Euler de França Belém
Euler de França Belém

A história do jovem que parecia assaltante mas só queria um salgado e um refrigerante

Na Praça Tamandaré, enquanto eu lia jornais, um jovem aproxima-se. Pensei que iria roubar minha cochila, mas ele me disse que estava faminto

No sábado, 7, depois de fechar a edição impressa e escrever notas exclusivas para a internet, peguei minha mochila e fui para a Praça Tamandaré, onde compro as edições do “Estadão” e da “Folha de S. Paulo” (sou assinante dos dois na internet, mas aprecio ler, notadamente no sábado, a edição impressa) e a edição de sexta-feira do “Valor Econômico”, na banca do Wolber Felix.

Enquanto esperava Candice Marques de Lima, minha mulher, sentei-me num banco colocado por taxistas na Tamandaré, nas proximidades do Biscoito Pereira. Estava lendo uma reportagem sobre José Serra — a respeito do dinheiro que a Odebrecht depositou na Suíça na conta do banqueiro Ronaldo Cézar Coelho — quando, abordado por um jovem, levei um susto. Era um jovem branco, maltrapilho, com ferimentos leves no braço direito. Pensei, de cara: vai me assaltar. Ele e eu olhamos para minha esquálida mochila (é provável que tenha pensado que eu imaginava que iria me assaltar). Mas não: o homem, de uns 25 anos, olhou para mim e, depois de alguns segundos, disse que estava com fome. “O sr. pode me pagar um salgado?” Eu disse que sim. “Pode ser daqui [de um quiosque] ou dali [do Biscoito Pereira]. É só o que peço, um salgado”.

Coloquei a mochila nas costas, talvez com receio de ser assaltado, e dirigi-me para o quiosque, acompanhado do jovem. No banco, deixei os jornais, um filme sobre Emiliano Zapata (com Marlon Brando) e o romance “O Grande Incêndio”, de Shirley Hazzard. O jovem alertou-me: “E os livros?” Eu disse, agora mais tranquilo: “Não tem problema; pode deixar lá” (há ladrões de celulares, computadores, mas raramente alguém rouba livros). No quiosque, dois jovens, desconfiados, nos atenderam. Uma garota magra e de cabelos tingidos deu-nos os preços dos salgados e perguntou se queríamos coxinha ou outra coisa. O jovem, que finalmente revelou o prenome, Carlos, inquiriu-me a respeito de um refrigerante. Paguei o salgado e o refrigerante e voltei a sentar-me no banco.

Comecei a ler uma reportagem do “Caderno 2” de “O Estado de S. Paulo”. Carlos reapareceu e pensei que iria pedir mais alguma coisa. Não pediu. Disse apenas: “Obrigado”. Deu-me a mão, a qual apertou levemente e saiu.

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