Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Apesar do desastre e dos alertas, o lulopetismo prepara seu “retorno” à política do Brasil

Não faltaram alertas sobre Hitler, Lênin e Stálin. Mas ninguém quis ouvir. Agora, assiste-se a possibilidade da volta de Lula ao palco central da política brasileira

Lênin, Stálin e Hitler: todo mundo sabia que o ovo da serpente ia gerar serpentes, mas os indivíduos acabaram aceitando, até placidamente, a hegemonia dos ditadores. É preciso ficar mais atento aos avisos sobre o “mal” | Fotos: Wikipédia Commons

Os grandes desastres sociais que atingiram as nações na era moderna não caíram de surpresa sobre os cidadãos. Foram tragédias longamente anunciadas, avisos bastante difundidos, e coube a quem neles não acreditou pagar o preço, muitas vezes em guerra, despojamento, banimento, prisões, tortura e morte.

É interessante comprovar que os maio­res males, originados no século pas­sado, e que se estenderam a nível global, foram talvez os mais previstos, com maior número de alertas, solenemente ignorados não só pela massa dos homens comuns, como pela maioria dos que compunham as elites dirigentes dos países mais avançados da época.

Nazismo

E mais extraordinário, vale lembrar, os alertas foram dados pelas figuras que se dispunham a desencadear os cataclismos sociais que acabaram por liberar. Nada foi mais previsível do que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), até porque quem a desfechou, um cabo reformado do Exército alemão, que havia se transformado em chefe de um pequeno partido político na Baviera, havia anunciado em livro tudo que pretendia fazer pelas armas quando chegasse ao poder.

O cabo, chamado Adolf Hitler (1889-1945), havia intentado um golpe de Estado em Munique, no ano de 1923, que, fracassado, o levara à prisão de Landsberg, onde resolveu redigir seu livro de memórias e intenções, batizado como “Mein Kampf” (“Minha Luta”).

Estava tudo ali, no que tange às intenções nazistas, principalmente a perseguição aos judeus, a anexação da Áustria (o Anchluss) e a invasão da União Soviética, descrita no livro como Ex­pan­são para o Leste (Drang nach Östen).

Mesmo quando Hitler assumiu o poder, em 1933, poucos acreditaram no que estava claramente expresso no papel, entre as maiores lideranças europeias. Eduard Daladier, primeiro-ministro na França, e Neville Cham­berlain, idem na Inglaterra, deixaram-se levar pela retórica do ditador nazista, que queria e conseguia ganhar tempo, en­quanto se armava. Chegaram a assinar com o líder nazista e o italiano Be­nito Mussolini um acordo (tratado de Mu­nique) de não agressão, em em 1938.

Até o astuto Ióssif Stálin, chefão da União Soviética, que pensava estrategicamente em invadir a Alemanha, preferiu acreditar nas mentiras ditas por Hitler, a crer nas verdades por ele expressas em seu livro, e que vinha cumprindo passo a passo.

Desprezando a tomada da cidade polonesa de maioria germânica de Dantzig em 1934, a anexação da região dos Sudetos, tomada da Tchecoslo­vá­quia em 1938 e a anexação da Áustria ainda em 1938, Stálin assinou com Hi­tler o tratado de não agressão e de divisão da Polônia em 1939. Mas a In­gla­terra e a França, graças principalmente a Winston Churchill (frise-se que leu bem “Minha Luta”), haviam finalmente, em­bora tardiamente, acordado, e estourou a guerra. O resto é por demais sabido.

Comunismo

Outro desastre, irmão gêmeo do na­zismo e da Segunda Guerra que ele gerou, foi o comunismo. Também foi anunciado com todas as letras, embora edulcorado pela teoria de Engels e Marx com a capa da igualdade entre os homens e da não exploração do operariado e do campesinato por seus opressores.

Vladimir Lênin, e depois Stálin, mesmo antes da Segunda Guerra, haviam de desnudar as intenções comunistas, o primeiro por seus escritos, principalmente, pois pouco ficou no poder (morreu em 1924) e o segundo, por suas ações.

São abundantes nos escritos de Lênin, o que pretendiam os comunistas com o poder nas mãos, mas nem por isso os países europeus se precataram para pôr um freio no movimento. Partidos comunistas inspirados por Moscou floresceram na década de 1920, na Itália, na Inglaterra, na Alemanha e na França, principalmente.

Se Hitler expunha suas intenções expansionistas e guerreiras em “Mein Kampf”, Lênin também revelava suas intenções totalitárias e violentas em seus escritos. Nunca conciliar, mas combater até a tomada do poder, era a palavra de ordem do sanguinário filósofo. Seu jornal, iniciado em 1900, chamava-se, significativamente, “A Centelha”. A ideia era incendiar o planeta com ideologia marxista.

“Desde o começo, preferimos formar um partido em separado e seguir a via do combate em vez da via da conciliação”, dizia Lênin em seu jornal. Em seu livro clandestino, “O Estado e a Revolução”, escrito às vésperas da revolução de 1917, Lênin deixava claro a face totalitária e intolerante do regime, uma vez tendo nas mãos o poder, e a falta de escrúpulos no seu uso.

Dizia Lênin, mencionando a fase de transição do capitalismo para o socialismo, a ditadura do proletariado: “ … não é difícil de se convencer que, quando se transita do capitalismo para o socialismo, a ditadura é necessária por duas razões essenciais ou em duas direções principais. Não se pode vencer e extirpar o capitalismo sem reprimir impiedosamente a resistência dos exploradores, que não irão aceitar que os despojemos de seus bens, das vantagens de suas organizações e de seus conhecimentos … para atingir nossa meta, será preciso uma mão de ferro…”.

A história futura da União Soviética e de seus satélites iria mostrar que a mão de ferro mencionada por Lênin era muito mais esmagadora que se poderia, naquela altura, pensar.

Lênin continua no mesmo “O Es­tado e a Revolução”: “A infelicidade das revoluções do passado estava em que o fervor revolucionário das massas, que alimentava seu estado de tensão e lhes dava a força de castigar impiedosamente os elementos de decomposição social não durava muito tempo”.

Vê-se que Lênin se refere à Revolução Francesa, principalmente, e acha que a guilhotina trabalhou pouco. Mas ele próprio, e Stálin, principalmente, até porque teve mais tempo, iriam corrigir esse erro. Promoveriam torturas e matanças para ninguém botar defeito.

A história iria mostrar que a transição para o socialismo não acaba no tempo, pois fazer com que a “ditadura do proletariado” se eternize, esticar ao infinito o totalitarismo, é a única forma de manter um regime utópico com vida.

Em “Esquerdismo — Doença Infantil do Comunismo”, livro escrito em 1920, Lênin volta à ditadura do proletariado, cujas consequências os povos de todos os países comunistas, até das excrecências atuais, como Cuba e Coreia do Norte, conhecem muito bem: “A ditadura do proletariado é a guerra mais heroica e mais implacável da nova classe contra um inimigo poderoso, contra a burguesia cuja resistência é decuplicada por sua derrota … a ditadura do proletariado é indispensável, e é impossível vencer a burguesia sem um guerra prolongada, firme, encarniçada, uma guerra de morte, que exige o auto domínio, a disciplina, a firmeza, uma vontade inflexível …”. Uma guerra prolongada (ao infinito), uma guerra de morte. Exatamente o que se viu em todos — sem exceção — países comunistas. Uma guerra da cúpula do regime contra todos os que dela discordassem. Os avisos não foram poucos.

Lula da Silva: apesar do desastre na economia, na política e na moral, o petista prepara seu retorno para a disputa presidencial em 2018. | Foto: Ricardo Stuckart Filho

Foro de São Paulo

Em nosso terreno, o Foro de São Paulo, em 1990, anunciava que era preciso recuperar, na América Latina o que o comunismo havia perdido no Leste Europeu. Poucos deram importância. É dos tempos atuais, e agora entra outro pensador, Antonio Gramsci, o comunismo atuar com discrição, solapando sorrateiramente a base social, de maneira derrubar, com seu próprio auxílio e sem que ela perceba, a democracia.

Ainda que atuando com certa discrição, o Foro de São Paulo era uma desgraça anunciada. E a discrição não poderia ser grande, se estavam na sua raiz figuras tão conspícuas como Fidel Castro, exemplo acabado de ditador infame; as Farc, uma modelar organização de mistura entre comunismo e tráfico dos mais destruidores entorpecentes; organizações paramilitares e partidos marxistas do subcontinente.

Alguns jornalistas e intelectuais, como o filósofo Olavo de Carvalho, se cansaram de denunciá-lo, mas grande parte de nossa imprensa se calou. O anúncio não foi suficiente para evitar Hugo Chávez e Nicolas Maduro, e a consequente destruição da Venezuela; a subida do bispo conquistador (sim, de mulheres) Fernando Lugo, no Paraguai; Evo Morales, na Bolívia, e, para a infelicidade nossa, Lula da Silva e Dilma Rousseff, com todas as consequências desastradas do petismo, como os bilhões de dólares do trabalhador brasileiro desviados para financiar governos marxistas (até na África), corrupção desenfreada, caos econômico e um conflito político e social que ainda vai se prolongar. E já que falamos de avisos, fica um aqui: eles estão se articulando para voltar.

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