Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Gastos de governo no Brasil correspondem a 40% do PIB; no Chile, a 23%

O Chile cresce e se desenvolve mais do que o Brasil porque investe certo em educação, organizou a saúde e fez as reformas previdenciária, trabalhista e judiciária

O fracasso do sistema – surrealismo e sociedade por Igor Morski

Há uma constante indagação sobre as razões de nosso atraso tanto econômico quanto social, em relação, para não irmos muito longe, a nossos vizinhos. Chile, por exemplo. Como pode o Chile ostentar uma renda per capita já em torno dos 20 mil dólares, entrando no Primeiro Mundo, se não nos alçamos acima dos 12 mil? Como podem os chilenos viver sob um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,83 e ser o número 42 entre 143 países, se nosso índice está em 0,73 e estamos no 75º lugar? Os gastos de governo, no Brasil, correspondem a 40% do PIB; no Chile, a 23%. Por que a paridade do poder de compra, no Chile, cresceu em 30% de 2008 a 2016, e no Brasil apenas 17% no mesmo período?

Por que na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) o Chile é o mais bem avaliado dos países sul-americanos e o Brasil só não perde para a Venezuela? Como pode essa pequena nação, com apenas 18 milhões de habitantes, ostentar três prêmios Nobel, enquanto o Brasil, dez vezes maior, nunca obteve uma premiação? Por que são baixas repetência a evasão escolares no Chile e enormes no Brasil? Por que a taxa de assassinatos no Brasil é de 27 mortos anuais por 100 mil habitantes e no Chile não chega a 4?

Por que o sistema de saúde pública funciona no Chile e é caótico no Brasil? Lembremo-nos que a geografia e a geopolítica, para não dizer a natureza, pesam contra os andinos. Poucos países no mundo têm superfície mais desfavorável do ponto de vista geopolítico que o Chile. Um dos princípios dessa ciência — a Geopolítica — é o de que uma extensão territorial mais próxima da circular ou da quadrada é a mais adequada ao desenvolvimento de um país. Explica-se: construir infraestrutura — estradas e linhas de transmissão, por exemplo — toma muito menos extensão em uma área próxima de um quadrado do que em uma área de um retângulo muito alongado. Ora, o Chile é exatamente um retângulo muitíssimo alongado, com 6.500 km no sentido Norte-Sul e uma largura média Leste-Oeste pouco acima dos 100 km.

A área do Chile (756 mil quilômetros quadrados) não é muito diferente da área de Minas Gerais, que tem a forma quase circular (586 mil quilômetros quadrados). Exemplificando o princípio geopolítico, fazer duas estradas de ferro, uma que corte Minas Gerais no sentido Norte-Sul e outra que faça o mesmo no sentido Leste-Oeste, vai demandar duas vezes 800 quilômetros, ou seja, 1.600. Fazer o mesmo no Chile exigiria 6.500 mais 100 quilômetros, 6.600 no total.

Os Andes não permitem que o Chile contemple muita coisa além do mar. Suas fronteiras terrestres ou são intransponíveis (cerca de 5.000 quilômetros com a Argentina) ou levam a nada: 800 quilômetros com a Bolívia e 170 com o Peru. Isto sem falar nos acidentes diplomáticos com os vizinhos.

O Chile tem terremotos e vulcões. Tem áreas de clima frio durante boa parte do ano. Tem regiões inóspitas, como o deserto de Atacama, ao norte, e não experimenta muitas chuvas, a não ser nas regiões mais frias do sul. Recursos naturais apreciáveis, o Chile não tem. Tanto que a metade de suas exportações se resume ao cobre.

A produção de energia elétrica vem primordialmente de fontes não renováveis importadas.
Com todo esse rosário de dificuldades, como pode esse pequeno país liderar economicamente essa América do Sul, com gigantes contemplados com tudo que a natureza tem de bom, como o Brasil?

Teve ultimamente bons governantes, que compensassem suas deficiências naturais? Nem sempre. Salvador Allende, que as esquerdas adoram enaltecer, foi um dirigente fraco, embora radical, que destroçou a economia chilena em seu breve governo (menos de três anos), submeteu-se sabujamente a Fidel Castro e à KGB soviética. Estatizou o que podia e o que não podia, e entrou pelo caminho que hoje trilha a infeliz Venezuela. É um filme conhecido. Acabou destituído e morto, dando lugar a um longo período de governo militar de Pinochet (16 anos). Governo militar, diga-se de passagem, não tolerante como os governos militares brasileiros, mas bastante duro. Não tolerou, como no Brasil, uma oposição atuante no Congresso, e eliminou oponentes até no exterior.

Algumas respostas

Voltemos à primeira linha deste artigo: quais as razões de nosso atraso econômico e social? O que explica a baixa renda do brasileiro? Quais as raízes da enorme violência, da saúde e da educação deficientes que ostentamos e que não existem no Chile? Há resposta para o descompasso entre Brasil e Chile?

Diria que não há uma, mas várias respostas, e vou tentar resumi-las, além de restringi-las aos últimos 50 anos, pois a educação chilena sempre foi mais cuidada que a brasileira.
Na segunda metade dos anos 1960, o Brasil se livrava da desordem do governo João Goulart e de sua República Sindicalista, e promovia reformas econômicas com uma equipe de peso (Roberto Campos, Octavio Gouveia de Bulhões). Combateria a hiperinflação e organizaria a infraestrutura, embora ainda fosse forte a presença do Estado na economia.

Mas a mudança de governo, de Castello Branco para Costa e Silva, implicaria um endurecimento do regime e manutenção dos militares no poder, como contraponto à luta armada dos grupos de esquerda inspirados por Fidel Castro, principalmente.

Enquanto isso, os chilenos viviam uma situação de desconforto com a fraqueza do governo de Eduardo Frei, indefinido politicamente, sem sustentação parlamentar e governando com uma equipe sem brilho e descoordenada, que redundaria na subida do comunista Salvador Allende ao governo chileno, em 1970.

Até 1975, parecia que o Brasil, que vivia o “mi­lagre econômico” tomaria a dianteira da América Latina, com a economia crescendo a dois dígitos. E o Chile mergulhava no caos socialista, com uma economia estatizada, hiperinflação e desabastecimento, o que viria a derrubar Allende em 1973 e propiciar a subida de Augusto Pinochet. Os 15 anos seguintes propiciariam o adiantamento chileno em relação ao Brasil, no campo da economia.

No Brasil, o regime militar aceitava uma oposição parlamentar cada vez mais forte e pronta para se opor a reformas maiores (que os militares, também adeptos de uma intervenção maior do Estado na economia, não viam como fundamentais no momento), se enfraquecia e acabaria deixando o governo.

Tancredo Neves, do PMDB, seria eleito em 1985, mas não governaria. O governo seria de José Sarney, fraco e descoordenado, levando a economia ao caos inflacionário. A Assembleia Constituinte de 1985 produziria em 1988 uma Carta Magna que, para seu presidente, Ulysses Guimarães, era a “Constitui-ção Cidadã”, mas para mentes acostumadas a pensar mais longe, como o senador Roberto Campos, era um repositório de “dispositivos retrógrados que significam considerável recuo na caminhada do país para o desenvolvimento e a justiça social”.
A realidade mostrou que este último estava certo. Não existem direitos caídos do céu. Todos têm a correspondente obrigação.

Haveria a seguir a eleição catastrófica de Fernando Collor, em 1989, seu impedimento dando posse a Itamar Franco em 1992 e a guinada à esquerda com a posse de Fernando Henrique Cardoso em 1995.

O movimento das esquerdas latino-americanas chamado Foro de São Paulo, a partir de 1990 viria a dar as diretrizes para os governos brasileiros, embora o Brasil tivesse uma economia mais ou menos ordenada de 1995 até 2003, graças à presença do tripé econômico (câmbio flutuante, responsabilidade fiscal, meta de inflação), herança de Itamar Franco, junto com o Plano Real. Sabemos depois o que aconteceu.

Já o Chile teria Pinochet como o único presidente enquanto o Brasil tinha Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique.

Ditadura? No Chile, não há como negar. Como há um fundo de bondade mesmo nas coisas más, aproveitou-se Pinochet da força de seu governo para promover as reformas chilenas mais necessárias e profundas, que até hoje fazem falta no Brasil.

A revista “Veja” número 2.078, de 2008, fez boa reportagem sobre o desenvolvimento chileno, com o título de “Vinte anos de crescimento”. Já a imprensa mundial calou-se sobre essas conquistas do povo chileno, sob Pinochet.

Mas quem conta mesmo a história dessas reformas é o jornalista Rafael Vadivieso Aristia, em seu livro “Crônicas de um Riescate”. Essas reformas, que levaram o nome de “Siete Modernizaciones”, consistiram em: reforma trabalhista, reforma previdenciária, reforma educacional, reforma judiciária, reforma administrativa, organização da saúde pública e privada e organização da atividade agrícola. De tal forma resultaram que sucessivos governos chilenos de esquerda as respeitaram, evitando as aventuras bolivarianas que arrastaram outros países (Brasil inclusive) para o atraso. Em suma: educação e reformas é o que precisamos.

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