Do Leitor
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Cartas

“Por que ‘A Chegada’ é meu favorito”

“A Chegada” mostra como linguagens diferentes podem afetar nossa percepção do espaço-tempo | Foto: Divulgação

Anderson Fonseca

“A Chegada” é meu filme favorito. Imagine você como funciona nossa percepção do tempo. Bem, já há provas de que nossa percepção do tempo é influenciada por nossa linguagem. Além disso, o tempo é efeito da termodinâmica no cérebro. O tempo segue uma seta do passado para o futuro e você observa isso na expansão do universo ou numa casa em desordem, mas a linguagem afeta nossa percepção do tempo e do espaço. Uma cultura que veja o tempo como um movimento cíclico construirá uma linguagem em que isso seja representado. O verbo, neste caso que se refere aos estados transitórios, seria diferente. Na Bíblia, em Eclesiastes 3: 9, o tempo é descrito como cíclico. Deus, por exemplo, é chamado de “É” ou de “Já”, em várias passagens bíblicas, porque Ele não participa da transitoriedade a qual os homens estão sujeitos. Por isso, para Deus é usado o verbo ser na terceira pessoa (“É”) e nenhum hebreu pode usá-la.

Imagine então uma sociedade criada em um planeta cujo movimento rotativo seja menor que 24 horas, ou, orbitando um quasar. A percepção do tempo não apenas seria diferente, mas a linguagem que representa esta percepção também. Agora, imagine uma sociedade formada em um satélite artificial orbitando um buraco negro. Nesta, a percepção do tempo é afetada pelo movimento translativo, rotativo, gravidade, entropia etc. Imagine, então, que um membro desta sociedade entre em contato conosco. Quando aprendermos sua linguagem, nossa percepção do espaço-tempo será afetada.

Uma comunidade que não usa substantivos para orientação espacial como direita e esquerda, estranharia nossa descrição do espaço, mas, depois de estar conosco e aprender, passaria a usar em seu próprio habitat. Há uma tribo aborígene que não enxerga a cor azul. Uma experiência feita com eles, em que em um desenho hexagonal há quadrados de cores verdes e apenas um azul, esta cor só foi percebida após ter sido indicada pelos cientistas. Por que eles não percebiam? Porque em seu vocabulário há diversos nomes para a cor verde, mais não há o azul. Nossa percepção da cor é afetada pela linguagem e só percebemos algo depois que nomeamos. Bem, então é assim: a língua afeta nossa percepção do espaço e do tempo, logo, se aprendemos outra língua esta percepção é modificada. [“A Chegada só é interessante do ponto de vista linguístico”, Jornal Opção Online, Opção Cultural]

Anderson Fonseca é escritor.

 

“Até hoje os italianos homenageiam os ‘pracinhas’ brasileiros”

Gilberto Marinho

As cidades italianas, onde os soldados brasileiros combateram, até hoje homenageiam os nossos “pracinhas”. Um dos horrores da guerra é a fome – que atinge, principalmente, crianças, mulheres e idosos. O soldado brasileiro era o único que dividia sua ração com eles. Todos os anos, as crianças das escolas “primárias” dessas cidades italianas se reúnem para homenagear a FEB [Força Expedicionária Brasileira], cantando em português o “Hino do Expedicionário” – hino que, aliás, a maioria dos nossos professores de história e dos brasileiros desconhece. A banda sueca Sabaton compôs uma música para homenagear ato de heroísmo de três pracinhas brasileiros. [“Waldyr O’Dwyer: o relato de um oficial do Exército sobre a participação brasileira na 2ª Guerra Mundial”, Jornal Opção 2169]

Gilberto Marinho é jornalista.

 

“Um ‘estudioso’ deveria interpretar melhor a mensagem de J. R. R. Tolkien”

Ivan Vieira

No Brasil não existe interpretação textual, por isso a molecada acha plausível ser fã de “Star Wars” e apoiar o golpista Michel Temer (PMDB); acha normal curtir “X-Men” e defender Jair Bolsonaro [deputado federal pelo PSC-RJ]. Como um católico nascido em fins do século 19, John Tolkien era muito conservador em sua mundividência e isso se torna explícito nas cartas. Mas o seu legado é uma apologia à diversidade e um manifesto pelas diferenças, talvez porque ele buscasse restaurar a mensagem crística em sua essência por meio da sua obra. Um leitor de “O Senhor dos Anéis” não pode ignorar a pulsante mensagem de tolerância e empatia, já que Gandalf defende a vida do próprio Sméagol quando Frodo “Bolsomínion” questiona por que Bilbo não o matou quando teve chance. Um “estudioso” deveria ser mais cauteloso e interpretar melhor a mensagem de amor e empatia de J. R. R. Tolkien.

Ivan Vieira é professor assistente na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

 

“O governo tem a obrigação de investir nos presídios”

Patrícia Valéria Ferreira

Concordo com o jornalista Elder Dias. Vejo opiniões contrárias, pessoas querendo a volta da lei de talião. Como já disse alguém, assim vamos acabar um país de mutilados. Assim como em áreas como saúde e educação, o governo tem a obrigação de investir nos presídios que faz parte da Segurança. Não podemos nos comportar como bárbaros, simplesmente virar as costas pra esse horror não o fará menos terrível. Esse preso um dia retornará para a sociedade. A pergunta é: em que condições? Presos de menor periculosidade saem do presídio verdadeiros assassinos porque em locais como esse funciona uma escola do crime. Não dá para governantes jogarem a sujeira embaixo do tapete. Vejo soluções paliativas em andamento mas ninguém mencionou a construção de novos presídios e cadeias. [“A prisão é o esgoto da sociedade. Mas mesmo os “dejetos” devem ser tratados”, Jornal Opção 2167]

 

“Vamos querer que os presidiários saiam pior do entraram?”

Itamar Oliveira

As pessoas não param para pensar. Não estamos preocupados com o bem-estar dos internos, como picham por aí: estamos preocupados com a maneira com a qual vão sair de lá, pois eles voltarão pra sociedade. Então, vamos querer eles pior do que quando entraram lá? [“A prisão é o esgoto da sociedade. Mas mesmo os “dejetos” devem ser tratados”, Jornal Opção 2167]

Itamar Oliveira é engenheiro ambiental.

 

“Olavo de Castro mereceria ser estudado como empresário”

Alberto Nery

Quando ouvimos dizer que um empresário construiu no Brasil qualquer empreendimento com recursos próprios, é obrigação que ele seja estudado. Porque aqui ninguém constrói nem casa de joão-de-barro sem ajuda bancária, principalmente de banco estatal. [“Morre Olavo de Castro, o empresário que construiu o Castro’s Hotel com recursos próprios”, Jornal Opção Online]

 

Durval Junior

Bela reportagem com um entrevistado raro: um ex-oficial da FEB, ainda vivo e lúcido. Apenas uma observação: o U-507 jamais recebeu “ordem de atacar os navios brasileiros”. Tal iniciativa coube ao seu capitão, Harro Schacht. O U-507 era um “lobo solitário”, pois os outros dez submarinos a que se refere o entrevistado faziam parte da “Operação Brasil”, abortada dias depois de desencadeada, em julho de 1942.

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