Herbert Moraes
Herbert Moraes

Testando limites

A pergunta que o mundo faz neste momento é: Por que o Irã decidiu testar a paciência da nova administração dos Estados Unidos lançando mísseis balísticos intercontinentais?

Teste de míssel balístico realizado pelo Irã pode complicar politicamente o presidente Hassan Rohani | Foto: Divulgação

Por que o Irã decidiu testar a pa­ciência da nova ad­mi­nistração americana lançando mísseis balísticos intercontinentais? Pergunta similar poderia ser feita ao gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benyamin Netanyahu, que decidiu pagar pra ver qual o grau de comprometimento de Donald Trump e da política israelense para a questão palestina, e anunciando a construção de milhares de casas na Cisjordânia — além da abertura de um novo assentamento.

A resposta para os dois casos é idêntica e simples: os dois países estão estabelendo fatos para, assim, forçarem Trump a deixar claro, desde o início, quais os limites que considera aceitáveis, quão flexível é nos tópicos delicados e, também, para entender que tipo de resposta o novo presidente americano dará para cada ação.

Alguns sinais já foram dados. Pa­ra Israel, que ele considera um a­liado imprescindível, Trump já deixou claro que novas construções nos territórios palestinos poderiam ameaçar o processo de paz, contrariando a expectativa de muitos políticos israelenses. Ao Irã, bem ao es­tilo dele, o presidente impôs novas sanções econômicas logo nos primeiros dias na Casa Branca.

No entanto, as razões que levaram Irã e Israel a testarem o líder ne­ófito são muito mais complexas. Os dois países vivem momentos tur­bulentos na política interna que ameaçam seus governos. Para o Irã a si­tuação é bem pior do que a do inimigo israelense. Este não era o mo­mento para um teste de míssil balístico. Os americanos ficaram irritados. E pegou mal para o presidente Has­san Rohani, que em maio deve tentar a reeleição, mas que vem recebendo críticas internas, principalmente da ala ultraconservadora. Po­líticos liberais e reformistas também es­tão desapontados. A economia vai de mal a pior. Os benefícios pro­metidos à população depois do acordo nuclear não vieram. O desemprego chega a 12% em todo o país, e são os jovens os mais afetados.

A revisão dos direitos humanos que no Irã, em alguns casos, é praticamente inexistente, não foi realizada. Pelo con­trário, em algumas regiões do país, a repressão piorou ainda mais. E agora, o único troféu que o presidente iraniano tinha nas mãos, o acordo nuclear, deverá ser reexaminado pelo novo governo americano. Pior, pode se tornar o estopim para o início de uma guerra entre o Irã e os Estados Unidos.

Ao responder sobre as novas sanções e o teste balístico, o ministro de Relações Exteriores do Irã, Jawad Zarif, preferiu ser cauteloso e disse que o país tem o direito de conduzir testes militares que fazem parte da rotina dos planos de defesa da Guarda Revolucionária, como é chamado o exército iraniano. Mas ele só está parcialmente correto. Apesar do acordo nuclear não citar a proibição de testes com mísseis balísticos, a resolução da ONU ratifica que o acordo inclui uma cláusula que proíbe o Irã de testar mísseis que podem levar ogivas nucleares. E os projéteis que foram lançados nos testes tinham essa capacidade. Esse abismo entre o que o acordo diz e o que a ONU determina é o que permite que os Estados Unidos interpretem como queiram o que deveria ser de fato discutido no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E só não foi porque a Rússia vetaria qualquer decisão desfavorável ao agora aliado. Trump poderia agir, assim como fez há duas semanas, de forma unilateral. Impor novas sanções ou até mesmo retirar os Estados Unidos do pacto nuclear que foi assinado também com outras potências. Mas aí estaria entrando em rota de colisão com a União Europeia, cujos três membros principais — França, Grã Bretanha e Alemanha — assinaram o acordo, assim como a Rússia e a China, que se opõe ao fim do pacto. Todos esses países já estão profundamente envolvidos em transações bilionárias com o Irã. A Inglaterra já reestabeleceu relações diplomáticas; acordos que envolvem toda a troca da aviação civil iraniana que estava sucateada estão sendo coordenados por empresas que fazem parte da União Europeia; a França assinou contratos para a importação de petróleo, e é presumível que a Boeing, uma empresa americana, não vai ficar satisfeita em ter que cancelar e perder um contrato de quase 17 bilhões de dólares na venda de 80 aeronaves para o Irã.

Se cumprir o que prometeu, e for contra a posição dos aliados americanos, Trump deverá ficar so­zinho ao declarar que os Estados U­nidos não são parceiros do Irã no a­cordo nucler. Ao retirar o país, estará dando combustível para os ra­dicais iranianos. Os ayatolás prometem reagir. E é aí que está o perigo.

Herbert Moraes é cor­res­pon­den­te da TV Re­cord em Is­ra­el

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