Euler de França Belém
Euler de França Belém

 Crítica de Camila von Holdefer, na Folha de S.Paulo, exagera ao dizer que Elvira Vigna é incontornável

Não se trata de duvidar da grandeza da escritora, e sim de sugerir que a crítica literária não prova que, “na literatura brasileira, não há quem se iguale ou se aproxime dela” 


Elvira Vigna: uma escritora notável, segundo crítica publicada na “Folha de S. Paulo”

A morte é o momento em que aquele que vai para o cemitério ou para o crematório se torna santo. Os defeitos tornam-se diminutos, às vezes invisíveis, e as virtudes praticamente “recriam” o indivíduo que, “ausente”, não incomoda mais. Pensei isto ao ler o artigo “Ponto fora da curva, Elvira Vigna morre aos 69” (anos), de Camila von Holdefer, publicado na edição de terça-feira, 11, da “Folha de S. Paulo”. Na internet, o editor da “Ilustrada” mudou o título, certamente para garantir que se tratava de uma “análise”, como reza a retranca, e não de uma reportagem que mescla informação sobre a morte e crítica literária. O título é ainda mais enfático: “Elvira Vigna se tornará uma autora brasileira incontornável”.

Não há dúvida de que Elvira Vigna é uma escritora que merece análises literárias detidas. Seus livros “Sete Anos e Um Dia”, “O Assassinato de Bebê Martê” e “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas” são tratados como “obras decisivas”. O terceiro “é sua obra-prima”, sustenta Camila von Holdefer. Não há dúvida também que a resenhista escreve e pensa bem. Mas o texto, escrito sob o impacto da morte de Elvira Vigna — de câncer —, não faz aquilo que se exige de uma análise: não prova seus pressupostos. Em nenhum momento, por mais que se esforce, o leitor fica sabendo por qual motivo “Elvira Vigna se tornará uma autora brasileira incontornável” ou se trata de um “ponto fora da curva”. O objetivo do comentário não é reduzir a importância de sua literatura, e sim enfatizar que a crítica literária não explica porque a autora é tão “importante”.

Camila von Holdefer assinala que “qualquer tentativa de classificar, relacionar ou demarcar a obra de Elvira Vigna parece fadada ao fracasso”. Noutras palavras, não se trata de uma escritora, e sim de uma deusa. A rigor, o que se está propondo, ainda que indiretamente, é que a crítica não “acessa” a obra da autora. Se é assim, devemos abdicar da crítica. Ante a dificuldade de entender a prosa de James Joyce, William Faulkner e Guimarães Rosa, autores cruciais da literatura do século 20, o crítico deve desistir da empreitada?

“Mais do que uma autora que carrega uma influência óbvia, Vigna é destinada a influenciar de maneira direta as próximas gerações”, profetiza Camila von Holdefer. Pode até ser que isto se torne verdadeiro, mas não dá, neste momento, para corroborar a conclusão da crítica literária. É cedo, muito cedo, para saber como a literatura de Elvira Vigna será “diluída” nas obras dos próximos (ou dos atuais) escritores. Pode ser que sua obra se torne “grande”, que se agigante, mas também pode ser que, quando ganhar fortuna crítica suficiente, se apequene. Retomando o início deste parágrafo, é preciso mais do que um comentário de jornal, escrito em cima da hora, para sugerir que uma autora é ponto de partida, uma retomada da grande literatura, e, quiçá, ponto de chegada. Críticos literários certamente se debruçarão sobre a prosa de Elvira Vigna, menos para garimpar suas influências e mais para demarcar sua contribuição à literatura patropi e internacional. Há autores que não são inventores de uma nova linguagem e, ainda assim, permanecem imensos, reverberando inclusive em obras, digamos, inventivas.

Camila von Holdefer: uma crítica ousada e que escreve muito bem sobre literatura

Vale recolher o trecho no qual o editor da “Folha” baseou-se para criar o título do artigo na edição digital: “Mais do que uma simples previsão baseada em achismos, o fato de que ela se tornará uma escritora incontornável é uma obviedade para qualquer um que tenha lido seus livros”. Pode até ser que os leitores de Elvira Vigna, notadamente os acadêmicos — que têm mais instrumentos para comparar prosas do que leitores ocasionais —, a percebam como “incontornável”. Mas a um crítico literário convém, para além dos achismos, explicitar a razão de considerá-la “uma escritora incontornável”. Talvez (a palavra merece ser relida) seja cedo para apreciá-la assim, mesmo num necrológio.

Não deixa de ser curioso que Camila von Holdefer frise que Elvira Vigna “é destinada a influenciar de maneira direta as próximas gerações”, mas, logo adiante, destaca “que não se pode, em hipótese alguma, imitar a voz de Vigna. Há nela algo que não se emula”. Parece contraditório. De fato, Joyce influenciou tanto Faulkner quanto Guimarães Rosa, mas não se pode sugerir que o americano e o brasileiro o imitaram. Entretanto, apesar das negativas, especialmente do segundo, as digitais do irlandês podem ser verificadas aqui, ali e acolá. São visíveis. Portanto, a crítica pode estar certa: Elvira Vigna pode inspirar, influenciar, mas não necessariamente ser imitada. O que diria Harold Bloom, um dos pais da ideia de que há uma “angústia da influência” em literatura, a respeito da escritora brasileira?

Ousada, e aprecio isto num crítico literário, mesmo que discorde dele, Camila von Holdefer enfatiza: “Na literatura brasileira, não há quem se iguale ou se aproxime dela”. A escritora mais próxima, sugere a comentarista da “Folha”, é a escocesa Ali Smith. Camila von Holdefer não é herética o suficiente para insinuar assim: “Elvira Vigna é a maior escritora brasileira, acima de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector”. A frase entre aspas, evidentemente, não é da crítica. Mas quem sabe explique sua frase “estupenda”.

Como sabem críticos do gabarito de João Cezar de Castro Rocha e Alcir Pécora, acadêmicos que escrevem bem resenhas ligeiras para jornais ou revistas, é muito difícil, senão impossível, assegurar a respeito de uma escritora que ainda não foi lida suficientemente, com interpretações das várias nuances e especificidades de sua prosa — a sua contribuição, digamos, à literatura nacional e internacional —, que, “na literatura brasileira, não há quem se iguale ou se aproxime dela”. Camila von Holdefer poderia pelo menos ter delimitado: “Nos últimos 30 anos”. Algo assim. Da maneira como escreveu, colocou no mesmo pacote todos os demais escritores. Todos estão “atrás” de Elvira Vigna. Depois dessa crítica, tão impactante, leitores sairão correndo, abandonando seu jornal, o impresso, e sobretudo o computador e o celular, dado o título mais “explosivo”, até à livraria mais próxima em busca de um livro, qualquer um, da autora.

Para reforçar sua tese a respeito da grandeza de Elvira Vigna, Camila von Holdefer recorreu a André Conti, que a editou na Companhia das Letras. “Para mim foi a maior escritora brasileira de nosso tempo”, pontua o agora editor da Todavia. Qual é o tempo preciso de André Conti, que é jovem, não se sabe exatamente. Mas fica-se com impressão de que, ao menos para Camila von Holdefer, e talvez para o editor, outros escritores, como Bernardo Carvalho, não existem. Se existem, são menores, bem menores, do que Elvira Vigna.

Enfim, o que se disse acima tem a ver menos com a grandeza literária de Elvira Vigna, que por certo é um fato, e mais com a sugestão de que a crítica de Camila von Holdefer insinua mais que prova tal grandeza. Sobrou paixão e faltou ciência na “análise”. Escasseou análise…

Confira a análise publicada pela Folha de S. Paulo no link:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/07/1900002-elvira-vigna-se-tornara-uma-autora-brasileira-incontornavel.shtml

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