Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Revolta o tratamento que a esquerdalha dispensa aos policiais brasileiros

Mateus Ferreira da Silva: agredido pela Polícia Militar em Goiânia | Reprodução: Facebook

Se há uma assimetria perfeitamente visível na imprensa (e na esquerda em geral) é aquela entre o respeito que se dispensa a um marginal e o que se defere a um policial. Tomemos o caso do black bloc Mateus Ferreira da Silva, que sofreu violenta pancada, desferida por um policial, em tumulto no dia 28 de abril, em Goiânia. Todas as simpatias da imprensa se dirigiram a ele: em nenhum momento foi evidenciado que Mateus Ferreira era um dos ativos participantes de depredações a estabelecimentos comerciais e ateamento de fogo em materiais encontrados na rua.

Desde logo foi intitulado “estudante”, a despeito de se encontrar naquela demonstração não como tal, de maneira ordeira, mas como integrante de uma turma de encapuzados dispostos a tudo. E é preciso ser claro que o termo estudante se aplicaria melhor a um adolescente, um “teenager”, do que a alguém bastante maduro, bem passado dos 30 anos, como Mateus Ferreira.

A imprensa foi pródiga no entrevistar seus parentes, e evidenciar suas qualidades. A estes parentes não foi perguntado se advertiram Mateus Ferreira para se abster, se participasse de movimentações de rua, de depredações e agressões, que constituem crime. Mas vá lá. Mateus foi hospitalizado e passou por maus momentos. A todos nós, de boa vontade, cumpre desejar que se recupere e não se meta mais em episódios semelhantes, para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Mas chama a atenção, e peço aos leitores, como sempre faço, que me desmintam, se adianto inverdades: essa mesma imprensa, e essa esquerda, que tantas atenções dispensaram a Mateus Ferreira, até em nível nacional, sempre se calaram quando as vítimas de tumultos foram policiais. Um exemplo recentíssimo: dois dias antes do ocorrido com Mateus, na Universidade de São Paulo (USP), um grupo de universitários encapuzados, também a pretexto de protestar contra a reforma da Previdência, depredava e incendiava uma agência do Banco Santander, instalada no campus universitário justamente para atender os alunos. Um soldado da PM paulista, chamado a intervir, sofreu violenta pedrada na cabeça, e teve que ser internado com suspeita de traumatismo. Não teve qualquer solidariedade dos jornalistas, sua família não foi procurada. Nem sequer seu nome foi divulgado. E estava ali (ao contrário de Mateus Ferreira) para impor a ordem mínima necessária e para resguardar o patrimônio da universidade e dos próprios universitários turbulentos.

No fim de novembro passado, num protesto contra a PEC dos Gastos Públicos, um grupo de black blocs em Brasília incendiava viaturas e depredava prédios públicos, quando a PM (que já levou até flechadas de índios) foi chamada. A reação dos black blocs foi violenta. Um cabo da PM, esfaqueado, foi hospitalizado. Um soldado foi atingido com uma pedrada na cabeça e também hospitalizado. Sabe o leitor o nome deles? Nem eu.

Para a imprensa e as esquerdas, eles eram — e são — ninguém. Em Goiânia, estiveram três senadores visitando Mateus Ferreira: Gleisi Hoffman, Lindbergh Farias e Fátima (“é gópi!”) Bezerra. Nunca passou pela cabeça de nenhum deles visitar um policial ferido, ou prestar solidariedade a sua família. São livres para fazer o que quiserem, e muita gente boa acha que sua visita não engrandece, mas compromete Mateus Ferreira ainda mais com o que está errado. Mas o fato é que revolta muita gente o tratamento que a esquerdalha dispensa aos nossos policiais. Eu poderia citar muitos casos semelhantes. Mas para o bom entendedor, basta.

Por que pegam pesado contra Eduardo Cunha e esquecem Renan Calheiros?

Eduardo Cunha e Renan Calheiros: fica-se com a impressão de que o primeiro é protegido e o segundo, não

É assimétrico o tratamento que o Ministério Público e a Justiça dispensam a uns e outros nos recentes casos de corrupção. Já no mensalão chamou a atenção geral a disparidade entre as condenações do núcleo publicitário (Marcos Valério, por exemplo, foi condenado a 37 anos e seu sócio Ramon Hol­lerbach a 27 anos), do núcleo fi­nanceiro (Kátia Rabello e José Roberto Salgado, ambos do Banco Rural e ambos condenados a 14 anos) e aquelas do nú­cleo político (José Dirceu condenado a sete anos e Delúbio Soares a seis anos, por exemplo).

Se tal disparidade causou estranheza, por outro lado foi benéfica ao país no Petrolão. Foi ela que ocasionou, por medo de condenações pesadas, a enxurrada de delações premiadas, permitindo que se levantasse o véu que encobria, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, a promiscuidade entre empreiteiras e políticos. Agravada, lembremo-nos, nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, com a adesão dos governos “bolivarianos” estrangeiros à quadrilha.

Mas ainda existem estranhezas: por que tanta celeridade nos processos quando se tratava do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, hoje engaiolado, e não se aborrece o ex-presidente do Senado Renan Calheiros, a despeito da penca de processos abertos contra ele?

Há uma sequência de depoimentos, ações, ameaças de prisão e até prisões quanto a algumas madames de atolados nos últimos escândalos, como Cláudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha e Adriana Ancelmo, mulher de Sérgio Cabral. Mas a “amiga” de Lula, Rosemeire Noronha, a despeito de ter “pintado o sete”, não é incomodada por ninguém, tendo sofrido apenas uma busca e apreensão de computadores, ao início de sua investigação pela Polícia Federal. E, “last but not least”, com evidências até menores, grandes empresas (como a Petrobrás) e Fundos de Pensão (como o Postalis, dos Correios e o Petros, da Petrobrás) foram investigados, mas ninguém até hoje bateu às portas suspeitíssimas do BNDES, de onde saíram os recursos para os “campeões nacionais” amigos do petismo, que quebraram e deixaram enormes buracos na instituição, e para os governos “bolivarianos” implantarem obras em seus países, também dirigidas a empreiteiras cúmplices. E de difícil retorno aos cofres do Banco.

A sociedade vai pagar pelo “mico” da telefônica Oi

Há algo de muito assimétrico entre as situações financeiras das operadoras de telefonia que operam no país. Enquanto Claro, Vivo e TIM funcionam normalmente, ao menos em aparência, e se enfrentam prejuízos, estes são apenas ocasionais, a Oi se arrasta em situação de agonia, e não encontra uma solução para sua situação pré-falimentar, para dizer o mínimo.

Mesmo com todo esforço do governo e de grupos interessados, que estão dispostos a apostas no enorme potencial das comunicações brasileiras, a situação da Oi parece apenas se agravar a cada dia. Quando se fala em sua dívida estratosférica (65 bilhões de reais!), surgem as perguntas: como é possível uma empresa acumular tal passivo? O que ocorreu em sua história para chegar a esse disparate?

Quem quiser a resposta, leia a revista “Piauí” número 125, de fevereiro deste ano. Vai encontrar um soberbo trabalho de reportagem, que só pode ser feito se somar determinação, faro de jornalista, boas fontes de informação e ajuda de quem tem muito conhecimento de finanças e contabilidade. Tudo isso está ali.

Consuelo Diegues conta, ao longo de oito páginas (reportagem longa, mesmo para o perfil da excepcional revista), com detalhes, a história da Oi, que daria um bom roteiro para um filme hollywoodiano. Ingredientes não faltam: movimentações suspeitas de figuras do alto escalão do governo em países de três continentes (Brasil, Portugal e Angola), lances ousados de negócios, acionistas majoritários beneficiados enquanto a empresa afundava. E curiosidades, muitas curiosidades.

Como a do filho do presidente Lula com interesses não muito explicados na empresa, um decreto do governo brasileiro (sob Lula) feito sob medida para um único negócio, a presença de José Dirceu (sempre ele) como lobista, uma parceria entre um empresário ligadíssimo a Lula (Sérgio Andrade, da Andrade Gutierrez) e o irmão do líder do principal partido de oposição a Lula no Congresso (Carlos Jereissati, da La Fonte, irmão do senador Tasso Jereissati), megacomplicações acionárias em Portugal e no Brasil envolvendo até um ex-primeiro-ministro português (e amigo de Lula), José Sócrates (que chegou a ser preso), e muita coisa mais.

E Consuelo responde, em sua reportagem, aquela pergunta lá de cima: como a Oi acumulou tal passivo? “Pela utilização abusiva da empresa por seus antigos controladores — os grupos Andrade Gutierrez e La Fonte — e a excessiva interferência governamental.” Quem herdará o mico? Não é difícil de prever. Basta saber quem são os credores maiores da Oi: BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e os acionistas minoritários. Em outras palavras, sobrará para você, leitor. Vale a pena ler a reportagem. E perguntar uma vez mais: nunca será aberta a caixa de segredos do BNDES?

Deixe um comentário

wpDiscuz