Afonso Lopes
Afonso Lopes

Nem Iris está satisfeito

Uma coisa não se pode negar: o prefeito Iris Rezende, embora com evidentes exageros em alguns momentos, fez um balanço correto e politicamente honesto de seu mandato até aqui

Os primeiros 100 dias de Iris Rezende à frente do comando do segundo maior trono político-administrativo do Estado, a Prefeitura de Goiânia, não formam o que se pode chamar de conjunto exitoso. Ao contrário, foi um tempo de penúria, dificuldades e, de certa forma, frustração pessoal. Pelo menos, é essa uma das muitas conclusões que se pode extrair do balanço apresentado pelo próprio prefeito à imprensa da capital. Ele, definitivamente, não gosta do resultado geral. Está nitidamente insatisfeito.

Sob esse tom e diapasão, o balanço feito por Iris está correto e é politicamente honesto. Realmente, não há como ficar satisfeito com tudo o que se percebe no dia a dia da cidade, com pequenas ou médias crises que explodem numa rotina espetacular como se fosse milho de pipoca no óleo quente. A população não tem gostado porque, evidentemente, esperava bem mais. Iris não tem gostado pela mesma razão.

Fora essa parte, houve momentos de ufanismo nitidamente exagerado, mas certamente compreensível, algumas omissões, o que se situa dentro da acomodação política de sua própria posição e caberia, então, não ao próprio, mas aos adversários apontar, e um monte de justificativas baseadas na herança recebida, uma maldição de 600 milhões de reais em dívida flutuante vencida e rombo mensal de 31 milhões de reais. Bem dentro do seu estilo de sempre, meio caipirão e cheio de frases impactantes pelo inusitado, ele disse que sabia que as coisas estavam ruins, mas não imagina encontrar uma casa tão bagunçada.

Há gargalos na administração, porém, que o prefeito não demonstra a mínima capacidade de resolução. O ápice dessa situação é o transporte coletivo. Olhando e interpretando as respostas de Iris sobre o tema, não se encontra nada, nem ao menos um pedaço de frase, que indique que se caminha para soluções que amenizem o sofrimento cruel que se da ao usuário. E o sistema que aí está ruiu, acabou, não tem solução dentro do formato atual, inclusive, e talvez com enorme peso, com as empresas operadoras. A maior delas, por exemplo, está em processo de recuperação judicial. E de todas as demais que dividem o bolo da exploração comercial desse serviço, apenas uma esbanja boa saúde financeira. Como, então, melhorar a operação se não há condições de se investir através dessas empresas? Do jeito que está, e com elas, é daí pra pior, sem nenhuma perspectiva de melhoria pelos próximos anos.

Uma nova licitação do serviço, com a denúncia formal por não cumprimento de cláusulas do atual contrato em vigor, resolveria o problema? Pode ser que sim, que seja esse o caminho inicial para uma mudança a médio prazo. Mas não existe qualquer garantia de que se isso for feito o problema será equacionado. A começar pela dúvida: quais empresas do setor prestam serviço de qualidade muito superior às que atuam em Goiânia? De Curitiba, talvez, que sempre é apontada como cidade modelo de transporte coletivo. Só que o resultado obtido lá não pode ser replicado aqui ou em qualquer outra cidade sem uma enorme intervenção no sistema viário da cidade. Foram décadas para os curitibanos chegarem no estágio em que estão. Em segundo lugar, e por fim, caso as empresas de lá quisessem vir para atuar também aqui, quanto elas cobrariam para bancar um pesadíssimo investimento inicial para implantação? Qual seria o preço a pagar?

Quando se vê o problema a partir desses aspectos, que não são nuances, mas estruturais, tem se a exata dimensão do que representa a falta de um estudo por parte da Prefeitura para estabelecer uma linha de atuação para a melhoria do serviço. A solução, certamente, não será encontrada nem pelos justos desabafos encontrados nas redes sociais e nem por mirabolâncias técnicas ou mero aumento de tarifas. Até porque não é a tarifa que é baixa, é o serviço que não vale grande coisa.

Essa não é a única área da Prefeitura que o próprio Iris vê como negativa neste curto período de 100 dias. A saúde também vai mal pra burro. Mas aqui, segundo ele, a solução tem nome e endereço: grana no cofre. Sem dinheiro, como é o caso, não tem mágica que de jeito. Iris desviou com elogios o problema do lixo. Chegou a dizer que naquele dia, no trecho entre sua casa e a Prefeitura, não viu um único papel jogado na rua. Ou ele está literalmente morando no Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges, ou ele estava distraído com alguma outra coisa durante esse trajeto. E quem o desmentiu foi ele mesmo, ao dizer que vai começar, em 60 dias, mutirões de limpeza nos bairros. Alguém manda limpar o que já está limpo?

Enfim, Iris completa provavelmente os primeiros 100 dias mais difíceis de sua longa coleção de mandatos no Executivo – foram seis ao todo, sendo dois como governador e quatro na Prefeitura. Ele tem experiência para reverter esse quadro? Tem, claro que sim, mas seria mais prudente não estabelecer prazos. Ao fazer assim, ele próprio cria um novo patamar de pressão sob sua administração. Sem falar que os outros dois prazos não foram cumpridos. No começo, eram 60 dias. Depois, a partir de abril. Agora, junho. É, está muito mais difícil do que se imaginava.

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