Euler de França Belém
Euler de França Belém

Harold Bloom contesta tese de Camille Paglia de que Emily Dickinson manteve caso de amor com cunhada

Crítico sugere que a mais importante poeta americana apaixonou-se por dois homens. Biógrafo arrola mais um terceiro. Ela escreveu: “Afastar o combustível da paixão não é a maneira de afastar a paixão”

Emily Dickinson, poeta americana que viveu 55 anos entre 1830 e 1886, escreveu num poema: “A Verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los” | Divulgação

“Além das Palavras” (“A Quiet Passion”), de Terence Davies, com Cynthia Nixon, Jennifer Ehle e Jodhi May, é um filme de qualidade. A ressalva é que a vida de uma poeta tão rica, culta e complexa como Emily Dickinson (1830-1886) não cabe em duas horas e cinco minutos (observe-se que Carlo, o amado cachorro da poeta, não é mostrado nem de relance).

Condensar a vida, excluindo a poesia (o que é impossível), é menos complicado (corre-se o risco de imaginar uma criadora tão significativa somente como quase-histérica). Mas sintetizar sua poesia, a vida do espírito, é praticamente impossível, dada sua amplitude (o biógrafo Richard B. Sewall precisou de 821 páginas para tentar explicá-la no livro “The Life of Emily Dickinson”, Harvard Univer­sity Press). Este texto não comenta o filme — útil para divulgar a arte da americana que publicou apenas dez poemas em vida (escreveu mais de 1800; Adalberto Müller anuncia que vai traduzi-los integralmente) —, e sim apenas o capítulo “Amigos: instantes de êxtase”, de 21 páginas, do livro “Mistério e Solidão — A Vida e a Obra de Emily Dickinson” (Lidador, 283 páginas, tradução de Vera das Neves Pedroso), de Thomas H. Johnson.

O “mundo dos amigos” era visto como propriedade de Emily Di­ckinson. “Era aquele em que se sentia menos segura (mas também era nele “que vivia com mais intensidade”), pois tinha medo de perdê-lo, de ficar sem os amigos, fosse por indiferença, fosse — mais repetidamente — pela morte”, assinala o biógrafo. Ao coronel Thomas Wentworth Higginson, espécie de seu mentor (quase não era acatado), a poeta escreveu: “Talvez a morte me tenha dado medo pelos amigos — ceifando cruelmente e cedo, pois desde então tenho tido por eles um amor quebradiço — de mais alarma do que paz”. Ao jornalista Samuel Bowles disse, numa carta: “Meus amigos são a minha ‘propriedade’. Perdoe-me, pois, a avareza com que os acumulo”.

“A intensidade da sua emoção com relação à amizade atingiu a um ponto tal que ela passou a evitar contatos diretos, chegando a fugir para lhes escapar. A princípio, evitava apenas os conhecidos, mas gradualmente foi fugindo também dos amigos”, anota Johnson. “Posso vadear a dor/mas o mais leve empurrão da alegria/Parte-me os pés, e cambaleio, ébria”, escreveu. Numa carta para Bowles, que estava no exterior, disse: “Volte, por favor! Os anos desta vida são escassos e voam, diz a Bíblia, como uma história já contada. Poupá-los parece algo solene — e eu agarro firmemente com os dedos tudo o que possuo e está longe da minha vista, a fim de o trazer para mais perto”. Noutra carta: “Digo-lhe, sr. Bowles, que é um sofrimento ter um mar — não importa quão azul — entre nós e a nossa alma”. Entretanto, ao retornar à cidade de Amherst, em 1862, o jornalista foi recebido com um bilhete não muito amigável: “Caro amigo, não posso vê-lo. Certamente, não vai acreditar em mim. Voltar para nós vivo é melhor do que um verão e ouvir a sua voz embaixo é melhor do que receber notícias de uma ave”. E continuou a correspondência: “Os profetas nunca têm fama nas suas cidades. O que nós sabemos podemos suportar que os outros duvidem, até que a sua fé se firme. (…) Algumas frases são demasiado belas para desbotarem e a luz só faz afirmá-las. (…) A nossa pobreza dá-nos direito — e os amigos são nações — de expropriar a terra”.

As cartas de Emily Dickinson, sublinha o crítico Harold Bloom, um de seus entusiastas, são poemas em prosa. Johnson relata que uma vez, como a poeta resistia a descer para vê-lo, Bowles gritou: “Emily, sua sem-vergonha danada, pare com essa idiotice! Viajei de Springfielg até aqui só para vê-la. Desça imediatamente!” Ela teria descido e a conversa teria sido “brilhante”. Explicou-se a Higginson: “Para se obter encantamento, é preciso fugir sempre”. Mais: “Os problemas são incomensuráveis — por isso são melhores que as realizações, que podem ser esgotadas”.

O diálogo com os amigos era, para Emily Dickinson, “uma experiência oculta”. À amiga Holland, enviou uma carta-poema: “A natureza o sol/Isso é Astronomia./A Natureza não pode predestinar um amigo/Isso é Astrologia”. Num poema, versa sobre a amizade: “Amigos são dor ou ventura?/Durasse sua fartura,/A riqueza era boa.//Se eles, porém, só se demoram/Cobrando força p’ro voo —/A riqueza é agrura.” A tradução é de Aíla de Oliveira Gomes (“Uma Centena de Poemas”, de Emily Dickinson, T. A. Queiroz, Editor, 245 páginas).
Num poema de 1862, no seu estilo enviesado, frisa que “a intensidade da espera” pode levar ao pânico: “Acho que a mais longa hora./É quando os carros já chegaram/E esperamos a carruagem./Parece como se o tempo,//Indignado por uma alegria que chegou,/Os ponteiros dourados parasse/E não deixasse os segundos passar./Mas o instante mais demorado termina.//O pêndulo começar a contar,/Como pequenos escolares, ruidoso./Os passos aproximam-se no hall/E o coração começa a se apertar./Então eu — meu tímido serviço concluído,/Embora ele fosse um serviço de amor,/Pego no meu pequeno violino/E para o Norte vou.”

Ao se tornar reclusa, vestindo-se a partir de certo momento só com roupas brancas, Emily Dickinson estaria “fugindo” da vida, do que se entende por vida real? Johnson discorda: “Ela não se estava retraindo da vida, e sim vivendo-a com uma exuberância que poucas pessoas experimentam”. O francês Marcel Proust aproxima-se, de certa forma, da poeta.

Para Emily Dickinson, tudo era motivo de poesia — a dor, a morte, a amizade. “São os amigos prazer ou sofrimento?”, pergunta a poeta. “A vida para mim é êxtase — sentir-me viver é já alegria bastante.” Depois de visitá-la, Higginson escreveu para sua mulher: “Perguntei-lhe se nunca se sentia entediada, sem sair de casa ou receber visitas. ‘Nunca pensei que isso fosse algo de que eu tivesse de sentir falta’ (e acrescentou): ‘Sinto que não me expressei com suficiente força’. Nunca estive com alguém que de tal maneira exaurisse a minha energia nervosa. Ainda bem que não vivo perto dela!”

Na ausência de contato físico, Emily Dickinson escrevia cartas-poemas intensos. As cartas eram, de algum modo, uma maneira de testar sua arte poética, de se forçar à expressão de sua criatividade. Em 1869, escreveu a Higginson: “Uma carta sempre me dá uma sensação de imortalidade, porque revela apenas o espírito e não o corpo do amigo que escreve.

Endividados, quando falamos, à atitude e ao tom de voz, parece haver no pensamento um poder espectral, que se basta a si próprio”. Leia uma tradução de José Lira (“Alguns Poemas”, de Emily Dickinson, Iluminuras, 319 páginas): “É assim que leio uma carta/fecho a porta do quarto e me asseguro/que está trancada/para que não me fuja/a excitação/aí me afasto da porta/para não ser surpreendida/se alguém bater/aí olho as paredes olho o chão apreensiva/com medo que sei lá/a alma de um rato/esteja à espreita/e devagar e com cuidado/eu abro a carta//E aí leio que sou/tudo no mundo/para alguém/nem queira saber/quem é//fico suspirando pelo Céu/mas outro Céu não o Céu/que Deus dará”.

Num poema, para uma carta que aparentemente não enviou, “explica” sua reticência ao contato físico: “Nada direi, se, por fim,/Aqueles que eu amei/Puderem compreender/Por que os evitei./Dizê-lo aliviar-me-ia o coração/Mas destruiria o deles./Katie, voz não falta à traição,/Mas a minha dissolve-se em pranto.” Katie é Catherine Scott Anthon.

Numa carta a J. K. Chickering, que queria visitá-la, Emily Dickinson alarmou-se, digamos: “Caro amigo, tinha esperado poder vê-lo, mas não consigo conversar, e as minhas próprias palavras gelam-me e queimam-me de maneira tal que a temperatura de outras mentes é para mim pânico demais”. Incluiu um poema: “Fu­gimos antes de que venha,/Temendo a alegria,/Depois, fazemos que demore/E, para que não voe,/Enredamo-lo mais e mais.//Não será tudo isto,/Velho céu cortejador,/Igual ao nosso medo a ti?” Johnson sugere que a poeta fugia de “encontros com amigos de um passado já sem presente”.

Poesia dramática

Johnson percebe tanto Emily quanto sua poesia como dramáticas. E menciona uma poesia de 1863: “A mais vital expressão do drama/é o dia comum/Que se levanta e se põe à nossa volta”. Poema sobre a fé (a poeta tinha uma relação especial com Deus, quiçá poética, mas não era religiosa), com tradução de Idelma Ribeiro de Faria: “Mais grave é perde a fé/Do que os bens materiais;/Podemos os bens ser recompostos,/A fé, contudo, jamais.//É herança recebida/Com a vida e uma vez somente;/A anulação de uma cláusula/Fará do herdeiro um indigente”.
Em 1881, as irmãs Lavinia e Emily Dickinson receberam a visita da pianista Mabel Loomis Todd. Ela recebeu cartas e poemas de Emily Dickinson, mas não se viram mais. “Prefiro recordar um pôr do sol a possuir um sol nascente”, escreveu, na década de 1870, a poeta. “Porque na partida existe um drama/Que a permanência nunca pode dar.”

Johnson sugere que Emily Dickinson “só via aqueles que queria ver. Conversava-se por meio de máximas. Vestia-se sempre de branco. Sempre acessível às crianças, o seu coração e a lata de biscoitos estavam sempre abertos para elas. A sua reclusão era assegurada pela cooperação da irmã e da sua fiel criada irlandesa. Organizava a sua rotina cotidiana de maneira a poder viver e pensar e expressar os seus pensamentos à sua vontade. A sua vida, como a sua arte, era planejada com a máxima economia”.

Otis Phillips Lord: ao ficar viúvo, o juiz quis se casar com Emily Dickinson

Críticos como Harold Bloom e Camille Paglia notam que Emily Dickinson tinha plena consciência de seu talento. Johnson revela que a descoberta de que tinha um talento efetivo se deu quando ela tinha quase 30 anos. O amor pelo reverendo Charles Wadsworth teria despertado sua veia lírica. A decisão de compartilhar sua poesia com poucos pode ter sido tomada em 1862. “A alma escolhe a sua companhia/E depois fecha a porta/À sua divina maioria,/E nunca mais volta”, anotou.

Num poema, traduzido por Aíla de Oliveira Gomes, Emily Dickinson afiança: “Publicar — é como leiloar/A consciência humana —/A pobreza justificaria/Essa mesquinharia//Talvez — mas de nossa água-furtada/Nós preferimos alva/Partir para o alvo Criador —/Que investir nossa Neve.//O pensamento pertence Àquele/Que o deu — pois então, ao/Que sustem Sua Córporea ilustração,/Venda-se o sopro Real//No seu invólucro — negocie-se/Do céu a sua Graça — Mas não se rebaixe o humano espírito/À desonra do preço.” O uso de um traço curto, a disjunção — José Lira sugere que não se trata de um travessão —, é uma maneira de pontuar a poesia de maneira altamente original.

A irmã Lavinia e a cunhada Susan Gilbert Dickinson, Sue — com a qual, segundo Camille Paglia, a poeta teria vivido “um caso de amor” (no livro “Personas Sexuais — Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson”, a crítica americana trata-a como “a madame Sade de Amherst”), o que não é endossado por Harold Bloom —, cuidaram de manter a privacidade de Emily Dickinson. Sue era uma de suas ligações com o mundo.

Samuel Bowles, jornalista, teria sido uma das paixões de Emily Dickinson

Numa carta para Elizabeth Holland, de outubro de 1870 — os alemães estavam sitiando Paris —, Emily Dickinson poetisa: “A vida é o mais belo dos segredos. Enquanto ela dura, devemos todos sussurrar apenas. À parte essa sublime exceção, nunca tive clandestinidades”. Adiante, anota: “Fechar os olhos é viajar”.

Quando o sobrinho Gilbert morreu, Emily Dickinson escreveu para Sue: “Minha doce irmã — era assim que eu costumava chamá-la? Mal consigo lembrar-me, tudo me parece tão diferente! Hesito na escolha das palavras, pois só posso escolher umas poucas, e cada uma delas tem de ser da máxima importância, mas recordo que o mais gráfico desempenho da terra está contido numa sílada, ou melhor, até mesmo num olhar. O médico diz que eu sofro de ‘prostração nervosa’. Talvez — não conheço os nomes das doenças. As crises de tristeza de tantos anos é que me cansaram. Como Emily Brontë ao seu Criador, eu escrevo ao meu desaparecido: ‘Toda a existência existe em ti’. A minha consternação foi muito aliviada pelo cartãozinho, que dizia ‘melhor’ tão alto quanto uma voz humana. Por favor, irmã, é necessário esperar! ‘Abram a porta, abram a porta, eles estão à minha espera!’, era essa a doce ordem de Gilbert durante o delírio. Quem estava à sua espera daríamos nós tudo o que possuímos para o saber. A angústia, por fim, abriu-lhe a porta, e ele correu para a pequena sepultura, aos pés dos seus avós. Tudo isso e mais ainda, se é que existe algo mais do que o amor e do que a morte. Diga-me, então, o seu nome!”

Poema sobre a morte, em tradução de José Lira: “Para mim a inacessibilidade/Que se alcança ao morrer/É mais sublime do que as maravilhas/Que na Terra se vê.//A alma deixa na carne o seu aviso/Que em casa não está —/E sai aérea e bela e ninguém pode/Nela sequer tocar.”

Susan Gilbert Dickinson, mulher de Austin Dickinson: a cunhada que Emily Dickinson adorava

Harold Bloom, em “Gênio — Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura” (Objetiva, 828 páginas, tradução de José Roberto O’Shea), sugere que Bowles e o juiz Otis Phillips Lord foram as paixões de Emily Dickinson. Sobre o suposto envolvimento com Susan — sem sexo físico (“genital”, para ser preciso), ressalva Camille Paglia —, apresenta uma contestação: “Corre por aí, atualmente, que ‘a prova dos asteriscos’ indica um relacionamento sexual apaixonado entre Dickinson e sua cunhada, mas vejo apenas que suas cartas são poemas em prosa, compostos com o mesmo cuidado que a poesia, não sendo prova de coisa alguma”. Richard Sewall ressalta o amor frustrado da poeta por Bowles “e o amor supostamente correspondido pelo juiz Otis Lord”. “Ela pensou seriamente em casar-se com o juiz Otis P. Lord. Desconfio de que Emily explorou Lord como uma rematerialização cinematográfica da severa presença de seu pai. O pai era seu agente simbólico de limitação”, pontua Camille Paglia.
Johnson, pesquisador bem anterior ao biógrafo Richard Sewall e ao crítico Harold Bloom, difere, em parte, sobre as paixões de Emily Dickinson: “O seu amor pelo reverendo Charles Wadsworth foi talvez o fato mais importante da sua vida. (…) Tudo leva a crer que o seu amor por Wadsworth nunca foi retribuído ou fisicamente marcado sequer por um abraço. Mas o seu amor por Otis Lord foi um sentimento mútuo, que deu a Emily uma certa medida de realização — o suficiente para a satisfazer”. Os dois eram da geração do pai da poeta. Antecipando-se a Camille Paglia, Johnson informa que “o juiz estava em condições de a pedir em casamento e é possível que o tenha feito”.

Charles Wadsworth: segundo um biógrafo, teria sido uma das paixões de Emily Dickinson

As sobrinhas do juiz Otis Lord podem ter impedido o casamento, mas o biógrafo ressalta: “O mais provável é que” tenha “sido a própria Emily quem recusou, sabendo ser impossível mudar, à sua idade [tinha mais de 40 anos], tão radicalmente de vida”. Em trechos de cartas, mencionadas por Johnson, Emily Dickinson aparentemente joga luzes sobre o desacerto: “É para mim angústia, que tento esconder, permitir que você me deixe faminta, mas você pede a divina crosta e isso arruinaria o pão… Estive lendo um livrinho. Com ele me partiu o coração, eu quero que ele parta o seu. Acha isto justo? Já o tinha lido muitas ve­zes, mas nunca depois de o ter amado. Isso faz uma diferença — faz diferença em tudo… Afastar o combustível da paixão não é a maneira de afastar a paixão”. Johnson avalia que o amor de Emily Dickinson “é evidente e, para ela, realizado através da certeza de que ele a desejou para esposa”.

Emily Dickinson não era uma mulher bonita, mas aparentemente não se casou porque não quis. Digamos que era casada com sua poesia e um casamento poderia ter atrapalhado, ainda que não impedido, a sua intensa produção (quase 2 mil poemas; ela viveu apenas 55 anos). Lavinia Dickinson era bonita, mas não se casou. A beleza e a verdade na tradução de Aíla de Oliveira Gomes: “Morri pela Beleza, mas na tumba/Mal me tinha acomo­dado/Quando outro, que morreu pela Verdade,/Puseram na tumba ao lado.//Baixinho perguntou por que eu morrera./Repliquei, ‘Pela Beleza’ —/’E eu, pela Verdade’ — ambas a mesma —/E nós, irmãos com certeza.//Como parentes que pernoitem juntos,/De um quarto a outro conversamos —/Até que o musgo alcançou nossos lábios/E encobriu os nossos nomes”.

Thomas Higginson: tido como um dos mentores intelectuais de Emily Dickinson, ele não compreendia sua modernidade

A verdade, para Emily Dickinson, na tradução de Aíla de Oliveira Gomes: “Dizer toda a verdade — em modo oblíquo —/No circunlóquio, o êxito:/Brilha demais p’ra nosso enfermo gozo/o seu sublime susto.//Como a meninos se explica o relâmpago/De modo a sossegá-los —/A Verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los.” O que dizer dos que querem “corrigir” os desvios e deslizes do mundo e dos homens com uma canetada? Nem a verdade lava a jato…

Johnson relata que “Emily aspirava a permanecer imatura, a pensar e agir como uma criança”. Talvez quisesse apenas manter o olhar desperto e inquisitivo das crianças para o novo (o olhar também do filósofo), o escândalo não convencional ao olhar as coisas e, sobretudo, escapar à hipocrisia social dos adultos.

Vale terminar com este belo poema de Emily Dickinson, com tradução de Idelma Ribeiro de Faria (“Poemas”, de Emily Dickinson, Hucitec, 127 páginas): “A lembrança não perdu­ra/Quando perdeu a raiz./Que o solo em torno a segure,/Que a mantenha em vertical,/Que engane todo o universo,/A planta não vingará./Mas a lembrança real/Tem os pés como os do cedro,/Calçados com diaman­te./Esta lembrança constante
/Renascerá se cortada./Deitará brotos de ferro/Sempre que for golpeada.”
As traduções não nomeadas são de Vera das Neves Pedroso. l

O “nascimento” da poeta Emily Dickinson

Trecho do capítulo “A poetisa e a musa: poesia como arte”, do livro “A Vida e a Obra de Emily Dickinson” (Lidador, 283 páginas, tradução de Vera das Neves Pedroso), de Thomas H. Johnson:

“Segundo os dados de que dispomos, por volta de 1858 Emily Dickinson começou a reunir seus poemas em pacotes. Todos eles escritos a tinta, esses pacotes constam de quatro, cinco ou seis folhas de papel de carta, geralmente dobradas, mas por vezes simples. Une-as, pela margem, uma linha enfiada em dois duros equidistantes do alto e do pé das folhas. Quando abertas, podem ser lidas como um livrinho, o que explica por que Lavinia se referiu aos pacotes como ‘volumes’, ao descobri-los logo após a morte da irmã.

Seria Emily Dickinson? Há quem acredite que sim e há quem acredite que não

“Todos os poemas contidos nesses pacotes são cópias passadas a limpo ou muito pouco corrigidas, e constituem dois terços do total da sua poesia. Na sua maioria, os poemas de cada pacote parecem ter sido escritos e reunidos para formar um todo. Como não foram encontrados os rascunhos, presume-se que tenham sido jogados fora. Caso os poemas hajam sido todos compostos na mesma época que as cópias—e tudo indica que sim—quase dois terços da poesia de Emily Dickinson foram dados à luz no breve espaço de oito anos, a começar dos seus 28 e atingindo ao auge da criação aos trinta e pouco. É dessa época de maior produtividade a reunião dos poemas em pacotes.

“Um dos enigmas que cercam a obra de Emily Dickinson é sobre o que terá sido feito dos poemas que ela escreveu na sua primeira juventude. Apenas cinco podem ser identificados como havendo sido escritos antes do seu 28º aniversário, e têm todos tão pouca importância que podem bem ser esquecidos. O primeiro poema que dela se conhece data de 4 de março de 1850. E começa assim: ‘Despertai, ó vós, musas nove!’. Era então costume a troca de mensagens entre jovens do sexo oposto numa determinada semana do ano. As mensagens podiam ser em prosa ou em verso e eram louvadas na medida do seu espírito ou senso de humor. Emily gozava de fama entre as amigas pelo brilho e graça das suas mensagens em verso. Uma delas, com quarenta versos ao todo, foi dirigida a Elbridge G. Bowdoin, um rapaz que praticava advocacia no escritório do pai dela. Emily aponta nos versos ‘seis belas donzelas’: ela própria (‘a de cabelos crespos’) e cinco das suas amigas. Por que não escolhe ele uma delas? Os versos são afetados e vivazes. Em 1852, Emily mandou uma mensagem semelhante a William Howland, outro jovem praticante de Direito no escritório de Edward Dickinson [o pai de Emily Dickinson]. Começando com “sic transit gloria mundi’, a mensagem é uma sequência de alusões em versos distribuídos por dezessete estrofes. Howland vingou-se mandando os versos para o ‘Springfield Daily Republican’, onde foram publicados no dia 20 de fevereiro, com uma nota introdutória segundo a qual ‘a mão que escreveu esta baralhada… é capaz de escrever  coisas bem bonitas’, e expressando a esperança ‘de que uma correspondência mais direta possa ser estabelecida entre ela e o Republican. A nota foi enviada anonimamente, mas toda Amherst sabia de quem se tratava. E, embora tais mensagens não fossem, como já dissemos, obrigatoriamente em versos e não pudessem ser consideradas poesia, a autora daquela era, na opinião de todos, inspirada.”

Noutro trecho, Thomas Johnson diz que 1858 “talvez” tenha “sido… o ano em que Emily Dickinson teve plena certeza de que era poetisa. Não há dúvida de que já escrevia poemas aos vinte e poucos anos, mas tudo leva a crer que, com o correr do tempo, achou que eram insignificantes e, se não os destruiu a todos, pelo menos não terá salvo muitos”.

Deixe um comentário

Euler, seu texto aguçou ainda mais a minha curiosidade sobre Emily Dickinson.

Longe de “curral dos adultos” (valho-me da expressão poética de Alberto da Costa e Silva), Emily não faz parte do mundo sujo em que trafega Mrs. Piglia e sua gente ‘descolada´. Belo texto, bem pesquisado e de quem ama Emily, como este que assina este comentário que é um Bravo! ao autor-amigo Euler De França Belém.
Fraternalmente,
Beto.

wpDiscuz