Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia revela que goiana foi a última grande paixão de Tancredo Neves, o príncipe civil

Nascida em Pires do Rio, Antônia Gonçalves manteve um relacionamento de 14 anos com o político mineiro. Livro menciona Alfredo Nasser, Aguinaldo Caiado de Castro, Mauro Borges, Irapuan Costa Junior e Iris Rezende

Antônia Gonçalves de Araújo, goiana de Pires do Rio e formada em Letras em Goiânia, falava inglês fluentemente e era uma secretária disciplinada: teve um relacionamento de quatorze anos com o político Tancredo Neves

Tancredo Neves é, ao lado de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, um dos maiores políticos do Brasil no século 20. Era conciliador, mas não um fraco. Em agosto de 1954, quando o presidente Getúlio Vargas, sob pressão de militares e civis golpistas, aceitou tirar licença, tentando evitar a renúncia, comandou a resistência, mas era tarde. O putsch estava armado de maneira profissional pelo general Juarez Távora, pelo vice-presidente Café Filho e, entre outros, pelo jornalista e político Carlos La­cer­da. Em 1961, para evitar o golpe que o suicídio de Vargas havia impedido em 1954, aceitou o cargo de primeiro-mi­nistro. Era um político moderado instalado no poder para controlar um presidente, João “Jango” Goulart, tido co­mo pusilânime e supostamente radical.

É provável que, se o parlamentarismo não tivesse sido derrubado por um plebiscito articulado por Jango (com o apoio de políticos que planejavam disputar a Presidência da República em 1965), o golpe de 1964 teria sido evitado. De Tancredo se poderia dizer muitas coisas — menos que fosse comunista ou que pretendesse instalar uma República Sindicalista no Brasil. A partir de abril de 1964, com os militares no poder, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães — entre outros, como Mário Covas, Alencar Furtado (mais radicalizado), Marcos Freire, Henrique Santillo, José Richa — comandaram uma resistência firme mas pacífica à ditadura. A história da luta pela redemocratização, muito mais importante e decisiva do que a guerrilha de esquerda, é subvalorizada pela historiografia. Porém, aos poucos, começam a ser publicados livros relatando a batalha dos civis democratas — alguns deles, como Petrônio Portella, paradoxalmente, da Arena — pelo retorno à legalidade. “Tancredo Neves — O Príncipe Civil” (Objetiva, 647 páginas), de Plínio Fraga, insere-se numa corrente, quiçá nova, de valorização dos democratas, não apenas dos revolucionários da Ação Libertadora Nacional, como Carlos Marighela e Joaquim Ferreira dos Santos. Trata-se de uma obra equilibrada e é, de fato, uma biografia, não uma hagiografia. Toda biografia de qualidade é um livro de história. Porque o indivíduo não é uma ilha, não está só no mundo. No caso de um político, sobretudo como Tancredo Neves, para contá-lo, para compreender o personagem, é preciso rastrear sua época — o que Plínio Fraga faz de modo competente e objetivo. A obra é, além disso, muito bem escrita. (A expressão “príncipe civil”, criada para definir Tancredo Neves, é uma formulação de José Guilherme Merquior, filósofo que, erradamente, é visto tão-somente como sociólogo, ensaísta e crítico literário. O nome Tancredo — “Tank-rad”, de origem alemã — “significa rei dos conselhos, conciliador, conselheiro inteligente, aquele que medita sobre suas resoluções. Nada mais apropriado, portanto.)

Escolado por 1954, por 1964 e por todo o período da ditadura, quando era preciso pisar em ovos para sobreviver politicamente, evitando a cassação, a permanente espada de Dâmocles, Tancredo Neves (PMDB) operou, com extremo profissionalismo político, transformando a paixão em escrava voluntária da razão, com uma paciência de Jó, a luta pelo retorno das eleições diretas para presidente da República. Porém, com as Diretas Já não aprovadas, articulou sua eleição no Colégio Eleitoral, derrotando o candidato mais simpático — Paulo Maluf, do PDS — aos criadores da ditadura, como o general Golbery do Couto e Silva. Não deixa de ser extraordinária a articulação para conquistar o apoio de civis e militares que, de 1964 a 1985, apoiaram a ditadura. Tancredo Neves negociou, às claras e nos bastidores, o apoio de políticos, como José Sarney e Antonio Carlos Magalhães, e militares que partilharam das benesses da ditadura, como o presidente Ernesto Geisel e o general Leônidas Pires Gonçalves. Aos que criticam Tancredo Neves resta informá-los que, na política, não se caminha unicamente com os melhores. Caminha-se com os aliados possíveis. A política só é excludente, na definição de “escolhidos”, quando se pratica uma política totalitária, praticamente religiosa.

Tancredo Neves, cujas sobras de campanha de 1985 permanecem mal explicadas, ao lado de Andrea e Aécio Neves, em dezembro de 1984.
Os netos, que são irmãos, foram mencionados na Operação Lava Jato

Antônia, a paixão

Postas algumas questões centrais da vida de Tancredo Neves, concentro-me, a partir de agora, a respeito dos goianos mencionados na biografia. São mencionados Alfredo Nasser, Mauro Borges, Iris Rezende, Irapuan Costa Junior, Cora Coralina, Agui­nal­do Caiado, Murilo de Barros Pimentel, A. C. Scartezini e Antônia Gonçalves de Araújo.

As biografias patropis tendem a sugerir que políticos são praticamente eunucos ou, no mínimo, seres monogâmicos. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, para citar dois países e uma tradição, as biografias escancaram a vida privada das pessoas sem que se esconda nada. A vida de um presidente americano homossexual foi escancarada sem pudor. As amantes de John Kennedy — uma delas ligadas ao mafioso Sam Giancana (o amigo e protetor do cantor Frank Sinatra) — foram rastreadas e exibidas da maneira mais ampla possível. A atriz Marilyn Monroe é apenas a mais conhecida e glamorosa. Tancredo Neves, careca e com 1,60m, era um latin lover. Era charmoso e sedutor. Amava Risoleta Neves, por certo, mas, como Jango e Kennedy, era afeito a casos extraconjungais. Galanteador nato, em 21 de outubro de 1984, numa festa na casa do jornalista Helio Fernandes (irmão de Millôr), o anfitrião atendeu um telefonema e explicou a Tancredo Neves: “Era a Tônia Carrero avisando que vai se atrasar”. O mineirinho cortejou: “Por ela, espero até de manhã”.

O caso amoroso de Tancredo Neves mais longejo, ou conhecido, foi com Antônia Gonçalves de Araújo, goiana de Pires do Rio, nascida em 1933. Quando se conhecerem, ele tinha 61 e ela 37 anos. Mantiveram uma relação por quatorze anos.

Em 1971, presidente da Comissão de Economia da Câmara dos Deputados, Tancredo Neves não estava muito animado. “O que houve comigo é que perdi o entusiasmo. Há quantos anos se ouve falar em Tancredo Neves? Não acha que já chegou para mim a hora de pendurar as chuteiras, dando assim oportunidades aos mais novos?”, perguntava aos aliados. “Nessa época”, disse o embaixador Vasco Mariz, “Tancredo estava claramente em baixa”. Por acaso, conheceu Antônia, então assessora do deputado Braz de Assis Nogueira, da Arena de São Paulo. Ela era analista legislativa. Revigorou-se. O elixir da juventude é… a juventude.

Antônia, mais tarde consagrada como dona Antônia, formou-se em Letras em Goiânia e estudou economia em Brasília. Aprendeu inglês com freiras americanas do Mosteiro Santa Maria Mãe de Deus, em Mineiros, no Sudoeste goiano. Ela dava aulas de português para as religiosas. As beneditinas conseguiram-lhe uma bolsa de estudos na Mount St. Scholastica, em Atchison, Kansas, nos Estados Unidos. Lá aprendeu o inglês da rainha, com sotaque americano.

De volta ao Brasil, fluente em in­glês, começou a trabalhar com militares americanos que faziam o levantamento aerofotográfico do território nacional. O país estava sob controle militar. Sabendo que o trabalho com os militares dos Estados Unidos era provisório, Antônia prestou concurso na Câmara dos Deputados. Aprovada, continuou trabalhando para os ianques. Porém, ante a possibilidade de perder o cargo público, decidiu assumi-lo.

Mulher “bonita, morena, magra, cabelos com corte moderno”, Antônia começou a trabalhar como assessora legislativa em 1971. “Naquele tempo o povo não falava línguas. Um dia ele [Tancredo] me ouviu falar ao telefone em inglês e achou chique: ‘Nossa, Antônia, como você fala bem!’. Ele não falava nada em inglês. Por ser o dr. Tancredo, quando assumiu mandato no Senado, a Câmara me emprestou. Dr. Tancredo tinha uma conversa muito simpática. Lia os jornais cedo.” A secretária adquiriu sua confiança e até assinava sua correspondência.

Bom de garfo, Tancredo Neves gostava de comida caseira. “De vez em quando, almoçava com ele no restaurante Piantella. Salada, carne, comia direitinho. Tomava vinho todo dia. Vinho tinto. Não comia sem vinho, não. Era uma pessoa muito inteligente, uma pessoa fora do comum e com uma paciência também fora do comum. Dormia pouco, lia muito. Lia de noite”, conta Antônia.

Amigos de Tancredo Neves confirmam que a relação dele com Antônia não era um casinho. Era sólida. “Tancredo dizia que não se podia confiar em uma secretária com a qual não tivesse intimidade”, conta Mauro Santayana, um dos jornalistas mais ligados ao político. “Depois que conheceu Antônia, Tancredo mudou de gabinete, mudou de cargo (senador, governador), mudou de aliados e amigos, só não mudou de secretária”, registra Plínio Fraga.

Em 1983, governador de Minas Gerais, Tancredo Neves levou Antônia como secretária e instalou-a num hotel nas proximidades do Palácio da Liberdade.

“Antônia tornou-se famosa nos meios políticos de Brasília por ser o caminho de acesso quase exclusivo a Tancredo. Operava a maçaneta da porta dele com critério rigoroso. Para muitos, tornou-se barreira instransponível”, escreve Plínio Fraga. “Dr. Tancredo era só política. (…) Ele era um animal político. (…) Eu cuidada do resto. Eu tomava conta de tudo. Coisa de projeto, comissão”, sustenta Antônia.

Antes de tomar posse como presidente, Tancredo Neves, informa Antônia, “mantinha o hábito de levar a mão ao abdômen”. “Tinha temor de ter câncer. Achava que que podia ter um negócio e, se abrisse, podia dar alguma coisa. Acho que estava impressionado com a doença de um irmão, que morreu acometido de câncer. Não gostava de médico, não. Ia quando precisava”, diz Antônia.

Poderosa, da corte íntima, Antônia, narra Plínio Fraga, “tentou fazer do político goiano Mauro Borges governador do Distrito Federal. Tancredo não cedeu”. Mais tarde, na Presidência, aceitando recomendação de Iris Rezende, José Sarney indicou Joaquim Roriz para o governo do DF.

Em 1985, Tancredo Neves arranjou uma casa no Lago Sul, endereço dos mais caros de Brasília, para Antônia morar. A casa era do empreiteiro Fernando Queiroz, da Santa Bárbara Engenharia. O empresário era um dos financiadores das campanhas eleitorais do político.

Quando Tancredo Neves foi internado — “fiquei surpresa” —, Antônia perdeu influência. “Ele morreu porque foi para São Paulo. Se dr. Tancredo ficasse doente aqui, eu não deixaria aquele povo em cima dele. Em São Paulo, a família deixou. Tinha dia que tinha vinte pessoas em cima dele. (…) A família não tinha costume com ele.” Plínio Fraga frisa que “Risoleta não morava com Tancredo em Brasília”. Na capital, na ausência da família, “Antônia controlava Tancredo. Cuidava da agenda, dos compromissos, das refeições, enfim, da vida dele”.

O livro “Tancredo Neves — O Príncipe Civil” mostra que a biografia competente é um livro de história — porque o indivíduo não é uma ilha, não está só no mundo — e revaloriza os civis democratas que lutaram contra a ditadura, com a força da palavra e do voto, entre 1964 e 1985

Com Tancredo Neves internado em São Paulo, cercado pela família, Antônia teve de recorrer a amigos, como o embaixador Paulo Tarso de Lima, para o ver. “Quem conseguiu que ela entrasse no quarto com Tancredo para se despedir dele fui eu, graças a minha relação com o dr. [Henrique] Pinotti. Ele estava consciente. Tancredo dependia muito dela. Ela o defendia muito. Conhecia a vida dele, melhor que d. Risoleta e qualquer um dos filhos”, contou o diplomata. Ela era de “uma lealdade muito grande”.

No enterro de Tancredo Neves, a família tentou barrá-la. Mas, persistente, “entrou no velório de mãos dadas com Fernando Henrique Cardoso e José Aparecido de Oliveira”. Plínio Fraga afirma que Antônia “apresentou argumento que parecia irrefutável: tinha direito a se despedir do amor de sua vida, ao qual se dedicara por quatorze anos”.

Ao assumir a Presidência, em 1985, José Sarney convidou-a para ser sua secretária. Aos 52 anos, Antônia não quis. Pediu um cargo de diretora da siderúrgica Acesita. “Sarney questionou se teria qualificações para o cargo. Antônia perguntou ao presidente qual a qualificação que Tancredo Augusto, filho do presidente morto, tinha para ser indicado para o conselho diretor da Pe­trobrás e qual qualificação Aécio Neves, neto, possuía para ser nomeado diretor de Loterias da Caixa Eco­nô­mica Federal”. O mineiro José Apare­cido de Oliveira, então governador do DF, indicou-a para uma diretoria fi­nanceira da Companhia de Eletricidade de Brasília.

Antônia, embora não fosse casada legalmente, permaneceu como “viúva” de Tancredo Neves. Plínio Fraga, ao entrevistá-la, viu, na sua casa, “o quadro de sua nomeação” numa parede. “Tancredo e Antônia eram mão e luva.” As nomeações do ministério de Tan­credo Neves eram anotadas num livro que ficava com sua secretária faz-tudo.

Honesta, Antônia, depois da morte de Tancredo Neves, entregou um cheque de doação de campanha a Tancredo Augusto. “Após a morte de Tancredo, foi questionada se tinha conhecimento de contas no exterior por parte do presidente eleito. Negou que houvesse”, anota Plínio Fraga.

Curiosa ou sintomaticamente, não há nenhuma fotografia de Antônia no livro. Encontrei uma fotografia, na internet, para ilustrar o comentário.

Irapuan e Iris

Em 23 de março de 1954, Euclides Aranha aproximou-se de Carlos Lacerda, num restaurante, e disse: “Levante-se para apanhar”. O político e jornalista havia chamado Oswaldo Aranha, pai de Euclides, de “mentiroso, fantasista, improvisador”. Plínio Fraga colheu o depoimento possivelmente no Jornal Opção, num artigo do ex-governador e ex-senador Irapuan Costa Junior. O goiano Murilo de Barros Pimentel recolheu os revólveres tanto de Euclides quanto de Lacerda.

Cora Coralina, de 95 anos, disse à “Folha de S. Paulo”, que não aprovava a candidatura de Tancredo Neves a presidente: “Tancredo é meu amigo, porém muito idoso. Já não tem a garra da mocidade. Não será o líder que precisamos, porque a idade não ajuda. Se ganhar, terá que levar tudo com a calma e sagacidade mineira”. O político morreu aos 75 anos. Os dois faleceram no mês de abril de 1985.

Com as Diretas Já rejeitadas, Tancredo Neves preparou-se para a disputa no Colégio Eleitoral. Mas a linha dura, possivelmente militares ligados ao general Octávio Aguiar de Medeiros, chefão do SNI, conspirava contra. Em junho de 1984, quatro soldados do Exército, disfarçados, foram presos quando pichavam “Nós voltaremos com Tancredo — PCB” em muros de Goiânia. Percebendo que era uma armadilha, para criar um choque com o governo do presidente João Figueiredo, Tancredo Neves entrou no circuito e, imediatamente, pediu ao governador de Goiás, Iris Rezende, que liberasse os militares, o que foi feito.

Nasser e Caiado

Ministro da Justiça do governo de Tancredo Neves, em 1961, o goiano Alfredo Nasser (tio da jornalista Consuelo Nasser) era alvo de críticas da esquerda. Um jornal comunista atacou-o: “O senhor Alfredo Nasser, ministro da Justiça, em portaria digna de Goebbels, manda apreender arbitrariamente o livro de Che Guevara, ‘A Guerra de Guerrilhas’, e estabelece uma série de restrições à edição e à circulação de literatura progressiva. A portaria do senhor Nasser revoga a própria Constituição e, por isso, determinou uma onda de protestos de diferentes círculos políticos e de organizações democráticas”.

Alfredo Nasser tentava aproximar Carlos Lacerda, da UDN, do primeiro-ministro Tancredo Neves, do PSD. Mas o político da Guanabara se recusava a comparecer em eventos nos quais estivessem tanto Tancredo Neves quanto João Goulart. “Nasser insistiu com Lacerda que ‘homens situados em altos postos limitassem suas divergências ao campo político’, convencendo-o a ir a” uma “cerimônia que se realizaria no Maracanã, na qual ‘não ia haver apertos de mão, apenas cumprimentos de praxe’”. Noutro trecho, Alfredo Nasser aparece abortando uma greve, em São Paulo.

O jornalista A. C. Scartezini, da “Ve­ja”, é mencionado como buscando informações para escrever uma reportagem sobre o relacionamento amoroso entre Tancredo Neves e Antônia. “O jornalista pressionava-a para conceder entrevista”, frisa Plínio Fraga. O SNI anotou: “Antônia mostrou-se irritada com [o] chefe da ‘Veja’ em Belo Horizonte. Não desejava ter [o] nome ligado ao chefe do executivo particularmente no que concerne à vida privada”.

O pai do general e senador Aguinaldo Caiado de Castro foi presidente de Goiás. Eleito senador, muda-se para o Rio de Janeiro, onde nasceu Aguinaldo Caiado, avô do ex-superintendente de Cultura do governo de Goiás Aguinaldo Caiado Coelho. Em 1954, era chefe do Gabinete Militar do presidente Getúlio Vargas.

Numa reunião com Tancredo Neves, Aguinaldo Caiado e o coronel PauloTorres, chefe de polícia, Roberto Marinho teria sido pressionado para conter as críticas de Carlos Lacerda ao presidente Getúlio Vargas. “O general Caiado disse-me que o governo tinha poderes para fechar a Rádio Globo. Levantei-me e disse que assim o problema estaria resolvido. O governo que fechasse a emissora”, relatou o fundador do Grupo Globo. Moderado, Tancredo Neves disse que o governo não queria fechar a rádio.

Um grupo articulado por Gregório Fortunato (corruptíssimo — tinha um patrimônio de 30 milhões de reais, em valores atualizados) tentou matar Carlos Lacerda, chegou a feri-lo num pé, e matou o major Rubens Vaz, da Aeronáutica. Os militares começaram uma caçada aos aliados do chefe da guarda do presidente Getúlio Vargas. Este, que não estava envolvido, abriu tudo para os investigadores. Mais tarde, Tancredo Neves disse: “Eu não gostei da decisão do presidente e do general Caiado de Castro, abrindo o Catete à devassa da Comissão de Inquérito do Galeão. Achei uma fraqueza”.

Goianos citados no livro: Alfredo Nasser (firme com a esquerda), Mauro Borges (amante do político mineiro indicou-o para o governo de Brasília), Iris Rezende (Tancredo Neves recomendou que liberasse provocadores do Exército), Irapuan Costa Junior (fonte sobre briga entre Carlos Lacerda e Euclides Aranha), Aguinaldo Caiado de Castro (militar ligado a Getúlio Vargas), Cora Coralina (dizia que Tancredo Neves, aos 75 anos, era velho para governar o Brasil)

Erros

Há alguns erros, sem gravidade, no excelente livro de Plínio Fraga. A casa de Golbery do Couto e Silva ficava “em Luziânia, nos arredores de Goiânia”. Ficava nos arredores de Brasília. Trecho mal formulado ou incompleto: “Quatro presidentes foram eleitos com mais de 65 anos: Rodrigues Alves, Getúlio Vargas, Costa e Silva e Ernesto Geisel. Apenas Fonseca e Geisel chegaram ao fim dos mandatos”. Deve ser Hermes da Fonseca, mas o leitor não é avisado de quem se trata, e não há nenhuma referência anterior.

Plínio Fraga escreve: “Bisavô de Tancredo, Juvêncio Martiniano das Neves era o terceiro dos filhos de José Antônio e Ana Luiza. Nascido em São João del-Rei, em 1813, casou-se com Mecias Cândida Carneiro em 1942”. Se o livro estivesse certo, ele teria se casado com 129 anos. O mais provável é que, no lugar de 1942, a próxima edição deve fazer constar 1842.

A legenda da fotografia da página 69 informa: “Tancredo Neves com Getúlio Vargas e o general Caiado de Castro em cerimônia de entrega da chave de uma casa a um policial (entre abril de 1952 e 23 de agosto de 1954)”. O militar não aparece na fotografia. Trata-se de outra pessoa.

Sugiro que, na próxima edição, a editora troque a fonte, sobretudo porque a vírgula, com a fonte atual, fica parecendo ponto.

O importante mesmo é que se trata de um livro de excelente qualidade a res­peito de Tancredo Neves e so­bre a história do Brasil. O epílogo, a res­peito das sobras de campanha de Tan­credo Ne­ves para presidente, resulta de uma pesquisa-reportagem de primeira linha.

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Nas palavras de Golbery do Couto e Silva – espírito irônico e perspicaz – Tanccredo Neves “vestia o paletó de Ulysses Guimarães, a camisa de Roberto Freire, as cuecas de Jarbas Vasconcelos e os sapatos de Miguel Arraes.”

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