Afonso Lopes
Afonso Lopes

Iris pede trégua de 60 dias, e assessoria diz que trabalho deslanchou

Há descompasso entre a realidade pés no chão do prefeito, que admite dificuldades neste início de mandato, e parte de sua equipe, que garante que a máquina engrenou a mil

Realista, Iris Rezende admite que enfrenta fortes dificuldades financeiras | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O grupamento político é um só, mas as muitas forças internas que compõem a estrutura de poder da Prefeitura de Goiânia não demonstram sintonia no discurso. Enquanto o prefeito Iris Rezende faz as contas, vê que o caixa está com buraco de incríveis 30 milhões de reais por mês, além de uma cratera em torno de 600 milhões ou 700 milhões de reais de dívidas flutuantes vencidas, resultado da herança maldita que teria re­cebido do governo de Paulo Garcia, nas redes sociais parte da assessoria municipal anuncia diariamente um vendaval de prestação de serviços que demonstraria uma máquina perfeita e funcionamento com desempenho máximo. Quem tem razão: o chefe ou os subalternos?

Iris é quem está certo. A máquina da Prefeitura até que tem se movimentado, mas de maneira lenta e dentro das pouquíssimas possibilidades que encontrou neste início de governo. O serviço de limpeza está sendo feito um pouco melhor do que estava antes, mas não é nenhuma Brastemp. O desempenho é muito menor do que em outros tempos, quando as vacas não estavam no pasto seco das dificuldades de caixa. O trabalho de tapa-buracos no leito lunar em que se transformaram as ruas e avenidas em toda a cidade também é facilmente percebido pela população, mas há algo estranho no resultado final. Em alguns locais, os buracos tapados afloraram novamente. Difícil entender o que pode ter acontecido. Talvez a mistura de betume e brita que está sendo usada seja menos concentrada do que deveria ser exatamente para “render” um pouco mais.

De qualquer forma, é óbvio que ninguém pode negar que a administração de Goiânia vive um ritmo muito diferente, pra melhor, em relação ao que havia até dezembro. Pelo menos, nesses dois serviços. Nos demais, não. Durante a semana passada, por exemplo, o jornal “O Popular” flagrou a frota da Secretaria de Trânsito na garagem durante o horário de expediente normal. A razão da parada não é estratégica, mas a mais elementar de todas: falta de combustível. O mesmo jornal, citando o Ministério Público Estadual, também fez uma denúncia séria em relação ao governo anterior: parte da arrecadação de multas serviu para pagar aluguel de carro para secretário e bancar café da manhã. Isso fere a legislação. Esse tipo de arrecadação é carimbada, e só poder ser utilizada na melhoria do trânsito.

Se falta gasolina para as viaturas da SMT, a Saúde não vive dias melhores. Falta de tudo um pouco, desde médicos — que não tiveram contratos renovados automaticamente — até insumos essenciais para doentes crônicos, como a insulina para os diabéticos registrados no sistema público de saúde. Esse problema não é atual. É uma perversa rotina que vem sendo enfrentada pelos diabéticos, que ficam sob risco de morte, há mais de dois anos.

SMT, Saúde e o que mais an­da parado por falta de dinheiro? As creches. A situação também aí é dramática. Na rede própria, Cmei, alguns prédios não têm condições de abrigar as crianças por falta de manutenção. Em ou­tros, onde ainda há um certo pa­drão, não tem professores. A rede conveniada poderia ajudar a minimizar os danosos efeitos dessas falhas, mas os convênios estão atrasados e a esmagadora maioria fe­chou as portas à espera de dinheiro.

O discurso de Iris Rezende, portanto, soa não apenas mais sincero como bastante realista. Ele pede pelo menos 60 dias de prazo para começar a consertar a situação. Faz sentido a sua esperança. Nesse período, começa a entrar o dinheiro proveniente do IPTU e ITU. Não será o suficiente para debelar todos os problemas herdados e aqueles que continuam se acumulando, mas é um refresco em pleno deserto financeiro. Nesse meio tempo, ele deve estar fazendo um diagnóstico mais detalhado sobre a completa, complexa, cara e quebrada máquina administrativa que recebeu de seu antecessor. Mais do que descobrir onde estão os nós administrativos, e os buracos no caixa, ele precisa mostrar detalhadamente para a população como recebeu a Prefeitura.

Esse dado é importante quando se olha em direção a médio prazo. Ao assumir, Iris falou que recebeu uma dívida flutuante vencida em torno de 400 milhões de reais. Depois, esse total subiu para 600 milhões, e surgiu a informação de déficit mensal na casa dos 30 milhões mensais — o que na soma dos dois ítens já leva a situação para a faixa do bilhão de reais este ano. Imedia­ta­mente, seu antecessor, Paulo Garcia, não apenas desmentiu a informação como acrescentou que também recebeu déficit do próprio Iris, e que deixou 67 milhões no caixa.

Para não ficar no disse-pelo-não-disse, Iris terá que apresentar o seu diagnóstico com plano de resultados encontrado. Pelo menos, para evitar a sensação de que houve um acordo de velhos “compadres” entre ele e Paulo. Isso teria um custo bastante complicado lá na frente.

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