só gota de sangue judeu nas minhas veias,

Mas odeio-os com uma paixão tão corrosiva

Que, para os antissemitas, sou como um judeu.

E é por isso que posso chamar-me de um russo verdadeiro!

¹Tradução (direta do russo) de Lauro Machado Coelho. Nota do tradutor: “Bábi Iár é o nome da ravina, na Ucrânia, onde houve um grande massacre de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Alfred Dreufys era o oficial do Exército francês, de origem judaica, injustamente acusado de traição, em 1894, devido ao anti-semitismo. Bielostók foi o local do primeiro e mais violento dos progromim (perseguição aos judeus). A adolescente judia holandesa Anne Frank deixou um diário famoso, em que descreve o quotidiano de uma família obrigada a esconder-se: presa, ela morreu num campo de concentração”.

Os herdeiros de Stálin

Ievguêni Ievtuchenko

O mármore se cala.

Calado o cristal reverbera.

As sentinelas caladas

bronzeiam-se contra o céu.

Um sopro exala das frestas:

o ataúde fumega

quando o carregam

fora do mausoléu.

Lento o caixão navega

Aflorando as baionetas.

Ele também se calava —

também!

silêncio sinistro.

Punhos embalsamados,

de dentro,

por uma greta,

fingindo-se de morto,

ele punha o olho fixo.

Queria lembrar-se bem

dos portadores da escolta:

recrutas

de Riazan e de Kursk,

para depois,

cobrando forças,

cair sobre os temerários,

ressurreto do ataúde.

Alguma coisa ele maquina,

em decúbito,

como quem repousa.

E eu apelo aos Poderes do Estado:

“Dobrem,

tresdobrem

A guarda dessa lousa.

Que Stálin não se restaure,

e com Stálin o passado.

Não me refiro ao passado

grandioso,

de glória:

da Turksib¹,

da Magnitka²,

e da bandeira em Berlim.

Aquele que toca a mim

denunciar agora,

é o passado do povo em descaso,

das intrigas,

dos réus sem crime.

Honestos semeamos a seara.

Fundimos o ferro.

Honestos

Formamos fileiras de soldados.

Mas ele nos temia,

e foi seu erro:

crendo no grande alvo

não acreditara

nos meios justos de alcançá-lo.

Ele era precavido,

Perito nas manhas do combate.

Deixou-nos pelo globo

herdeiros de sobra.

Veja:

de um telefone instalado na lápide,

Stálin

instrui Enver Hodja.

Até onde vai

Esse fio funéreo?

Stálin não desiste.

Não toma a morte a sério.

Fora do Mausoléu

agora

ele está sim,

mas como arrancá-lo

dos herdeiros de Stálin?

Alguns cultivam rosas em seus retiros,

em sigilo almejando

que o olvido chegue a termo.

Outros

Injuriam Stálin nos comícios,

mas à calada

acalentam

a volta aos velhos tempos.

O enfarte,

é claro,

Apavora esses herdeiros.

Eles,

os ex-vassalos,

Estão inquietos:

não gostam desta era

de campos sem prisioneiros

e poetas a declamar

para salas repletas.

O Partido

me ordena

que eu não cale mas fale.

E mesmo que alguns repitam:

“Deixe disto!”,

eu insisto.

Enquanto neste mundo houver herdeiros de Stálin,

para mim,

no Mausoléu,

Stálin ainda resiste.

[Tradução do russo por Haroldo de Campos]

¹ Sigla da estrada de ferro Turquestão-Sibéria (“Turkestan” e “Sibir”).

² Diminutivo carinhoso de Magnitogorsk, a cidade surgida nos Urais durante a execução do Primeiro Plano Quinquenal, como grande centro siderúrgico.

O poema é de 1962.

Deixe um comentário

wpDiscuz