Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia escrita por Plínio Fraga tenta explicar o múltiplo Tancredo Neves

Pensa-se no político mineiro quase que exclusivamente como conciliador, mas era também um político decidido

Tancredo Neves insistiu para Getúlio Vargas resistr ao golpe

O mineiro Tancredo Neves, que morreu em 1985, aos 75 anos, quando havia sido eleito presidente da República, era e permanece um político enigmático. Pode-se dizer que há um Tancredo prêt-à-porter e cada um o usa como quer. Por quê? Porque trata-se de um homem multifacetado. Mas prevalece a imagem de que era conciliador, moderado. Era mesmo? Sim. Mas não era só isso.

Em agosto de 1954, como mi­nistro da Justiça, pregou a resistência ao golpe, sempre sugerindo ao presidente Getúlio Vargas que combatesse os golpistas. O encanecido petebista preferiu se matar a enfrentar a campanha feroz de civis (dos quais Carlos Lacerda era apenas a face mais visível) e militares golpistas.

Em 1961, quando se firmou o compromisso de manter João Goulart como presidente, com a criação do Parlamentarismo, Tan­credo se tornou primeiro-ministro.

Na ditadura, sem comungar com o regime, fez uma oposição firme e, ao mesmo tempo, moderada — para não ser cassado, como foram tantos outros por imperícia política. O papel dos civis democratas na ditadura ainda não foi equacionado de maneira precisa, porque muitos preferem valorizar a resistência armada. Porém, com o tempo, os civis que resistiram, pela via democrática, pelos canais possíveis, tendem a ser mais valorizados. São os casos de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, políticos importantes mas menos midiáticos do que os guerrilheiros.

Para que Tancredo Neves seja mais bem compreendido é preciso que seja mais estudado, como vem acontecendo. Aos poucos, os matizes do mineiro nascido em 1910 vão sendo explicados e nuançados, o que permite entendê-lo como um grande homem de Estado — da estirpe de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Um dos mais qualificados jornalistas de política do país, Plínio Fraga está lançando “Tancredo Neves — O Príncipe Civil” (Objetiva, 648 páginas). A editora frisa que é uma biografia e uma grande reportagem. O título é muito bom; espera-se que o conteúdo siga pelo mesmo caminho.

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