Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crítica à biografia de Tancredo por José Murilo de Carvalho vale o primeiro número da revista 451

Numa crítica ácida, mas respeitosa, o doutor em história aponta defeitos e virtudes da biografia escrita pelo jornalista Plínio Fraga

Imagem: Divulgação

Há um problema no texto de José Murilo de Carvalho: “Antônia era uma goiana”. A última paixão de Tancredo Neves não morreu.

Fica-se com a impressão que a acidez do respeitável doutor em história José Murilo de Carvalho, especialmente quando examina o epílogo do livro, no qual se conta que a campanha presidencial de Tancredo Neves, em 1985, recebeu dinheiro pouco católico de empresas, tem a ver com uma certa simpatia pelo personagem. Na verdade, o texto deriva de uma reportagem notável, que talvez só precise um pouco mais de nuance, de, quem sabe, documentação.

O crítico sugere que, ao falar de “uma prática política, e não do biografado”, Plínio Fraga equivoca-se. O equívoco não fica demonstrado. Por que não se pode conectar a prática política — digamos o uso de caixa 2 — a Tancredo Neves? Afinal, o livro do jornalista não é uma hagiografia.

A biografia de Plínio Fraga em nada diminui Tancredo Neves ao realçá-lo como um personagem contraditório — não tão certinho (além de Antônia Gonçalves de Araújo, teve outras amantes, uma delas casada; brecou uma nomeação a pedido de uma das amantes). Humano, decente (certa amoralidade não o torna uma figura menor) e estadista, o que é devidamente evidenciado, o mineiro de São João Del-Rei é exposto na dimensão precisa: um grande político, um político raro.

O que José Murilo Carvalho poderia ter dito é que Tancredo Neves, dada sua história ser ainda recente — morreu há apenas 32 anos —, é um personagem em construção. Portanto, não há como erigir uma biografia ao estilo das ditas definitivas, e esta não é a pretensão de Plínio Fraga.

A crítica de José Murilo de Carvalho é rara nas publicações brasileiras: séria, nuançada e sem ataques. Vale o primeiro número da “Quatro Cinco Um” (uma homenagem, dizem, ao livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury).

Deixe um comentário

wpDiscuz