Euler de França Belém
Euler de França Belém

Carlota Queiroz foi a primeira deputada da história do Brasil

Ela era médica e, enfrentando preconceitos, colaborou para elaborar a Constituição de 1934

Carlota Queiroz: a médica hematologista foi a primeira deputada da história do Brasil

A repórter Dimalice Nunes publica, na revista “Aventuras na História” (edição de janeiro), a reportagem “Carlota Pereira de Queiroz — A primeira deputada eleita no Brasil”.

Parente de proprietários de terras de Jundiaí (SP) e de fundadores do jornal “A Província de São Paulo” (depois, “O Estado de S. Paulo”), Carlota Queiroz havia sido preparada para ser uma dona de casa. Formada pela Escola Normal da Praça, em 1909, começou a lecionar. Mas não era uma professora comum e logo se interessou por métodos modernos de ensino, como os sistemas Frobel e Montessori. Chegou a apresentar suas pesquisas em congressos internacionais, na década de 1920.

No seu diário, Carlota Queiroz escreveu: “Desiludi-me com a carreira de professora. O meio era acanhado, não havia grande futuro, os melhores lugares eram dos homens. Eu aspiro a mais. Deixei o magistério público, continuando a dar aulas particulares para ter certa independência econômica”. O que fazer?

Em 1920, já com 28 anos, numa idade em que não se era considerada mais tão nova, Carlota Queiroz entrou para a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Três anos depois, transfere o curso para o Rio de Janeiro, onde conta com o apoio do médico Miguel Couto, tido como progressista. Forma-se em 1926.

“Especialista em hematologia”, Carlota Queiroz “foi chefe do laboratório da Clínica Pediátrica da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e do serviço de hematologia da Clínica de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP”, relata a revista. Autora do livro “Carlota Pereira de Queiroz — Uma Mulher na Política”, Mônica Raisa Schpun (biógrafa da segunda mulher do escritor Guimarães Rosa, Aracy de Carvalho, uma espécie de Schindler brasileira) relata que, apesar de bem-sucedida profissionalmente, a médica queria participar da vida sociopolítica do país. “Sua atuação não pode ser chamada nem de tímida nem de modesta”, afirma a pesquisadora.

Carlota Queiroz: uma única deputada num Congresso Nacional controlado inteiramente por homens. A fotografia mostra como o país era excludente

Em 1932, quando São Paulo rebelou-se contra o governo do presidente Getúlio Vargas, Carlota Queiroz atuou junto aos revolucionários constitucionalistas.

Até a década de 1930, as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe no Brasil, inclusive sem direito ao voto. Só em 1931, as mulheres solteiras, viúvas com renda própria ou casadas com a autorização do marido ganharam o direito de votar. Era um avanço do governo de Getúlio Vargas. As feministas, com o apoio de homens progressistas, continuaram pressionando o político gaúcho. “Em 1932, Getúlio Vargas assinou o decreto que classificava como eleitor todas as pessoas maiores de 21 anos, sem distinção de gênero”, anota Dimalice Nunes.

“Em 1933 aconteceram as eleições para a Assembleia Constituinte. Das 22 cadeiras da bancada paulista, a Chapa Única por São Paulo, dos partidos PRP e PD, elegeria 17 nomes. E entre eles estaria a primeira mulher a assumir um cargo legislativo no Brasil. Carlota ganharia 5.311 votos no primeiro turno e 176.916 no segundo”, relata a revista. “Carlota seria o único nome feminino a assinar a Constituinte de 1934 ao lado de outros 252 deputados.” Promulgada a Constituição, Carlota Queiroz conseguiu se eleger, pela segunda vez, pelo Partido Constitucionalista de São Paulo. Só deixou o mandato quando, com a ditadura do Estado Novo, em 1937, Getúlio Vargas fechou o Congresso.

As feministas ortodoxas, como Bertha Lutz, criticavam Carlota Queiroz, porque ela dizia que defendia “as causas femininas”. Ao contrário de Bertha Lutz, que depois assumiu mandato de deputada — foi a segunda congressista do país —, Carlota Queiroz era contrária à criação do Departamento Nacional da Mulher. Ela se opôs que “seus cargos fossem preenchidos por mulheres. Cotas eram consideradas sexistas por Carlota”.

Por suas posições firmes, contrariando às vezes até algumas aliadas, Carlota Queiroz chegou a ser criticada de modo excessivo pela imprensa. O jornal “A Manhã” legendou uma fotografia da deputada da seguinte forma: “Dizem que São Paulo perdeu a revolução por falta de armas, mas estamos vendo que lá havia cada canhão!” Publicamente, a parlamentar não reclamava, mas anotava as queixas no seu diário. “Eu sofro, mas por uma causa que terá de vencer”, dizia.

Mônica Raisa Schpun assinala que Carlota Queiroz “não concordava com as feministas, mas defendeu ideias que não podemos colocar num campo antifeminista. Ela tinha outras preocupações e se permitiu fazer política defendendo aquilo que lhe parecia mais importante”.

Carlota Queiroz, que não se casou, morreu aos 90 anos, em 1982, em São Paulo. “Hoje”, 84 anos depois de sua eleição — quase um século —, “apenas 10% dos congressistas são mulheres”.