Euler de França Belém
Euler de França Belém

Forte como o aço e com um boxe afiado, Amanda Nunes pode se tornar a grande estrela do UFC

A atleta que derrotou Ronda Rousey é uma lutadora-indivíduo de vários matizes. Lésbica, não se esconde e apresenta sua namorada no octógono

Amanda Nunes derrota Ronda Rousey: estrela em ascensão no UFC de Dana White e Joe Silva; bem trabalhada, pode se tornar a Connor McGregor das mulheres

O que diferencia Conor McGregor de Ronda Rousey? Ambos são lutadores de primeira linha. Mas o irlandês está focado, treina com afinco e, por enquanto, sabe que seu ganha-pão — e quiçá o seu prazer — sai do que faz no octógono. A americana, uma mulher bonita, planeja migrar para o cinema. Em Hollywood, com nariz achatado por socos e cortes que não podem ser corrigidos nem pelos melhores cirurgiões plásticos, não será chamada para estrelar mesmo filmes de luta. Acrescente-se que o cinema, quando se é razoavelmente bem-sucedido, paga mais aos atores do que o UFC de Dana White e dos chineses aos seus contratados.

É provável que Ronda Rousey tenha se esforçado, até treinado com certo afinco, mas sua cabeça, e consequentemente seu corpo, está noutro lugar — no mundo glamouroso do cinema (quem sabe, da publicidade), que, por sinal, é mais duradouro, para os atores, do que o mundo das lutas, no qual aposenta-se em média com 35 anos ou no máximo 40 anos, quando atletas espetaculares, como Victor Belfort e Anderson Silva, começam a se tornar escadas para os mais jovens; todos querem batê-los para constar no currículo. A derrota para Holly Holm, por nocaute, desequilibrou a lutadora até então invencível. Grandes lutadores, quando perdem a primeira luta, sobretudo de modo escandalosamente vexatório, ficam ensimesmados. Observe-se que Júnior Cigano, desde a primeira derrota para Cain Velasquez, nunca mais foi o mesmo lutador — tornou-se temeroso e, por isso, mais defensivo.

Dana White e seus auxiliares erraram ao retardar o retorno de Ronda Rousey ao octógono e impedir que José Aldo tivesse uma revanche imediata contra Conor McGregor? Penso que não. Ronda Rousey é um alto investimento do UFC e, por isso, seu presidente quis preservá-la. Uma nova derrota para Holly Holm seria a pá de cal na carreira da americana que, mesmo quando faz cara de má, fica sempre com uma cara boa. José Aldo começou a perder para Conor McGregor fora do octógono — da mesma forma como Muhammad Ali começou vencendo George Foreman, na célebre luta do Zaire, em 1974. A rigor, os dois mal lutaram, pois José Aldo, aparentemente desestabilizado pelo marqueteiro de mão cheia que é o irlandês, levou um golpe e foi nocauteado.

É provável que, ao perceber que seu mundo não acabou devido a uma derrota, José Aldo possa lutar outra vez contra Conor McGregor e, até, vencê-lo, porque é mesmo uma atleta excelente, sólido no boxe e no muay thai. No fundo, como é um grande “vendedor” de lutas — o pague-pra-ver —, o UFC trabalha para preservar o irlandês, que atrai a atenção de todos, como campeão, arriscando a colocá-lo em lutas-exibição, como contra Nate Diaz.
Dana White e Joe Silva agiram certo quando colocaram Holly Holm para lutar contra Miesha Tate. No caso de vitória de Holly Holm, aí, sim, seria concedida uma revanche a Ronda Rousey, o que renderia dividendos financeiros para o UFC. Porém, deu zebra e Miesha Tate ganhou a luta e, depois, perdeu para a fenomenal Amanda Nunes.

A brasileira é uma atleta de primeira linha, que treina pesado e, sobretudo, com eficácia. Observando-a, mesmo de longe, percebe-se que é pura energia — forte, sólida — e com autoestima em dia.

Na luta contra Ronda Rousey, decidida no primeiro round, em menos de 50 segundos, Amanda Nunes entrou confiante no octógono. Inteligente e precisa, não caiu no jogo dominante da americana, que é agarrar, levar para o chão e imobilizar a oponente (é a rainha do braço). Sempre que Ronda Rousey se aproximava, com o objetivo de levá-la para o chão, onde é quase invencível, a brasileira usava o boxe para afastá-la.

Porém, se tivesse feito apenas uma luta defensiva, escapando no estilo de Júnior Cigano quando peleja com Cain Velasquez, Amanda Nunes poderia ter perdido. Pelo contrário, ao mesmo tempo que não se deixava se agarrar, atacava com volúpia, com um boxe certeiro e pesado. Como Ronda Rousey desmorona quando é atacada com firmeza, não conseguindo escapar para ganhar fôlego, a brasileira avançou e, com golpes precisos, nocauteou-a. Um nocaute terrível, porque a lutadora-atriz não chegou a cair, mas parecia bêbada no octógono, à espera de que o árbitro interrompesse a batalha.

É papo-furado que Amanda Nunes tem de ser humilde. Não tem. O mundo dos atletas vitoriosos é feito, em larga medida, de vaidade, de vontade de vencer a qualquer custo. E quem vence, sobretudo grandes lutas, deve mesmo comemorar, apresentando-se e dizendo-se o melhor. A brasileira é, no momento, superior, até muito superior, a Ronda Rousey, Holly Holm (o perigo é que luta mais ou menos como Amanda Nunes) e Miesha Tate. Está, na verdade, sobrando na categoria. Teremos Amanda Nunes e Cris Cyborg no octógono? Não se sabe. Há sempre o problema de peso de Cyborg.

A decidida Amanda Nunes não tem nada de boba. Por isso insiste, em todos os momentos, que é a campeã e, portanto, a nova estrela do UFC — ao lado de Conor McGregor e, quem sabe, do fabuloso Cody Garbrandt, que derrotou de maneira incontestável Dominick Cruz — e gruda sempre sua imagem à de Ronda Rousey. Fica-se com a impressão de que fala demais da americana. Mas tem de falar mesmo, porque seu sucesso, no momento, deriva exatamente do fato de ter nocauteado a maior estrela feminina do UFC. Aos poucos, poderá se desconectar da atriz-lutadora. Mas agora é a mulher que derrotou o fenômeno, a ex-Neymar do octógono.

Com seu inglês cada vez mais fluente, com sua verve privilegiada — fala muito melhor do que a maioria dos lutadores —, a atrevida Amanda Nunes, se bem trabalhada por sua equipe e pelo UFC, se tornará uma estrela de primeira grandeza. Há outro fato que chama a atenção: é lésbica, apresenta sua namorada no octógono — ou seja, não se esconde; ao contrário, exibe o que é, sem máscaras e autoenganos. Noutras palavras, é uma estrela com vários matizes, complexa, pluridimensional

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